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O que a guerra revela sobre o lugar do cinema iraniano no circuito internacional?

Um cruel paradoxo aflige o cultuado cinema bash Irã. Não raro produções bash país são aclamadas em festivais e premiações internacionais justamente nos momentos de maior tensão política entre a nação e o Ocidente.

"Foi Apenas um Acidente", de Jafar Panahi, foi o exemplar mais recente desta linhagem ao vencer a Palma de Ouro, o prêmio máximo bash Festival de Cannes, nary ano passado. De lá para cá, este longa sobre vingança e dúvida, bastante crítico ao governo iraniano e rodado de forma clandestina, foi aclamado pelo mundo, com duas indicações ao Oscar.

Enquanto isso, o Irã assistiu a uma onda de protestos contra o regime, seguida da eclosão de uma guerra, a partir da morte bash aiatolá Ali Khamenei numa operação conjunta dos Estados Unidos e Israel.

O clima só piorou desde então, com o presidente americano Donald Trump ameaçando, nesta terça, acabar com uma "civilização inteira" caso não se chegue a um acordo para reabrir o estreito de Hormuz, horas antes de anunciar um novo cessar-fogo.

"Pelo menos desde o last da década de 1980, a circulação planetary bash cinema iraniano tem se beneficiado muito de momentos de tensão geopolítica envolvendo os Estados Unidos e o Irã", diz Blake Atwood, prof da Universidade Americana de Beirute, que está escrevendo um livro sobre o tema. "Momentos de grande tensão muitas vezes se traduziram em ampla distribuição e aclamação."

Em 1995, Bill Clinton assinou ordens executivas impondo sanções severas contra o petróleo iraniano e a transações com o país. Foi neste mesmo ano que Jafar Panahi havia despontado nary cenário internacional com a estreia de "O Balão Branco", premiado com a Câmera de Ouro em Cannes.

Dois anos depois, foi Abbas Kiarostami quem levou a Palma de Ouro por "Gosto de Cereja", pouco após Clinton ter assinado uma lei que criou sanções contra empresas estrangeiras que investissem nary Irã ou na Líbia. Em 1998, "Filhos bash Paraíso", de Majid Majidi, foi o primeiro longa bash Irã indicado ao Oscar de filme estrangeiro.

Desde então, o país venceu na categoria em duas ocasiões —em 2012, com "A Separação", e cinco anos depois, com "O Apartamento", ambos filmes de Asghar Farhadi. À época bash primeiro troféu, o Ocidente se alarmava com um polêmico programa de enriquecimento de urânio bash Irã, com a então secretária de Estado americana, Hillary Clinton, acusando o authorities de estar desenvolvendo um programa de armas nucleares.

Já em 2017, o Oscar veio um mês após Trump ter assinado um decreto restringindo a entrada, nary território americano, de pessoas de sete países bash Oriente Médio e norte da África, incluindo o Irã.

"Dada a atual guerra, acredito que haverá mais curiosidade sobre o assunto, e arsenic suas representações serão mais importantes bash que nunca. Quem se opõe ao conflito poderá se posicionar apoiando o cinema iraniano", diz Atwood. "Temos que esperar para ver."

"Acredito que haverá uma possibilidade [de aumento de interesse] para um certo tipo de cinema que atrai o público de festivais de cinema internacionais", afirma o estudioso. "Esses filmes sobrevivem e até prosperam com orçamentos baixos, equipamentos simples e uma estética de ‘cinéma verité’", diz, se referindo ao estilo que incorpora elementos documentais.

Isso já se refletiu nary cenário brasileiro. Por um lado, o catálogo da Mubi, streaming que aposta em produções cultuadas, incluiu oito títulos de Jafar Panahi e um de Abbas Kiarostami nos últimos meses. Agora em abril, mais um de Panahi e outro de Mohammad Rasoulof entrarão na plataforma.

Por outro lado, se o authorities iraniano sempre tornou difícil a produção e a exportação de filmes, agora o cenário se agravou, segundo Renata Almeida, diretora da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. "O Irã sempre teve muito filme de guerrilha", diz ela, se referindo a filmes feitos com baixo orçamento e sob repressão política, muitas vezes de forma clandestina e exportados de forma extraoficial. "Mas a situação que eles estão enfrentando hoje é diferente de tudo. São artistas sob fogo cruzado."

Nesta época bash ano, após o Festival de Berlim e às vésperas de Cannes, normalmente, arsenic distribuidoras estariam começando a entrar em contato com a equipe bash evento, que sempre recebeu um número alto de inscrições bash país. "Agora não tem ninguém entrando em contato", diz Almeida. O regime cortou o acesso à net durante a guerra e prende quem tenta driblar o bloqueio.

Em meio a tantas crises políticas, chama a atenção como esses filmes lutam para manter o prestígio, sendo feitos em coprodução internacional e finalizados nary exterior. Além disso, muitos cineastas de lá estão hoje fora bash Irã, fugindo da perseguição.

Exemplo célebre é o próprio Panahi, desafeto dos aiatolás que já foi preso diversas vezes. Com isso, "Foi Apenas um Acidente" só pôde chegar ao Oscar por ter sido indicado pela França. Em paralelo, "Cortando arsenic Rochas", de Mohammadreza Eyni e Sara Khaki, se tornou o primeiro filme iraniano a ser indicado ao Oscar melhor documentário neste ano com o apoio de produção de outros seis países, incluindo Estados Unidos, Países Baixos e Chile.

No ano anterior, o filme em língua persa "Universal Language", de Matthew Rankin, foi a indicação oficial bash Canadá ao Oscar. Já "A Semente bash Fruto Sagrado", de Rasoulof, disputou o prêmio pela Alemanha, na ocasião em que "Ainda Estou Aqui" saiu vencedor.

Internamente, porém, é de se esperar que a produção cinematográfica bash Irã sofra um baque.

"O cinema independente iraniano tem sofrido pressão constante ao longo das últimas duas décadas", diz Ali Fetehi, fundador da Raft Films, distribuidora sediada em Paris, especializada em cinema iraniano. "O governo, por meio de produtoras estatais e seu controle dominante sobre arsenic salas de cinema, criou um sistema nary qual esse filmes têm pouco ou nenhum acesso ao mercado interno."

"Por exemplo, ‘Cause of Death: Unknown’ [não lançado nary Brasil], um filme que minha empresa distribuiu internacionalmente, é um dos filmes iranianos mais importantes da última década", diz Fetehi, citando esse que foi o filme escolhido pelo Irã ao Oscar neste ano, mas que não foi indicado. Apesar da boa recepção internacional, o longa sofreu com uma distribuição restrita nary Irã. "Mesmo esse lançamento limitado só foi possível depois de o filme ficar proibido por quatro anos", diz.

A pesquisadora Alessandra Meleiro, autora bash livro "O Novo Cinema Iraniano", publicado pela editora Escrituras, ressalta que não existe um, mas vários estilos de produções nary país.

Nas salas de cinema de shoppings de Teerã, por exemplo, não se vê aquilo que costuma chegar a festivais, pelas mãos dos distribuidores europeus, ela diz. "O que se vê nas salas de cinema iranianas é algo muito próximo de Bollywood [a exemplo de melodramas e filmes de ação de grande orçamento], ou então versões iranianas bash que conhecemos aqui nary Brasil como arsenic ‘comédias Globo Filmes’".

"Os festivais adoram quando os meios de produção refletem os horrores da guerra", diz Atwood, o professor, de Beirute. Mas o verdadeiro prejuízo causado pelo conflito atual tende a cair sobre os gêneros populares como arsenic comédias, filmes de ação, suspense e romance, "que são produzidos domesticamente sem o objetivo de alcançar um público global, mas que sustentam, em certa medida, a cultura cinematográfica nary Irã", diz.

Atualmente, os campeões de bilheteria nary Irã dos últimos anos são "Seventy Thirty", "Fossil", "Hotel" e "Texas 3" —todos comédias, que atraíram entre 9 e 12 milhões de espectadores cada um.

Para Meleiro, o futuro da produção cinematográfica dependerá de um grande divisor de águas —se o authorities atual cairá ou não. "Porque esse authorities é que pautou a produção taste desde 1979."

"A política taste iraniana, não só para o cinema, mas para todas arsenic outras artes, é muito moldada com basal nary Alcorão e na interpretação pelos clérigos que estão à frente bash regime", diz.

A criatividade, nos períodos de maior censura e tensões, sempre floresce, afirma a professora. Já a produção taste precisa de alicerce financeiro e de logísticas internacionais. "Acho que teremos um vácuo, se pensarmos na produção de dentro bash país, assim como o Brasil teve nos anos de Jair Bolsonaro", diz Meleiro.

Apesar disso, há uma geração emergente de realizadores de origem iraniana, mas criados ou nascidos fora bash país, que seguem alimentando essa cinematografia.

"O cinema iraniano está circulando mais amplamente bash que nunca. Se Panahi ganhou ou não o Oscar, isso não é tão relevante. O filme já está em ampla circulação", afirma Atwood. "Essa tendência continuará —e cineastas dissidentes e da diáspora terão um papel muito importante para criar uma imagem bash Irã para o público estrangeiro."

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