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O fim das ilusões progressistas

Por décadas, as elites progressistas vivemos uma espécie de ilusão de ótica, como aquelas que fazem os viajantes enxergar oásis inexistentes no meio do deserto. Foram oito anos de Presidência nas mãos de liderança reformista de centro, seguidos por uma década e meia de governos encabeçados pela centro-esquerda. Tudo isso ­e mais uma Constituição muito avançada em termos de garantias individuais e direitos sociais —parecia confirmar que, depois de 20 anos de autoritarismo, o Brasil estava se transformando em um país politicamente arejado.

É bem verdade que as eleições para o Congresso contavam outra história. Ali, as várias correntes da direita sempre formaram entrincheirada maioria. Mas, por operarem sob a batuta do pragmático "centrão", eram vistas como forças do atraso, incontornáveis parceiras de coalizões no presente, fadadas a serem superadas mais adiante.

A crise política dos anos 2010, o surgimento de uma extrema direita organizada e mobilizada nas ruas e a vitória de Jair Bolsonaro em 2018 revelaram o tanto de otimismo com o país, que nutria as esquerdas e o centro democrático. O desaparecimento eleitoral do PSDB e o resultado apertado das eleições presidenciais de 2022 mostraram que o campo da direita é vasto e que as mudanças nele ocorridas não foram um fenômeno fortuito.

Ainda estamos por entender as razões do crescimento do direitismo extremista, aqui organizado em torno dos Bolsonaros. De toda forma, graças a alguns bons estudos de opinião, hoje sabemos melhor qual o tamanho do contingente de brasileiros que se inclina à destra e como veem o mundo.

O site Canal Meio divulgou os resultados da pesquisa "A ideologia do brasileiro". Ela se soma a três outros instigantes estudos baseados em sondagens de opinião pública: "A cabeça do brasileiro, vinte anos depois", de Carlos Alberto Almeida; "Brasil Invisível", da ONG More in Common; "O Brasil no Espelho", de Felipe Nunes.

A pesquisa ora vinda a público é ambiciosa: procura verificar em que medida o brasileiro comum se identifica com ideologias presentes na tradição nacional de pensamento político e no debate público. Os sistemas de crenças foram ordenados pelo cientista político Christian Lynch (Iesp/Uerj) em três eixos: direita-centro-esquerda; nacionalismo versus cosmopolitismo; moderação versus radicalismo.

Impossível resumir aqui a riqueza das informações obtidas, que permitem ver a religião; os estratos de renda; o gênero; a distribuição regional dos que aderem a cada um dos sistemas identificados de crenças. Em conjunto, a imensa maioria dos brasileiros se distribui por ideologias moderadas; os radicais mal passam de 10%; perto de 6 em cada 10 cidadãos se identificam com a direita, porcentagem próxima à daqueles que se dizem nacionalistas.

Ideologias só em parte explicam o voto. Interesses, paixões e fatores contingentes são tão ou mais importantes. Mas conhecer os sistemas de crenças pode ser importante para afirmar um progressismo sem ilusões.

P.S. Foram muitas as vezes em que Raul Jugmann me escreveu para comentar esta coluna ou contar que iria compartilhá-la. Sentirei falta do amigo leitor; mais falta fará ao debate de ideias que tanto o entusiasmava.

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