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O que é a dark web? Especialistas esclarecem mitos e verdades

A dark web costuma ser retratada como uma espécie de “lado obscuro” da internet, frequentemente associado a crimes digitais, vazamentos de dados e mercados clandestinos. Embora parte dessa reputação tenha fundamento, especialistas explicam que o tema é mais complexo do que parece. Na prática, a dark web representa apenas uma pequena fração da rede e possui características técnicas específicas voltadas ao anonimato e à privacidade. Para esclarecer o assunto, o TechTudo conversou com Marcos Kenickel Vasconcelos, especialista em tecnologia, infraestrutura de internet e conectividade e CTO da NoPing, e Rafael Peruch, consultor técnico para o CISO na KnowBe4.

Os profissionais detalham as diferenças entre deep web e dark web, comentam os principais mitos sobre esse ambiente e explicam por que ele pode representar riscos para usuários sem conhecimento técnico.

O que é a dark web? Especialistas esclarecem mitos e verdades — Foto: Reprodução/Canva O que é a dark web? Especialistas esclarecem mitos e verdades — Foto: Reprodução/Canva

No índice abaixo, confira os tópicos que serão abordados nesta matéria do TechTudo.

  • O que é a dark web e como ela se diferencia da deep web?
  • Por que a dark web é tão temida?
  • É proibido entrar na dark web?
  • Quais os riscos de acessar a dark web?
  • Usos legítimos e positivos da dark web
  • Como acessar a dark web com segurança?

O que é a dark web e como ela se diferencia da deep web?

Grande parte da confusão sobre o tema começa pela diferença entre deep web e dark web, dois conceitos frequentemente tratados como se fossem a mesma coisa. Na prática, porém, eles descrevem partes distintas da internet. Segundo Marcos Kenickel Vasconcelos, a deep web corresponde a todo conteúdo que não aparece em mecanismos de busca tradicionais.

“A deep web é tudo que não está indexado por mecanismos de busca como Google ou Bing. Isso inclui seu e-mail, painel de banco, sistemas internos de empresas, bases de dados acadêmicas. É a esmagadora maioria do conteúdo online, e a gente usa ela o dia inteiro sem perceber.”

Dentro desse universo existe a dark web, que representa apenas uma pequena fração desse conteúdo e exige ferramentas específicas para acesso. Ele ainda explica que a dark web funciona com tecnologias voltadas para anonimato.

“A dark web é um subconjunto da deep web que exige softwares específicos para acesso, como o Tor (The Onion Router). Ela opera em redes overlay com múltiplas camadas de criptografia e relays voluntários para garantir anonimato tanto do usuário quanto do servidor. Tecnicamente, são serviços acessíveis via domínios .onion, que não passam pela resolução DNS convencional.”

Para simplificar a diferença, o Vasconcelos faz uma comparação com ambientes físicos da internet.

“Pensa assim: a deep web é o que está atrás de uma porta trancada com senha. Seu internet banking, seu prontuário médico, o sistema da sua empresa. Você acessa todo dia, só precisa de login e senha. A dark web é como um bairro inteiro que não aparece em nenhum mapa.
 Reprodução/Pexels Especialistas explicam a diferença entre dark web e deep web — Foto: Reprodução/Pexels

Por que a dark web é tão temida?

A reputação negativa da dark web está ligada principalmente ao fato de que o anonimato pode ser usado tanto para proteger usuários quanto para facilitar atividades criminosas.

“O anonimato é uma faca de dois gumes. A mesma infraestrutura que protege jornalistas e dissidentes políticos em regimes autoritários também é usada por atores maliciosos”, explica Vasconcelos.

Segundo ele, existem fóruns e marketplaces voltados para atividades ilegais. “Existe comércio de dados vazados, credenciais roubadas, malware como serviço, fóruns de carding. Ataques DDoS contratados na dark web, por exemplo, são um problema concreto para a indústria de games.”

Rafael Peruch ressalta que a reputação negativa também está relacionada ao uso do ambiente para compartilhar dados obtidos em ataques digitais.

“Em fóruns ou marketplaces é possível encontrar anúncios envolvendo dados pessoais vazados, credenciais corporativas comprometidas ou bases de dados roubadas, que podem ser utilizados em fraudes ou invasões de sistemas.”

Esse tipo de atividade ajuda a consolidar a imagem negativa do ambiente, embora nem todo o conteúdo disponível ali esteja relacionado a crimes. Ainda assim, a circulação de dados vazados e ferramentas de ataque faz com que o espaço seja constantemente monitorado por pesquisadores e especialistas em segurança digital.

 Reprodução/Freepik Espaço geralmente usado para crimes estigmatizou a dark web — Foto: Reprodução/Freepik

É proibido entrar na dark web?

Apesar da reputação controversa, o simples acesso à dark web não é considerado crime no Brasil ou na maioria dos países. De acordo com Vasconcelos, a legalidade depende das atividades realizadas dentro desse ambiente.

“Acessar a rede Tor é legal. Não existe legislação que proíba o uso de ferramentas de anonimato. O Tor é distribuído publicamente por uma organização sem fins lucrativos e é usado para privacidade, proteção contra vigilância e acesso à informação em países com censura.”

O especialista ressalta que o problema está no uso da tecnologia para práticas ilícitas.

O que é ilegal são algumas atividades que podem ser realizadas lá dentro: comprar produtos ilícitos, contratar serviços criminosos, acessar conteúdo ilegal. A ferramenta em si é neutra, o uso que se faz dela é responsabilidade individual.
 Mariana Saguias/TechTudo Especialista desmente a ideia de que acessar a dark web seja uma atividade proibida — Foto: Mariana Saguias/TechTudo

Quais os riscos de acessar a dark web?

Mesmo quando o acesso é feito apenas por curiosidade, a dark web pode apresentar riscos técnicos e de segurança digital. De acordo com Peruch, o ambiente também reúne diversas ameaças para usuários sem experiência.

“A dark web reúne ambientes onde praticamente não há proteção ao usuário. Links maliciosos, downloads infectados, golpes envolvendo criptomoedas e distribuição de malware são bastante comuns.”

Segundo Vasconcelos, um dos principais problemas é a ausência das camadas de proteção comuns da internet tradicional.

“Na internet comum, temos camadas de proteção: o Google bloqueia sites maliciosos, o navegador avisa se uma conexão não é segura. Na dark web, essas proteções não existem da mesma forma.”

Além disso, o especialista alerta para a falsa sensação de anonimato que algumas ferramentas podem transmitir.

“Outro risco que pouca gente menciona: falsa sensação de segurança. O Tor aumenta bastante a privacidade, mas não entrega anonimato perfeito. Se você loga em uma conta pessoal ou usa o mesmo navegador para atividades normais, você se desanonimiza sozinho.”

Peruch também destaca que muitos incidentes de segurança começam com falhas simples de comportamento digital.

“A dark web costuma ganhar destaque pelo aspecto criminal, mas o ponto mais importante é entender que muitos dos dados e credenciais vendidos ali são obtidos por meio de ataques simples, como phishing. Por isso, investir em conscientização e treinamento de usuários continua sendo uma das defesas mais eficazes contra o cibercrime.”
 Freestocks/Unsplash Entenda os riscos de acessar a dark web — Foto: Freestocks/Unsplash

Usos legítimos e positivos da dark web

Apesar da reputação associada ao crime, a tecnologia que sustenta a dark web também possui aplicações legítimas — especialmente em contextos que exigem anonimato e proteção de identidade. Segundo Vasconcelos, a tecnologia de roteamento usada na rede Tor tem origem em pesquisas de segurança para comunicação protegida.

“A tecnologia de roteamento em camadas (onion routing) foi inicialmente criada por pesquisadores do Laboratório de Pesquisa Naval dos EUA para proteger comunicações governamentais.”

Mesmo assim, Peruch lembra que o ambiente também é monitorado justamente por causa das ameaças digitais. Hoje, esse tipo de infraestrutura também é utilizada por jornalistas investigativos, ativistas e denunciantes que precisam compartilhar informações sensíveis de forma segura.

“Grandes veículos de imprensa, como The New York Times, The Guardian, BBC e ProPublica, possuem plataformas na dark web usando sistemas como o SecureDrop para receber documentos e denúncias de forma anônima, garantindo a proteção e a vida dessas fontes", afirma Vasconcelos.

Além disso, especialistas em cibersegurança utilizam o ambiente para monitorar fóruns onde aparecem vazamentos de dados e novas ameaças digitais antes que elas se espalhem pela internet convencional.

 Lucian Novosel/Unsplash Apesar da reputação, dark web pode ser utilizada para fins legítimos — Foto: Lucian Novosel/Unsplash

Como acessar a dark web com segurança?

Os profissionais alertam que a dark web não é um ambiente projetado para navegação casual. O acesso normalmente exige ferramentas específicas e cuidados adicionais de segurança. Segundo Vasconcelos, a principal ferramenta utilizada para acessar a rede é o Tor Browser.

“A ferramenta principal é o Tor Browser, que deve ser baixado direta e exclusivamente do site oficial do Tor Project, com verificação de assinatura quando possível. Nunca acesse .onion por navegador convencional.”

Ainda assim, ele recomenda cautela para usuários comuns.

“Minha recomendação número 1 é: se você não tem um motivo profissional real (cibersegurança, jornalismo investigativo, necessidade de burlar censura estatal), nem entre. Curiosidade não vale o risco.”

Entre os cuidados básicos estão evitar downloads desconhecidos, não fornecer dados pessoais e manter dispositivos atualizados. No fim das contas, segundo o Vasconcelos, o fator mais importante continua sendo o comportamento do usuário.

“A regra de ouro: se você não sabe exatamente o que está procurando e por quê, provavelmente não deveria estar lá. Segurança na dark web é muito menos sobre uma ferramenta mágica e muito mais sobre disciplina operacional.”

Para Peruch, o principal cuidado é evitar comportamentos que possam expor dados pessoais ou comprometer dispositivos. Usuários sem conhecimento técnico podem se tornar alvos fáceis de páginas falsas, tentativas de roubo de dados ou softwares maliciosos.

 Reprodução/Freepik/cookie_studio Veja como acessar a dark web com segurança — Foto: Reprodução/Freepik/cookie_studio

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