
Crédito, EPA
- Author, Amir Azimi
- Role, Editor, BBC News Persa
Published Há 20 minutos
Tempo de leitura: 6 min
Quando o Irã lançou mísseis e drones contra Israel na noite de 7 de junho, em resposta aos ataques israelenses ao Hezbollah, no Líbano, a impressão era que o significado militar imediato do ataque era limitado. Mas o seu significado político pode ser muito maior.
O Irã vem justificando há anos seus ataques diretos contra Israel como retaliação por ações contra o território, comandantes ou interesses iranianos. Mas, desta vez, foi diferente.
Teerã agiu após um ataque contra um dos seus aliados — uma investida israelense contra o que seria uma construção ligada ao Hezbollah no sul da capital libanesa, Beirute.
Na segunda-feira (8/6), o exército iraniano declarou que suspenderia os ataques a Israel, mas a decisão de atacar, por si só, levanta uma questão importante.
Por que os líderes iranianos sentiram que aquele era o momento certo de tomar a iniciativa, mesmo correndo o risco de sofrer novas ações militares israelenses e, possivelmente, prejudicar suas frágeis negociações de paz com os Estados Unidos?
Parte da resposta pode estar na avaliação dos líderes do Irã sobre a posição do país, após meses de conflito.
A República Islâmica saiu da guerra enfraquecida em alguns aspectos. Mas também fortaleceu seu senso de resiliência.
Mesmo com as extensas pressões militares israelenses e americanas, aliadas a sanções econômicas e um bloqueio naval dos Estados Unidos, o Estado iraniano sobreviveu.
O governo do país segue no poder, seu aparato de segurança permanece intacto e não houve levantes em massa, apesar das repetidas previsões dos seus opositores.
Esta experiência pode ter alterado os cálculos de Teerã. Em vez de agir como parte vulnerável, buscando evitar confrontos a todo custo, o Irã pode cada vez mais se considerar uma potência, que já passou pelo pior e, agora, tem condições de impor novos limites.

Crédito, Anadolu via Getty Images
Por isso, o ataque a Israel pode ter sido um ato menos de retaliação e mais de dissuasão. Teerã pode ter sinalizado que as investidas contra seus aliados regionais não serão mais tratadas como algo diferente de ataques contra o próprio Irã.
Esta mensagem seria particularmente importante para o Hezbollah, para as milícias do Iraque e para outros membros da rede regional iraniana, conhecida como "Eixo da Resistência".
A força da influência iraniana sempre dependeu, em parte, da confiança de que Teerã sairia em defesa dos seus parceiros. E deixar de reagir depois de ter alertado Israel publicamente poderia prejudicar sua credibilidade.
Deste ponto de vista, o ataque iraniano não se dirigia apenas a Israel, mas também aos aliados israelenses e americanos espalhados na região, que observavam atentamente se o Irã iria cumprir suas ameaças.
Outro ponto igualmente intrigante é o momento do ataque.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, indicou recentemente que um acordo pode estar próximo. Por isso, a lógica convencional sugeriria que o Irã evitasse ações que pudessem colocar a diplomacia em risco.
Mas Teerã talvez acredite no contrário. Os líderes iranianos podem ter concluído que uma demonstração de força, por meio de uma ação militar limitada ou calculada, pode, na verdade, fortalecer sua posição na mesa de negociações, em vez de enfraquecê-la.
Do ponto de vista de Teerã, demonstrar sua disposição de usar a força pode pretender relembrar a Israel e aos Estados Unidos que o Irã ainda detém opções na manga.
Isso não significa necessariamente que os iranianos desejam o fracasso das negociações. Teerã aparentemente agiu para criar um precedente e enviar uma mensagem política, mas não de uma forma que tornasse inevitável a escalada do conflito.
Resta saber se o cálculo iraniano é correto.
O que pensam os iranianos?
As reações dos cidadãos comuns do Irã à última troca de ataques refletem o debate como um todo.
Alguns consideram as ações iranianas uma reação justificada.
Um membro do público da BBC News Persa comentou que, para ele, "a entrada do Irã no conflito para defender o Líbano é leal e correta".
"Desde o acordo nuclear, o Irã não desrespeitou a legislação internacional e este ataque foi uma resposta ao outro lado, que quebrou as regras do cessar-fogo", justificou ele.
Já outros questionam as prioridades de Teerã.
"Por cerca de dois meses, houve combates (bombardeios) no sul do Irã, sem reação séria", comentou outra pessoa. "Parece que o sul do Líbano é considerado mais importante que o sul do Irã."
Mas, para muitos, o sentimento dominante é a preocupação sobre o que poderá gerar o confronto.
"Honestamente, meu coração ficou apertado quando a guerra começou de novo", disse um membro do público à BBC News Persa.
Ainda outros acreditam que a troca de ataques provavelmente não irá se escalar em um conflito maior.
Um espectador defendeu que "este confronto não é muito sério e não irá se tornar uma guerra aberta, como as duas últimas".
"O Irã sabe que os Estados Unidos não querem mais uma guerra direta e, por isso, está tomando a iniciativa. Em parte, para show e propaganda, para fazer seus apoiadores sentirem que estão ganhando."
Outra possibilidade é que a investida iraniana seja um reflexo do aumento da insatisfação com o rumo das negociações. Se o Irã acreditar que estão sendo pedidas concessões sem benefícios significativos em troca, esta ação pode ser uma forma de aumentar seu poder de barganha, antes da próxima fase das negociações.
De qualquer forma, o ataque indica que a liderança iraniana, hoje, se sente mais confiante do que muitos observadores externos esperavam poucos meses atrás.
A principal questão não é se o Irã estaria disposto a absorver outra rodada de bombardeios israelenses, mas sim se Teerã, agora, acredita poder fazê-lo mantendo simultaneamente sua busca pela diplomacia.
Se for este o caso, o Irã pode tentar estabelecer uma nova realidade regional, negociando a partir de uma posição de força e, ao mesmo tempo, estabelecendo ativamente seus próprios limites.
Esta estratégia pode ser arriscada, mas representaria uma mudança significativa da posição da República Islâmica em relação à sua própria segurança e ao seu lugar no Oriente Médio.

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