"Israel, enfurecido com o que aconteceu no Oriente Médio, atacou violentamente uma importante instalação conhecida como Campo de Gás de South Pars, no Irã. Uma parte relativamente pequena de toda a instalação foi atingida. Os Estados Unidos não sabiam nada sobre esse ataque específico, e o Catar não estava envolvido de forma alguma, nem tinha ideia de que ele iria acontecer. Infelizmente, o Irã desconhecia isso, nem nenhum dos fatos pertinentes ao ataque a South Pars, e atacou injustificadamente e injustamente uma parte da instalação de gás natural liquefeito (GNL) do Catar." Não haverá mais ataques de Israel contra o importantíssimo e valioso Campo de Gás de South Pars, a menos que o Irã, imprudentemente, decida atacar um país inocente, neste caso, o Catar. Nessa situação, os Estados Unidos da América, com ou sem a ajuda ou consentimento de Israel, explodirão massivamente todo o Campo de Gás de South Pars com uma força e potência jamais vistas ou testemunhadas pelo Irã. Não quero autorizar esse nível de violência e destruição devido às implicações de longo prazo que terá para o futuro do Irã, mas se o GNL do Catar for atacado novamente, não hesitarei em fazê-lo. Agradeço a atenção dispensada a este assunto. Presidente Donald J. Trump

Crédito, Getty Images / Truth Social

    • Author, Paul Adams
    • Role, Correspondente diplomático
  • Há 12 minutos

  • Tempo de leitura: 6 min

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, divulgou uma declaração em seu estilo caracteristicamente contundente após os ataques a um importante campo de gás compartilhado por Irã e Catar na quarta-feira.

Israel atingiu South Pars, no Irã — parte do maior campo de gás natural do mundo — e Teerã retaliou atacando um complexo energético no Catar. Os ataques provocaram uma alta nos preços de energia e alimentaram a irritação de Trump.

Em sua rede social Truth Social, Trump voltou a ameaçar o Irã e afirmou que não sabia dos planos de Israel para o ataque.

Mas o que a linguagem usada pelo presidente dos EUA nos diz sobre o rumo da guerra e sobre até que ponto Estados Unidos e Israel estão alinhados em sua estratégia e objetivos?

Vamos analisar.

Os EUA 'não sabiam de nada' sobre o ataque

O presidente afirma que os EUA "não sabiam de nada sobre esse ataque específico".

Isso contraria diversas reportagens publicadas na imprensa israelense após o ataque.

"O ataque foi coordenado previamente com os Estados Unidos e… acordado entre o primeiro-ministro [Benjamin] Netanyahu e o presidente dos EUA, Trump", informou o jornal de centro Yedioth Ahronoth.

O jornal de direita Israel Hayom vai além, afirmando que "o presidente Trump discutiu o ataque israelense iminente em [a cidade costeira iraniana de] Asaluyeh com líderes de três países do Golfo Pérsico no fim de semana".

Como costuma acontecer com as declarações do presidente, não é fácil saber onde está a verdade.

A escolha de palavras de Trump para descrever o ataque israelense também chama atenção. "Por raiva", diz ele, Israel "reagiu violentamente" contra o campo de gás. Esse é o tipo de linguagem geralmente usado para descrever algumas das retaliações mais impulsivas do Irã — não uma operação militar cuidadosamente planejada por um aliado próximo.

Trump estaria sugerindo que Israel agiu de forma imprudente?

Israel não fará 'mais ataques' ao campo de South Pars

O uso de letras maiúsculas pelo presidente é conhecido, mas, nesta longa publicação, ele recorre a isso apenas uma vez.

"NO MORE ATTACKS WILL BE MADE BY ISRAEL pertaining to this extremely important and valuable South Pars Field" ("NÃO HAVERÁ MAIS ATAQUES DE ISRAEL relacionados a este extremamente importante e valioso campo de South Pars"), escreveu ele, "a menos que o Irã decida, de forma imprudente, atacar um país muito inocente, neste caso o Catar".

Para um presidente que gosta de demonstrar controle, isso reflete um compromisso já assumido ou seria um aviso direcionado a Benjamin Netanyahu?

Como costuma acontecer com as publicações de Trump no Truth Social, escritas em fluxo de consciência, não é fácil saber.

Mas há ecos de reportagens que indicam que Trump ficou irritado com ataques israelenses a depósitos de petróleo iranianos no início do conflito.

Então, os objetivos de guerra de Israel e dos Estados Unidos estão se distanciando?

Provavelmente seria um erro tirar conclusões definitivas com base em uma única publicação noturna do presidente Trump.

Autoridades israelenses fazem questão de enfatizar que os dois países estão totalmente alinhados, ainda que, ocasionalmente, deixem escapar sinais de divergência.

"Estamos muito alinhados na maioria ou em todos os nossos objetivos em relação ao regime islâmico no Irã, ao IRGC [Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica], e aos seus programas balístico e nuclear", disse Alex Gandler, porta-voz da embaixada de Israel em Londres, à BBC na manhã de quinta-feira.

"Queremos a mesma coisa."

Mas, embora os dois aliados concordem em muitos pontos, Israel tem sido mais consistente ao defender uma mudança de regime no Irã.

Autoridades citadas pela imprensa israelense nesta manhã apresentaram o ataque a South Pars como parte de um esforço contínuo para enfraquecer a autoridade do regime.

"O fornecimento de gás aos cidadãos está sendo interrompido, e isso vai aproximar a revolta", disse um funcionário a Yossi Yehoshua, do jornal Yedioth Ahronoth.

O primeiro-ministro Netanyahu nunca escondeu seu desejo, de décadas, de derrubar o regime islâmico, que ele — e muitos israelenses — veem como determinado a destruir o Estado judeu.

Enquanto os EUA têm concentrado grande parte de seus esforços militares em reduzir a capacidade de mísseis e drones do Irã, afundar sua Marinha e, nos últimos dias, atacar alvos ao longo da extensa costa iraniana no Golfo, Israel tem ido além ao assassinar líderes iranianos e atacar estruturas de controle do Estado, incluindo unidades paramilitares Basij, responsáveis por grande parte da repressão violenta a protestos no início deste ano.

Irã 'não sabia' dos fatos sobre o ataque

Em sua publicação, o presidente Trump afirma que o Catar não esteve envolvido nem tinha conhecimento prévio dos ataques.

Mas, "infelizmente", escreve ele, "o Irã não sabia disso" antes de retaliar de forma "injustificável e injusta".

Trump certamente não está poupando o Irã aqui, mas parece sugerir que Teerã não tinha todas as informações ao revidar — que pode ter acreditado, de forma equivocada, que o Catar estava envolvido.

Ameaça de 'explodir massivamente'

Partes da publicação no Truth Social são o típico estilo de Trump — ameaças de usar níveis sem precedentes de violência para conseguir o que quer.

Se o Irã voltar a atacar as instalações de GNL (gás natural liquefeito) do Catar, ele alerta, os EUA "com ou sem a ajuda ou consentimento de Israel, vão explodir massivamente todo o campo de gás de South Pars com uma força e poder que o Irã nunca viu ou testemunhou antes".

Trump e seu combativo secretário de Defesa, Pete Hegseth, são conhecidos por esse tipo de retórica inflamada. Donald Trump, que se autodenomina "presidente da paz", frequentemente recorre a esse tipo de discurso.

E é verdade que Washington poderia causar danos muito maiores ao Irã — e à sua população — do que já causou.

A referência ao consentimento de Israel para a ação ameaçada chama atenção.

Seria uma repreensão a Benjamin Netanyahu para que consulte mais de perto os EUA no futuro?

Com setores do movimento Maga (Make America Great Again), de Trump, já convencidos de que é Israel — e não os Estados Unidos — quem dita os rumos dessa guerra, há o risco de que alguns críticos do presidente vejam isso como um deslize revelador.

Mas, com os preços de petróleo e gás voltando a subir, em parte devido à recente troca de ataques entre Israel e Irã, e sem sinais claros de progresso nos esforços para garantir a navegação pelo Estreito de Ormuz, Trump parece impaciente.

Essa guerra continua a trazer surpresas que o governo não parece ter antecipado.

O apoio ao conflito, ainda muito alto em Israel, é bem menor nos Estados Unidos. O conflito pode ajudar Benjamin Netanyahu a garantir mais um mandato como primeiro-ministro, ao mesmo tempo em que pode custar caro ao Partido Republicano de Trump nas eleições legislativas de meio de mandato em novembro.

Israel e Estados Unidos são aliados militares próximos, mas esta é a primeira vez que travam uma guerra juntos.

E está se mostrando mais complicado do que Donald Trump imaginava.