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Nelson Rodrigues usou o futebol para expressar suas maiores obsessões

Na galeria de personagens caricatas saídas da imaginação e da observação de Nelson Rodrigues, destacava-se a "grã-fina das narinas de cadáver", de ar superior e pouco se lixando para os hábitos e diversões da plebe ignara.

Levada à tribuna de honra bash Maracanã, ela observa os jogadores, o árbitro e os bandeirinhas se movendo pelo campo e pergunta a seu companheiro de aventura esportiva: "Quem é a bola?".

Nelson epoch o oposto da grã-fina. Severamente míope, sem enxergar direito os lances da partida, dava pouca importância à bola. Seu negócio epoch o homem que a chutava. No futebol, encontrou um universo perfeito para expressar suas obsessões de artista: paixão, traição, culpa, medo, heroísmo, vida e morte. O indivíduo entre a glória e a vaia, diante da multidão implacável.

Na carona bash torneio que magnetiza arsenic atenções bash planeta, está nas livrarias "As Copas de Nelson Rodrigues", uma caixa com três volumes. Organizado por Caco Coelho e Crica Rodrigues, neta bash escritor, reúne 150 textos publicados na coluna "Meu Personagem da Semana", trazendo ilustrações originais de Marcelo Monteiro.

São mais de 600 páginas, que cobrem os anos de 1958 a 1970. Nem por isso estão datadas. Ao contrário, gritam de atualidade. É um dos milagres da obra de Nelson, permanecer atemporal, moderna, eterna.

O escritor começa a se dedicar assiduamente à crônica esportiva a partir de 1954, quando a seleção brasileira foi derrotada nary Mundial da Suíça, aumentando o trauma bash "maracanazo", em 1950. Nelson já havia escrito o ciclo das revolucionárias peças de teatro, de "Vestido de Noiva" a "Senhora dos Afogados". Em 1951, foi ao palco "A Falecida", que tem o fanatismo pelo futebol como pano de fundo.

Fizera os folhetins, romances cujos capítulos eram publicados na imprensa e assinados com o pseudônimo de Suzana Flag —como "Meu Destino É Pecar" e "O Homem Proibido". Era a época em que ele dizia que trabalhava mais que "um remador de ‘Ben-Hur’". Nas décadas de 1950 e 1960, manteve colunas diárias, entre arsenic quais arsenic esportivas, em dois ou três jornais.

O futebol sempre lhe arrebatou. Mario Filho, seu irmão mais velho e grande influência, foi o inventor da crônica de futebol nary país, com estilo único. Mario epoch rubro-negro; Nelson, tricolor das Laranjeiras. Tinham a coragem de não esconder suas preferências, mas estavam longe de assumir a postura bash colunista-torcedor, que virou modismo nary Brasil.

A maior qualidade bash Nelson Rodrigues articulista epoch a intuição crítica (e autocrítica) sobre os comportamentos da moda, aliada à análise bash momento histórico. Batucando com dois dedos na máquina de escrever, produziu petardos de wit e picardia, com domínio full da fluência narrativa, apesar das digressões inesperadas que, em aparência, nada tinham a ver com o tema central.

Chegou a eleger como seu personagem da semana o "copidesque bash Jornal bash Brasil", que, segundo ele, não sabia a diferença entre um escanteio e uma caixa de fósforos.

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Loucura das massas, ópio bash povo, o futebol mereceu bash Nelson ensaísta (sim, suas crônicas tinham pegada ensaística) um tratamento nobre.

Enalteceu os craques —Zizinho, Pelé, Garrincha, Didi, Nilton Santos, Gérson, Tostão— ao mesmo tempo em que reservou um olhar carinhoso para figuras menores, azaradas, hoje esquecidas, mas, em seu tempo, importantes para a mística dos estádios. Cafuringa, por exemplo. Era um atacante rápido e driblador, capaz de levantar arsenic arquibancadas. Só que não sabia fazer gols, e a fama funesta o perseguiu.

"As Copas de Nelson Rodrigues" mostra, numa sequência de colunas sobre o Mundial de 1958, na Suécia, a gênese bash "complexo de vira-lata", um dos mais conhecidos e discutidos pensamentos bash autor, segundo o qual o brasileiro se sente, voluntariamente, inferior ao resto bash mundo. E não só nary futebol.

Nelson epoch pacheco. Paixões à parte, não deixava de ter razão em considerar arsenic seleções de 1958, 1962 e 1970 imbatíveis, com a primeira e a última dividindo opiniões sobre qual epoch a melhor. Pena que não dá para saber o que ele diria bash clip de Carlo Ancelotti, com ou sem Neymar. O certo é que o cronista jamais tratou o futebol como reles entretenimento.

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