
Crédito, Reuters
- Author, Sarah Rainsford
- Role, Correspondente para o Sul e Leste da Europa de Granadilla, Tenerife
Há 1 minuto
Tempo de leitura: 6 min
A ministra da Saúde da Espanha, Mónica García, afirmou que a operação está "prosseguindo normalmente" e que todos os passageiros a bordo do MS Hondius permanecem assintomáticos.
A embarcação está ancorada perto de Tenerife. Os passageiros foram divididos em grupos por nacionalidade e são transportados para a costa em pequenas embarcações.
Aviões fretados já estão na pista do aeroporto local, prontos para repatriá-los para seus países de origem.
O primeiro grupo autorizado a desembarcar tinha 14 cidadãos espanhóis. Holandeses, alemães e gregos, assim como parte da tripulação, serão evacuados em seguida e dirigidos para um voo operado pelos Países Baixos.

Outros voos estão programados para partir em seguida, incluindo dois com destino para o Reino Unido e os EUA. O último voo de evacuação está previsto para segunda-feira, com destino à Austrália.
Não há registro de brasileiros entre os passageiros.
Com uma lente teleobjetiva, a BBC conseguiu identificar passageiros vistos circulando pelo convés do navio ou nas janelas, todos usando máscaras faciais médicas brancas, enquanto o desembarque das primeiras pessoas acontecia.
Vários deles se sentaram, mantendo o distanciamento social, no pequeno barco de evacuação, filmando e tirando fotos enquanto se aproximavam da costa, onde foram recebidos por oficiais com trajes de proteção brancos.
O Hondius atracou no porto de Granadilla antes do amanhecer de domingo, um mês após a morte do primeiro passageiro a bordo.
O desembarque do MV Hondius começou por volta das 5h30 da manhã (horário de Brasília), segundo o Ministério da Saúde local. Algumas horas antes, equipes médicas entraram no navio para verificar se os passageiros apresentavam sintomas.
Ao redor da embarcação, é possível ver barcos da polícia militar em patrulha e uma grande operação em andamento em terra para ajudar os mais de 100 passageiros e tripulantes a desembarcar.
Foram feitos preparativos meticulosos para receber o navio, que não teve permissão para atracar na costa: um perímetro de segurança de uma milha náutica foi imposto ao redor da embarcação enquanto ela se aproximava da ilha.
Dezenas de especialistas em terapia intensiva estão de prontidão no hospital Candelaria, em Tenerife, caso algum passageiro apresente sintomas graves durante a transferência. Uma unidade de isolamento foi preparada com um leito totalmente equipado para lidar com doenças infecciosas, com kit de teste e ventilador.
"Estamos absolutamente prontos", disse o médico-chefe da terapia intensiva, Mar Martin, na unidade, onde um grande número de trajes de proteção, máscaras e luvas já está estocado para a equipe.
"Nunca vimos [hantavírus] antes – mas é um vírus, com algumas complicações, assim como lidamos todos os dias. Estamos totalmente treinados para isso."

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A complexa operação para impedir a propagação da rara cepa deste vírus é descrita pela ministra da Saúde da Espanha como "sem precedentes".
No sábado, ela enfatizou que o risco de contágio para a população em geral era baixo. "Acreditamos que o alarmismo, a desinformação e a confusão são contrários aos princípios básicos da preservação da saúde pública."
As medidas de segurança no porto, uma instalação industrial no sul de Tenerife, aumentaram consideravelmente no sábado. A polícia militar espanhola e as equipes de resposta a desastres montaram grandes tendas de recepção e o acesso à orla está restrito.
Os cidadãos espanhóis que desembarcarem do navio serão levados de avião para Madri, onde enfrentarão quarentena obrigatória no hospital militar Gómez Ulla.
O isolamento completo seria exaustivo - o vírus tem um período de incubação de até nove semanas - e não está claro por quanto tempo as pessoas na Espanha ou em outros lugares ficarão em quarentena.
O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, que está em Tenerife para supervisionar o desembarque, elogiou as autoridades pela sua "resposta sólida e eficaz" a este surto.
A principal hipótese das autoridades é que o surto tenha começado com dois passageiros que estiveram em um aterro sanitário no extremo sul da Argentina para observação de pássaros. O vírus é transportado por roedores e é raro que seja transmitido entre pessoas.
Três mortes foram confirmadas no cruzeiro. Uma das vítimas é uma mulher holandesa que desembarcou do MV Hondius durante sua escala na ilha de Santa Helena, no dia 24 de abril.
Ela compartilhava a cabine com seu marido, que morreu anteriormente a bordo no dia 11.
O diretor-geral da OMS pediu aos espanhóis, que estão apreensivos, que confiem nos responsáveis pela evacuação.
"A sua preocupação é legítima, devido à experiência com a covid: esse trauma ainda está nas nossas mentes", reconheceu. Mas acrescentou que o risco de contágio mais amplo é agora baixo "devido à forma como o vírus funciona e à forma como o governo espanhol se preparou para evitar qualquer problema".

Quando o desembarque nas Ilhas Canárias foi anunciado, parte da população local reagiu com revolta.
Na sexta-feira (08/05), um grupo de trabalhadores portuários se reuniu em frente ao Parlamento local em um protesto ruidoso. Eles estavam preocupados com o fato de as medidas de segurança não serem suficientemente rigorosas.
Na noite de sábado, todos os planos cuidadosamente elaborados foram brevemente lançados ao caos quando o presidente das Ilhas Canárias, Fernando Clavijo, disse que se recusaria a permitir a entrada do navio no porto, pois o desembarque não poderia ser feito em um único dia. O governo central em Madri teve que intervir.
Clavijo então afirmou na TV que um rato portador do hantavírus poderia "escapar do navio no meio da noite e colocar em risco a população das Ilhas Canárias".
O secretário de saúde teve que vir a público e insistir que tal cenário "não representava um risco".
Mas de forma geral, as pessoas na ilha parecem tranquilas com o baixo risco.
"O vírus é perigoso, claro. Mas dizem que é preciso ter contato muito próximo para contraí-lo", disse-me uma mulher chamada Jennifer, enquanto caminhava com seu filho em Santa Cruz, capital de Tenerife.
"Se formos cuidadosos, esperamos que não seja muito sério."
Nem todos desembarcarão em Tenerife: cerca de 30 tripulantes permanecerão a bordo para levar o navio de cruzeiro de volta à Holanda.
Mas para a maioria, finalmente há um fim à vista para as semanas de medo e incerteza no mar.
Agora começam as longas semanas de quarentena.

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