No dia 19 de novembro de 2025, a dona de casa Clarice Batista de Almeida, moradora de Santa Fé do Sul, no interior de São Paulo, se despediu do filho Felipe de Almeida Borges, de 25 anos, acreditando que o rapaz estava viajando para Madri para realizar o sonho de conhecer a Europa. Clarice não sabia, mas o filho havia se alistado para integrar o exército da Ucrânia e estava embarcando para lutar na guerra.
Foi por meio de amigos de Felipe que Clarice soube do real motivo da viagem do filho. Segundo a dona de casa, o jovem foi convencido a se alistar mediante a promessa de pagamento de R$ 25 mil por mês. Felipe trabalhava em uma usina de cana-de-açúcar no interior paulista e recebia um salário bem menor.
Nas duas primeiras semanas após chegar à Ucrânia, o jovem foi levado para um campo de treinamento e evitava dar detalhes para a mãe sobre como era o dia a dia no local.

Tensão nas negociações por acordo de paz entre Rússia e Ucrânia
Segundo Clarice, a última vez que falou com o filho foi dia 9 de dezembro, quando ele avisou que iria ao campo de batalha no dia seguinte, em sua primeira missão. Depois disso, o rapaz não fez mais nenhum tipo de contato com a família ou com os amigos. E, então, no dia 17 de janeiro, Clarice soube que o filho havia sido morto ao ser atingido por um drone russo.
Clarice não está sozinha. Segundo o Ministério das Relações Exteriores desde o início da guerra, 23 brasileiros tiveram a morte confirmada em território ucraniano e outros 44 estão desaparecidos. A maioria destes óbitos (12) foi registrada no ano passado. Já o número de brasileiros que foram e ainda permanecem lutando na guerra não foi informado pelo órgão.
"O Ministério das Relações Exteriores do Brasil não dispõe de estatísticas de brasileiros engajados em conflitos internacionais, uma vez que o alistamento em forças estrangeiras, ação que constitui ato personalíssimo, independe de ciência ou autorização do governo brasileiro", disse em nota.
Gustavo Rodrigo Faria Mazzocato, de 25 anos, é outro brasileiro que morreu durante o conflito entre Ucrânia e Rússia. Ele foi para Leste europeu para defender a Ucrânia em julho de 2025 e, logo após chegar ao país, teria visto a condição precária em que os brasileiros estavam, pedindo então ajuda à Embaixada do Brasil para voltar.
Gustavo morreu durante uma missão na região de Donbass. A morte foi confirmada no dia 4 de janeiro pelo comandante da unidade em que ele atuava, segundo a esposa dele, Rafaela Alves, de 22 anos. O casal tem um filho de três anos.
Segundo a família, o rapaz havia sido informado que atuaria na artilharia da Legião Internacional da Ucrânia, ou seja, não iria diretamente para o campo de combate, no entanto, teria sido enviado para a infantaria – a linha de frente da guerra.
Segundo a mulher, o contato com o marido era feito sempre através do celular de um dos comandantes ucranianos. Em um áudio enviado por Gustavo no dia 29 de dezembro, ele disse que seu contrato estava perto do fim e que queria retornar ao Brasil.
A mulher afirma que Gustavo chegou a mandar e-mail para a embaixada do Brasil em Kiev pedindo ajuda para retornar ao Brasil, mas não obteve retorno.
Questionado sobre a situação, o Ministério das Relações Exteriores informou que não pode dar detalhes do caso.
Luta pela repatriação dos corpos
Tanto Clarice quanto Rafaela lutam para conseguir a repatriação dos corpos de seus entes, mas sem sucesso.
Clarice conta que é necessário que haja um atestado de óbito para que ela consiga fazer a documentação para trazer o corpo do filho ao Brasil, no entanto, esse documento não é fornecido pelo governo ucraniano.
Em situações de conflito armado, o traslado do corpo dos soldados depende de diversas situações, como um cessar-fogo temporário, de rotas seguras e da autorização das autoridades do país onde ocorreu a morte. Além disso, os custos recaem sobre as famílias, o que torna o processo inacessível para muitos.
O governo federal pode disponibilizar um auxílio às famílias em casos excepcionais, como quando comprovada a incapacidade financeira para o custeio e caso haja disponibilidade orçamentária e financeira para tal.
O custeio também pode ocorrer caso as despesas com o traslado não estiverem cobertas por seguro ou previstas em contrato de trabalho ou o "falecimento ocorrer em circunstâncias que causem comoção".
As famílias de Felipe e de Gustavo não sabem se os jovens assinaram algum tipo de contrato com o governo ucraniano e se esse traslado é coberto pelo país europeu. "Eu não sei nem se ele chegou a receber o que foi prometido. Se ele recebeu foi em alguma conta que não é a brasileira e não temos acesso", acrescenta Rafaela. "Estamos sem informação nenhuma", diz.

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3 semanas atrás
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