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O crédito privado será testado

O crédito privado ganha escala no Brasil e reforça a necessidade de padrões mais claros de informação e avaliação de risco.

Uma sequência de eventos no mercado global de crédito privado passou a chamar atenção. Fundos limitaram resgates, bancos reduziram financiamento a veículos não bancários e spreads se elevaram.

Os eventos, analisados em conjunto, indicam uma mudança relevante: o modelo de crédito privado entrou em uma fase distinta daquela que sustentou sua expansão.

Um ponto inicial torna-se importante, pois é conceitual. A expressão "crédito privado" assume significados diferentes entre países.

Nos Estados Unidos, crédito privado representa empréstimos diretos realizados por fundos a empresas, fora do mercado aberto. As operações apresentam baixa liquidez, menor transparência e níveis mais elevados de alavancagem. O crédito migra do balanço bancário para estruturas de investimento, com forte presença de investidores institucionais.

No Brasil, o conceito é mais amplo e mais institucionalizado. Inclui debêntures, CRIs, CRAs e FIDCs. Esses instrumentos passam pelo mercado de capitais, contam com registro regulatório e possuem algum grau de negociação no mercado secundário. O crédito privado se organiza como um sistema de financiamento corporativo baseado em títulos e em deduções tributárias.

Essa diferença define o comportamento do mercado em momentos de ajuste. Nas economias avançadas, a vulnerabilidade central está no descasamento entre a liquidez prometida ao investidor e a iliquidez dos ativos mantidos na carteira; e esse é o ponto onde os riscos se acentuam.

Aqui está o principal alerta. O mercado de private credit alcançou escala inédita e o ambiente mudou em três dimensões simultâneas.

A liquidez ganhou centralidade, com assimetrias crescentes entre o prazo de vencimento dos ativos e as janelas oferecidas aos investidores.

A qualidade do crédito também se torna mais relevante. O crescimento do uso de mecanismos de capitalização de juros (PIK toggles), que permitem substituir o pagamento em caixa pela incorporação dos juros ao principal da dívida, também sugere aumento da pressão financeira sobre empresas mais alavancadas. Parte das operações foi estruturada em período de maior tolerância ao risco, com alavancagem elevada e cláusulas de aceleração mais flexíveis.

A interconexão financeira é maior e os exemplos são mais didáticos. Os bancos globais que financiaram a infraestrutura de data centers para inteligência artificial acumularam exposições concentradas e buscam transferi-las para fundos de crédito privado via instrumentos de transferência de risco, a fim de reduzir essa exposição. A dificuldade de encontrar contrapartes dispostas a absorver esses ativos revela que o mercado já precifica a assimetria de informação embutida nessas estruturas.

Folha Mercado

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No Brasil, o mercado de crédito privado também avançou de forma expressiva. O total de emissões primárias no mercado de capitais atingiu R$ 838,8 bilhões em 2025, o maior volume da série histórica. O estoque total de debêntures, CRI, CRA e notas comerciais encerrou o ano próximo a R$ 2 trilhões. Esse crescimento foi impulsionado, em parte, pela migração de recursos: nos últimos anos, os fundos multimercados registraram resgates líquidos bilionários, e parcela relevante desse fluxo migrou para fundos de renda fixa, com o crédito privado respondendo por mais de 60% da captação dessa categoria.

Dois canais de risco, porém, já acendem um sinal amarelo.

O primeiro é a reprecificação do crédito: com a Selic elevada, emissores mais alavancados enfrentam custo crescente de rolagem, e a concentração de vencimentos do ciclo de emissões de 2023 a 2025 pode criar pressão adicional em janelas específicas.

O segundo é a liquidez dos fundos abertos: veículos com resgate diário ou semanal investem em debêntures com mercado secundário ainda superficial, e um movimento coordenado de saída pode forçar venda de ativos, deprimir preços e amplificar resgates em sequência.

O novo estágio exige evolução regulatória.

O Brasil dispõe de informes regulatórios sobre FIDCs (fundos) e títulos privados, mas a granularidade dos dados sobre performance das carteiras subjacentes, concentração por cedente e qualidade de garantias seguem heterogêneas e sem padronização comparável entre fundos. A supervisão existe; a leitura sistêmica do risco, não. Em um sistema baseado em mercado, essa lacuna deixa invisíveis exatamente os riscos que mais importam monitorar em ciclos de natureza como a atual.

Uma agenda objetiva se impõe: padronização de métricas de alavancagem; cobertura e garantias em bases comparáveis; indicadores de concentração e liquidez para o mercado secundário; disclosure granular de performance de carteiras securitizadas em FIDCs. Essa agenda cabe à Comissão de Valores Mobiliários e à autorregulação liderada pela Anbima.

Mercados mais transparentes ajustam-se com menor volatilidade e oferecem ao regulador as condições para intervir com eficácia em momentos de estresse. O cenário internacional aponta para um processo de teste. O Brasil apresenta dinâmica distinta, com ajuste via preço e arcabouço institucional mais sólido.

A questão não é se o crédito privado será testado. É se o mercado terá, quando precisar, a informação necessária para se ajustar de forma ordenada.

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