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- Author, Luiz Antônio Araújo
- Role, De Porto Alegre para a BBC News Brasil
Há 1 minuto
Tempo de leitura: 9 min
Uma potência decide atacar outra com força limitada para atingir um objetivo determinado. A agredida reage por meio da expansão do campo de batalha. A agressora escala o conflito a fim de recuperar a iniciativa.
Essa sequência, descrita em um modelo chamado Armadilha de Escalada, do norte-americano Robert Pape, tem sido invocada para explicar o que ocorre na Guerra do Irã, que entrou nesta sexta-feira (20/3) em seu 21º dia.
Depois de realizar cerca de oito mil voos sobre o território iraniano e atingir cerca de 7 mil a 7,8 mil alvos no país, matando o líder supremo da república islâmica, Ali Khamenei, e parcela considerável da cúpula do regime, os Estados Unidos ainda parecem longe de atingir os objetivos anunciados no início das hostilidades.
Adicionalmente, a guerra provoca a maior disrupção de oferta de petróleo da história, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), com a cotação do barril atingindo quase US$ 120 esta semana, além de causar pressão inflacionária global e abalo de cadeias produtivas.

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Desde que se iniciou o conflito no Oriente Médio, em 28 de fevereiro, a Armadilha de Escalada passou a ser citada em reportagens e análises no mundo inteiro e registrou aumento de 20% em buscas no Google.
Pape, que é professor de Ciência Política na Universidade de Chicago, tornou-se presença constante em programas de TV, lives e podcasts.
Conselheiro de assuntos estratégicos de todos os presidentes dos EUA desde 2001, ele simulou por 20 anos o bombardeio da planta nuclear iraniana de Fordow, atingida por caças norte-americanos em junho de 2025, e a mudança de regime no Irã.
Com base nessa experiência, está convencido de que o regime dos aiatolás está, paradoxalmente, mais forte hoje do que antes do início da Operação Fúria Épica.
"O Irã no 17º dia [da guerra] é mais perigoso e mais poderoso do que antes de a primeira bomba cair", afirmou na terça-feira (17/3) ao canal de TV indiano India Today.
Quatro dias antes do começo da guerra, Pape lançou na plataforma Substack uma newsletter com o nome de seu modelo. "O termo 'armadilha da escalada' está agora se espalhando. Não é um acidente", afirmou.
Em vez de prestar atenção em alvos, armamento e supremacia aérea — elementos vitais em qualquer conflito contemporâneo —, o modelo volta-se para aspectos mais difusos da guerra: transição progressiva de menor para maior engajamento, ilusão de controle, escalada e desescalada.
"Análises geralmente explicam eventos. Poucas explicam em que fase um conflito está entrando — e o que isso significa antes que se converta em engajamento. A Armadilha da Escalada fornece a você as molduras para reconhecer quando a pressão passa de crise episódica a envolvimento estrutural", sustentou o autor.
Os elementos enfatizados pela Armadilha de Escalada têm uma característica comum: encontram-se na encruzilhada entre guerra e política, terreno no qual predomina a incerteza, de acordo com o cientista político.
"A Armadilha de Escalada não quer dizer simplesmente que as guerras ficam maiores. Quer dizer que os esforços para controlar um conflito podem torná-lo mais difícil de controlar", afirmou.

Modelo serve especialmente para a realidade dos EUA
Professor do Programa de Pós-graduação em Estudos Estratégicos Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Érico Duarte afirma que o modelo da Armadilha de Escalada é uma síntese da tese desenvolvida por seu autor na obra Bombing to Win: Air Power and Coercion in War — ("Bombardeando para vencer: poder aéreo e coerção na guerra", em tradução livre), livro publicado em 1996, sem edição brasileira.
"É um modelo que serve especialmente para informar o público americano sobre os custos que o Estado terá ao investir ou abandonar uma guerra", descreve.
Entre os limites do modelo, Duarte cita o papel irrelevante atribuído à situação política que antecedeu o conflito e a dificuldade de ser aplicado a outros países além dos EUA. "A Armadilha de Escalada não contempla, por exemplo, a situação de Israel diante do Irã", assinala o professor.
A guerra no Golfo Pérsico, segundo Duarte, tem várias camadas. Uma delas é o envolvimento norte-americano. Outra é a participação de Israel. Deve-se considerar também, ele diz, o papel de países como as monarquias do Golfo Pérsico, a Turquia e até mesmo nações mais distantes como o Brasil.
"Como os EUA são a principal potência envolvida na guerra, são obrigados a absorver todos os custos e pressões de outros países — aliados, nem tão aliados ou rivais — sobre os custos imediatos ou de longo prazo dessa guerra", afirma.
Segundo Duarte, os Estados Unidos já entraram em modo de controle e redução de danos no Golfo Pérsico e dificilmente evoluirão para um envolvimento em larga escala como ocorreu no Afeganistão e no Iraque.
"Os EUA estão partindo para uma política de acomodação. Até podem aumentar as ameaças midiáticas e discursivas, mas não acho que queiram escalar a guerra do ponto de vista material."
Professor de Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba e pesquisador do Observatório de Capacidades Militares e Políticas de Defesa, Augusto Teixeira aponta dois pontos fortes do modelo de Pape: a ênfase os limites do poder aéreo na produção de vitória e a definição das operações terrestres como estágio seguinte de escalada por parte da potência agressora.
No caso da Guerra do Irã, diz Teixeira, evitar a escalada implicaria reduzir o alcance dos objetivos políticos, oferecendo a Trump o que vem sendo chamado de "off-ramp", ou saída estratégica, algo que permita ao presidente americano declarar vitória sem a realização de todos os propósitos cogitados no início da ofensiva.
Teixeira afirma que o aspecto crítico abordado pela Armadilha de Escalada é a relação entre os objetivos políticos e os níveis estratégico e tático.
"Eles têm de ser claros e relativamente delimitados para que o poder militar possa persegui-los. A mudança de objetivos políticos pode tornar complicado o ajuste de instrumentos militares para sua consecução", diz Teixeira.

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O pesquisador enfatiza também a disparidade das métricas de sucesso militar em nível tático (entre as quais inclui as mortes de líderes políticos e chefes militares) e estratégico, que define como "a ponte entre o uso da força no campo de batalha e os efeitos para produção das condições políticas desejáveis".
"Quais são as condições políticas desejáveis para os Estados Unidos, aquilo que se chama popularmente de 'endgame' [pontuação ou meta que define a conclusão de uma partida esportiva]?", questiona Teixeira.
Para o professor, o presidente dos Estados Unidos e seus auxiliares têm se referido a múltiplos objetivos políticos, da mudança de regime ao enfraquecimento da capacidade militar iraniana e ao fim de seu programa nuclear.
"A Armadilha da Escalada está intimamente ligada à característica do objetivo que Trump escolher como definitivo. Se for um objetivo minimalista, como a degradação da capacidade de projeção de força militar do Irã, ele conseguirá argumentar que, uma vez alcançado esse propósito, é possível retrair [a ação norte-americana contra o Irã]."
Teixeira afirma que toda guerra demanda estratégia, ou seja, planejamento militar de alto nível para atingir um determinado fim. "O problema é que estratégia é algo jogado por dois atores. O outro também tem direito de fala e vai reagir a fim de impedir que se realize", argumenta.
No caso do Irã, acrescenta, travar uma guerra defensiva para manter o regime no poder tem vantagens evidentes: se a República Islâmica sobreviver ao conflito, seus partidários poderão declarar vitória estratégica.
Custos da guerra são mais baixos para o Irã, diz pesquisador
Segundo Ricardo de Toma, pesquisador pós-doutoral do Instituto Meira Mattos da Escola de Comando e Estado-maior do Exército (Eceme), o modelo de Armadilha de Escalada é aplicável à Guerra do Irã, mas apenas parcialmente.
"Os Estados Unidos e Israel executaram com eficácia uma fase inicial de decapitação da cadeia de comando e de negação da capacidade de retaliação, concentrando-se nos lançadores de mísseis, fato inclusive celebrado por Trump. O problema é que o recrudescimento e a continuidade dessa situação já ameaçam uma evolução para uma guerra regional", afirma.
A Armadilha de Escalada manifesta-se, segundo De Toma, no alastramento de ataques com mísseis e drones pelo Irã contra os países vizinhos. "Esse desdobramento amplia os custos políticos e estratégicos da operação, que são consideravelmente mais baixos para o Irã", observa.
De acordo com De Toma, o modelo de Pape captura a lógica, mas não a geometria específica do conflito atual, no qual é o Irã que, enfraquecido militarmente, recorre a retaliações assimétricas "para evitar uma derrota percebida como total".
Segundo o pesquisador, o presidente dos Estados Unidos ocupa um papel triplo no conflito: decisor estratégico, ator comunicacional e fator de imprevisibilidade.
O fato de Trump ter oferecido justificativas múltiplas e contraditórias para a guerra acabou contrariando os próprios objetivos externos de seu movimento Make America Great Again, mais isolacionista e avesso à participação americana em guerras externas.
"Essa ambiguidade narrativa [de Trump] é disfuncional: impede a formação de coalizões internacionais, fragiliza a legitimidade da operação e incrementa consideravelmente os custos para os Estados Unidos."
"No Irã, o papel de Trump é o de um presidente que conduz uma guerra de alta intensidade sem doutrina estratégica coerente, substituindo a clareza de objetivos pela intimidação retórica."


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