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Notebook no colo pode afetar a fertilidade? Médicos revelam

O hábito de apoiar o notebook no colo, comum no home office, acende um alerta sobre a saúde reprodutiva, devido ao aquecimento direto da região genital. Estudos, como o da Universidade de Calcutá com cerca de 1.200 homens, associam a prática ao risco de infertilidade e azoospermia, agravados em perfis geneticamente vulneráveis. O perigo está na combinação de calor constante e postura inadequada, exigindo cautela para evitar danos biológicos permanentes causados pelo eletrônico.

Para separar mitos de riscos reais, o TechTudo conversou com um time de especialistas: Irineu Farina, urologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp); Marcelo Horta Furtado, diretor clínico da MF Fertilidade Masculina; e Roberto Antunes, diretor da clínica Fertipraxis. Além de explorar os impactos no lado masculino, a matéria também analisa possíveis efeitos em mulheres. Confira as recomendações dos experts e dicas para o uso seguro dos dispositivos no dia a dia.

Notebook no colo faz mal para a saúde reprodutiva? Entenda — Foto: Reprodução Notebook no colo faz mal para a saúde reprodutiva? Entenda — Foto: Reprodução

Notebook no colo faz mal? Entenda

Usar o notebook no colo não provoca infertilidade por si só. O risco surge quando há repetição frequente, longos períodos de exposição e hábitos associados ao uso prolongado. A seguir, explicamos em detalhes os fatores envolvidos.

  1. Notebook no colo pode afetar a fertilidade masculina?
  2. E nas mulheres, existe risco real?
  3. Calor, Wi-Fi e Bluetooth: onde está o verdadeiro problema?
  4. Uso ocasional x uso prolongado: qual a diferença?
  5. Boas práticas para reduzir riscos no dia a dia

Quem são os especialistas da matéria?

  • Irineu Farina – urologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)
  • Marcelo Horta Furtado – médico especialista pela Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) e diretor clínico da MF Fertilidade Masculina
  • Roberto Antunes – ginecologista, mestre em Fisiologia pela UFRJ e diretor da clínica Fertipraxis

1. Notebook no colo pode afetar a fertilidade masculina?

Para os especialistas, o perigo reside no aumento da temperatura testicular, visto que a produção de espermatozoides exige um ambiente termicamente controlado. O urologista Marcelo Furtado e o ginecologista especialista em reprodução humana, Roberto de Azevedo Antunes, concordam que o calor emitido pelo aparelho, somado à postura de pernas fechadas, eleva a temperatura escrotal de forma significativa em apenas uma hora, criando um cenário biologicamente nocivo e propício a disfunções.

"A natureza posicionou os testículos fora da cavidade abdominal justamente para mantê-los entre 2°C e 3°C abaixo da temperatura corporal. Quando o notebook e a postura sentada eliminam esse diferencial, a "fábrica" de espermatozoides entra em colapso, resultando em células com menor potencial de fertilização", conta o Dr. Marcelo Furtado.

As consequências desse aquecimento incluem estresse oxidativo, redução da mobilidade e danos ao DNA dos gametas, quadros comuns em quem expõe a região ao calor crônico. O alerta médico não visa demonizar o notebook, mas classificar o hábito como um risco evitável. Nesse sentido, homens com histórico de infertilidade ou que estão tentando conceber devem priorizar o uso do equipamento em mesas para preservar a qualidade seminal.

 Amazon O aumento da temperatura testicular é o principal risco associado ao notebook no colo e pode prejudicar a produção e a qualidade dos espermatozoides — Foto: Amazon

2. E nas mulheres, existe risco real?

Diferentemente do cenário masculino, o impacto do notebook em mulheres é menos direto, conforme explicam Irineu Farina Neto e Roberto Antunes. Ambos os especialistas concordam que não há evidências de que o calor gerado pelo aparelho afete os ovários ou o útero, órgãos protegidos internamente. Conforme observa Farina Neto, "embora o calor na pele possa gerar um microambiente inflamatório e piorar a circulação pélvica", esse efeito é periférico, o que desloca o risco principal para o campo comportamental.

O verdadeiro perigo à fertilidade feminina, portanto, reside nos hábitos associados à hiperconectividade, como sedentarismo, estresse crônico e privação de sono. A permanência prolongada na posição sentada, por exemplo, pode prejudicar o fluxo sanguíneo na região pélvica e o equilíbrio hormonal, impactando o ciclo menstrual. Assim, embora o aquecimento da máquina não seja o vilão, o estilo de vida atrelado ao uso excessivo de telas representa um fator cumulativo de vulnerabilidade à saúde da mulher.

"O uso noturno de telas causa a supressão de melatonina e o atraso do ritmo circadiano; essa desregulação afeta o eixo hormonal e o metabolismo, tornando-se um fator de risco invisível para pacientes que já apresentam dificuldades em engravidar", afirma o Dr. Roberto Antunes
 Reprodução/Freepik O risco feminino é indireto: sedentarismo, longos períodos sentada e sono ruim podem afetar o equilíbrio hormonal — Foto: Reprodução/Freepik

3. Calor, Wi-Fi e Bluetooth: onde está o verdadeiro problema?

Enquanto o aquecimento é unanimidade entre os especialistas como risco confirmado, a radiação de Wi-Fi e Bluetooth possui evidência limitada. Marcelo Furtado e Roberto Antunes explicam que, embora testes em laboratório sugiram danos ao DNA e à motilidade do esperma, esses achados não comprovam infertilidade no uso cotidiano, visto que variáveis como distância e potência do sinal tornam a conexão clínica inconsistente.

"Um estudo in vitro com amostras de sêmen expostas a laptop conectado por Wi-Fi mostrou aumento de radicais livres e dano de DNA, mas esses achados apenas levantam hipóteses; o componente mais bem demonstrado com o notebook no colo ainda é o calor e a postura.", conta o Dr. Roberto Antunes

Diante disso, a diretriz médica é a prudência sem alarmismo, priorizando o afastamento do dispositivo para evitar o aquecimento, que é o fator realmente crítico. Na prática, os especialistas concluem que o impacto da tecnologia na saúde reprodutiva deve-se menos à radiofrequência e mais aos efeitos do calor local, somados a hábitos nocivos modernos como o sedentarismo e a má qualidade do sono.

 Reprodução/Freepik O impacto do notebook no colo está mais no aquecimento do que na radiação — Foto: Reprodução/Freepik

4. Uso ocasional x uso prolongado: qual a diferença?

A gravidade do impacto depende diretamente da dose: tempo, frequência e proximidade. Furtado e Farina Neto explicam que o uso esporádico traz baixo risco, mas alertam que sessões diárias de uma a três horas geram hipertermia escrotal recorrente. Essa exposição crônica cria um ambiente hostil para a produção de gametas, confirmando a máxima de que quanto maior for o tempo de contato com o colo, maior será o potencial de dano cumulativo à fertilidade.

"A orientação de evitar o notebook no colo faz parte de uma "higiene térmica" mais ampla. O calor nocivo também pode vir de hábitos como banhos muito quentes e saunas frequentes, que somados ao uso do aparelho, potencializam o quadro de hipertermia.", explica Furtado

Como a espermatogênese é um ciclo lento, de 70 a 90 dias, os efeitos do calor e a recuperação biológica não são imediatos. Por isso, Antunes destaca que danos térmicos podem levar meses para aparecer nos exames, mesma lógica válida para a melhora após a correção do hábito.

 Divulgação/HP Minutos no colo raramente preocupam. O problema surge com horas diárias e repetidas de exposição ao calor — Foto: Divulgação/HP

5. Boas práticas para reduzir riscos no dia a dia

As recomendações médicas focam no controle térmico e são simples de aplicar: a regra de ouro é priorizar o uso do notebook sobre mesas, evitando o contato direto. Se o apoio no colo for inevitável, utilize suportes rígidos e mantenha as pernas afastadas para ajudar na dissipação do calor, garantindo que as saídas de ar não sejam obstruídas por tecidos. Vale ressaltar, contudo, que essas medidas paliativas apenas amenizam o aquecimento, sem eliminar totalmente os riscos apontados pelos estudos.

A mudança de comportamento é igualmente vital, uma vez que pausas ativas a cada hora para caminhar, por exemplo, combatem o calor acumulado e os danos do sedentarismo. Para homens em investigação de infertilidade, a orientação é sustentar esses novos hábitos por, no mínimo, três meses antes de reavaliar o quadro clínico. Em suma, a tecnologia não é a vilã, mas o uso seguro exige ajustes racionais e consistentes, alinhados ao que a ciência prescreve para preservar a saúde.

"Mais do que apenas afastar o aparelho, o paciente deve entender que a saúde reprodutiva é um reflexo do equilíbrio metabólico. Corrigir a temperatura local é o primeiro passo, mas o sucesso clínico depende de um conjunto de ações que incluem hidratação adequada e a redução do tempo de permanência sentado, permitindo que o sistema circulatório volte a operar sem a sobrecarga do calor externo", completa o Dr. Irineu Farina Neto.

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