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O populista Trump foi do Absurdistão ao Armagedão

Todos os políticos sérios são iguais, os políticos populistas são perigosos cada um à sua maneira. Populistas há muitos, da esquerda à direita, tão diferentes entre si como chá e cachaça. Mas algo têm em comum, nos séculos anteriores, os narodniks russos, Getúlio Vargas e Juan Perón, e neste século, Hugo Chávez, Evo Morales, Le Pen, Viktor Orbán, André Ventura, Trump ou Bolsonaro. O que os une não é uma ideologia, mas uma fórmula oportunista de manipulação de massas para chegar e se manter no poder.

A estratégia passa por cavar um fosso entre as elites corruptas e o povo impoluto, apresentando-se como os únicos fiéis dignatários, representantes dos eleitores e do interesse popular. Nesta clivagem, exacerbam os podres do sistema, minando a confiança nas instituições, e apresentam soluções fáceis e rápidas para problemas complexos. Os populistas mentem, sem pudor, com todos os dentes que têm na boca, instrumentalizam emoções e ressentimentos reais, espalham ódio e inventam bodes expiatórios para males, muitas vezes, apenas imaginários.

Desde que chegou ao poder e conseguiu regressar novamente para um segundo mandato, Donald Trump tem personificado como nenhum outro o manual do populista desprezível. Junta às manobras clássicas de doutrinamento popular ainda a bestialidade indecente, o narcisismo demente e ignorância profunda. O resultado está à vista: pela primeira vez em 50 anos, os Estados Unidos deixaram de ser considerados uma democracia liberal, e mundo está mergulhado num caos de repercussões geopolíticas e econômicas imprevisíveis.

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Do Absurdistão em que transformou a Casa Branca ao Armagedão com que ameaçou destruir "toda uma civilização", foi um instante. Parece mau demais para ser verdade, mas aqui estamos.

Toda a história de Trump, que culminou neste desastre absoluto da Guerra do Irã, sem saída à vista, mostra como não se pode desvalorizar o perigo de eleger um populista (como temos visto tantas vezes no Brasil e em Portugal): mais tarde ou mais cedo, salta à nu a sua malvadez e/ou incompetência. O problema é que, quando isso fica claro, os estragos, muitas vezes irreversíveis, já estão feitos.

A melhor definição do fenômeno ouvi do cientista político John Keane. Diz ele que o populismo é "a doença autoimune das democracias". São os mecanismos de defesa do organismo que se voltam contra si próprio, ameaçando a sua existência. Como num lúpus ou numa esclerose múltipla, o corpo confunde partes de si com inimigos e começa a atacá-las. Ao tentar responder a frustrações legítimas do povo, a patologia produz um movimento de dentro, que usa os seus instrumentos vitais, e que ataca as instituições e intermediários que tornam essa democracia funcional: a imprensa livre, o sistema judicial, a academia e a ciência, os partidos e a oposição.

Apanhadas de surpresa pela desfaçatez das atacantes que as deviam proteger, as células benignas do organismo ficam impotentes, à mercê da ameaça da maleita.

Trump e Bolsonaro deixaram bem claro que o maior risco do político populista que consegue chegar ao poder é a forma como ele tenta destruir o chão comum —os núcleos saudáveis das sociedades. Recuperá-los demora anos. E, na pior das hipóteses, pode mesmo ser fatal.

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