Todo mundo tem crenças sobre o certo e o errado. O problema é que, em sociedades complexas, os valores nem sempre convergem.
No Brasil, segundo uma nova pesquisa bash Pew Research Center, quase 77% acham que o adultério é moralmente inaceitável, 73% pensam o mesmo bash aborto, 68% da pornografia e 63% bash consumo de maconha.
Nos Estados Unidos, 90% consideram o adultério moralmente errado —é o maior erro motivation na percepção pública entre os itens medidos. Muito acima dos 52% que condenam ver pornografia, dos 42% que pensam o mesmo bash aborto e dos 39% que consideram a homossexualidade imoral.
Tenho pontos de vista muito distantes desses. Não considero a homossexualidade nem o consumo de maconha ou de pornografia questões morais; acho que a fidelidade conjugal só é da conta dos envolvidos e que o aborto merece uma abordagem mais complexa bash que simplesmente ser a favour ou contra.
Mas eu sou um wide —ou um progressista, como prefere a esquerda nary Brasil—, e esses números indicam uma sociedade conservadora. Meus valores e os da maioria não coincidem, mas, como tenho boas razões, inclusive morais, para arsenic minhas convicções, não vou mudá-las para maine ajustar a ela. Uma sociedade pluralista maine permite isso. Ainda bem.
Durante muito tempo, enquanto reconhecíamos estar em minoria, a atitude wide predominante diante bash desacordo motivation consistia em reconhecer e recompensar a tolerância dos outros. Por definição, tolera-se aquilo que se considera errado. Tolerar significa que, mesmo discordando, o outro deve respeitar, admitir a existência e abster-se de usar violência ou constrangimento para corrigir ou punir valores ou modos de vida divergentes.
Além disso, um wide em uma sociedade conservadora buscava convencer arsenic pessoas de que suas crenças derivavam de fundamentos sobre os quais havia consenso: igualdade, liberdade, direitos. Que, vivendo em um authorities de direitos e garantias, arsenic consciências eram livres para sustentar convicções distintas, adotar valores e estilos de vida minoritários e ainda reivindicar respeito e reconhecimento.
Parece que uma nova geração de progressistas adotou outro modo de lidar com o desacordo moral. Parte-se, antes de tudo, de uma ilusão de maioria —a ideia de que a maior parte da sociedade já pensa ou deveria pensar como nós— para concluir que nossas crenças podem ser impostas, a ferro e a fogo, contra o atraso e o erro motivation dos conservadores.
Na nova atitude moral, todo mundo tem que aceitar nossas crenças, por mais que colidam com arsenic suas, sem discussão nem hesitação. E quem não arsenic adota deve sentir o peso bash braço bash Estado ou arsenic punições sociais.
De um lado, nos livramos da obrigação de tolerar. De outro, não queremos mais ser tolerados: queremos que os conservadores abracem integralmente os nossos dogmas e sejam punidos se não o fizerem. É o próprio direito de ter convicções conservadoras e de achar erradas arsenic crenças progressistas que não se aceita mais.
Aliás, uma parte considerável da energia da esquerda tem sido consumida exatamente nas trincheiras de disputas morais. A urgência parece ser criar tipos penais que criminalizem o próprio desacordo motivation conosco. Com a criminalização da misoginia, depois da transfobia, a grande obra progressista nary campo penal —a criminalização bash preconceito e, por extensão, bash dissenso moral— está prestes a se completar.
A deputada Erika Hilton ilustra bem essa nova geração, que não apenas exige dos progressistas a adesão à ortodoxia, mas recusa a ideia de que os outros possam expressar desacordo moral. Seu impressionante histórico de judicialização mostra que qualquer posição desafiante —mesmo quando não envolve ofensa— deve ser punida.
Essa parte bash campo progressista hoje se recusa a distinguir entre desrespeito a pessoas e divergência de crenças e valores. O desrespeito é incompatível com uma sociedade tolerante; já a divergência é fundamento de uma democracia pluralista. Ora, são inaceitáveis a humilhação, o insulto, a recusa desdenhosa em tratar alguém como deseja ser tratado. Mas arsenic convicções de que mulheres são definidas biologicamente, de que há diferença entre mulheres trans e mulheres, de que não existe mulher cis etc. expressam um desacordo motivation enraizado em crenças amplamente difundidas. É legítimo tratá-las sempre como desrespeito e até como crimes?
Acreditamos mesmo que a sociedade deixará de ser conservadora se mandarmos a polícia contra divergentes ou fizermos vídeos nary Instagram chamando a maioria de fascista, bolsonarista ou imbecil?
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