É muito provável que você já tenha se deparado diversas vezes com a opção de “Permitir Rastreamento” em apps. Muitos podem permitir sem saber o que estão aceitando, e outros, no entanto, negam sem pensar duas vezes. Para entender exatamente o que acontece ao permitir esse rastreamento, fiz um teste de sete dias no TikTok e Instagram e percebi um aumento perceptível em anúncios personalizados, sugestões mais “certeiras” e também sinais claros de como os dados passam a circular entre plataformas. Veja o que aconteceu.
O que muda ao permitir rastreamento nas redes? Fiz o teste — Foto: Mariana Saguias/TechTudo O que mudou depois que ativei o rastreamento?
Fiz o teste no iPhone, ativando a opção “Permitir Rastreamento” em apps populares por sete dias. Não mudei minha rotina de pesquisa e conteúdos no geral, continuei minha busca por Introdução Alimentar e sono de bebês, algo que virou cotidiano para mim depois de me tornar mãe. No entanto, incluí pesquisas de roupas para provocar o algoritmo.
Permiti rastreamento no TikTok e Instagram e observei as mudanças durante 7 dias — Foto: Reprodução/TechTudo Dias 1–2: anúncios começam a “conversar” entre apps
Nos dois primeiros dias com o rastreamento ativado no iPhone, não notei uma mudança tão clara na qualidade dos anúncios. O que aconteceu foi um aumento geral na quantidade de conteúdos e propagandas relacionadas a temas que eu vinha pesquisando. O "explorar" do Instagram evidenciou mais conteúdos do nicho que buscava e o TikTok passou a aparecer mais propagandas de loja, mas nada absurdo e muito genéricas. A sensação era de que os apps tinham “percebido” meus interesses, mas ainda não sabiam exatamente o que eu queria — mais volume, menos refinamento.
Dias 3–4: algoritmos começam a se ajustar
A partir do terceiro dia, passei a notar mais mudanças. O TikTok passou a me mostrar vídeos e anúncios claramente relacionados a buscas feitas fora do aplicativo, especialmente sobre rotina de sono de bebê e introdução alimentar. Além disso, alguns anúncios de roupas passaram a me incomodar. Fui perdendo um pouco o feed de conteúdo para um feed de venda.
No Instagram, os Reels começaram a parecer mais “espertos”. As sugestões ficaram mais alinhadas com meus interesses recentes e menos aleatórias, como se o algoritmo estivesse começando a cruzar melhor os dados coletados nos dias anteriores.
O conteúdo no TikTok passou a se tornar repetitivo e cansativo — Foto: Reprodução/TechTudo Dias 5–7: personalização extrema — e cansaço
Na segunda metade da semana, a personalização ficou muito mais agressiva. Começaram a surgir anúncios repetidos, muitas vezes do mesmo produto ou da mesma categoria, em sequência — o clássico remarketing. Cansei de ver blusas que “não amassam” e parece que agora sei tudo sobre introdução alimentar.
O Explorar do Instagram passou a ser apenas de Introdução Alimentar e assuntos relacionados a bebês. E os conteúdos que eu pesquisava antes, como cortes de cabelo, viagens ou moda, foram sumindo.
Meu Instagram, tanto o feed quanto o explorar, se voltou ainda mais para maternidade — Foto: Reprodução/TechTudo O resultado no fim da semana
Ao final dos sete dias, ficou claro que o rastreamento funciona de forma progressiva: primeiro aumenta o volume de conteúdo, depois refina interesses e, por fim, intensifica a repetição para estimular a compra.
Mesmo sem planejar, acabei comprando roupas, influenciada pela insistência e pela precisão das recomendações. Além disso, me trouxe uma certa ansiedade a quantidade de soluções que oferecem para melhorar a rotina dos bebês, criando uma necessidade que antes era inexistente: colher apropriada, prato diferenciado, ruído branco, Roll-on de cheiro de lavanda e etc.
Ao final da semana, senti a extrema necessidade de me desligar das redes sociais, que deixaram de ser para socialização e ficou voltada para compras e “necessidades criadas” pelo algoritmo.
Ao longo dos sete dias de testes no TikTok e Instagram, ficou evidente que permitir o rastreamento transforma gradualmente a experiência nas redes. Primeiro, aumenta o volume de conteúdos relacionados. Depois, refina os interesses com base no comportamento dentro e fora dos apps. Por fim, intensifica a repetição de anúncios para estimular decisões de compra. O resultado é um ambiente altamente personalizado e também mais invasivo. O feed deixa de ser apenas entretenimento e passa a funcionar como uma vitrine constante, capaz não só de influenciar escolhas, mas até de criar novas necessidades, muitas vezes levando ao cansaço.
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