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- Author, Cecilia Barría
- Role, BBC News Mundo
Há 19 minutos
Tempo de leitura: 7 min
Em cavernas subterrâneas escavadas em sal-gema, os Estados Unidos guardam desde os anos 1970 cerca de 714 milhões de barris de petróleo em sua enorme "Reserva Estratégica de Petróleo", criada após uma crise energética grave provocada pelo corte de fornecimento por países árabes.
Meio século depois, o governo americano quer construir uma nova reserva chamada Project Vault ("Projeto Cofre", em tradução livre), mas desta vez voltada a minerais críticos, e não ao petróleo.
O plano, estimado em US$ 12 bilhões (cerca de R$ 60 bilhões), busca reduzir a grande dependência do país em relação à China na produção e no processamento desses minerais. E nesse contexto, o Brasil ganha especial importância por possuir a segunda maior reserva de terras raras do mundo (leia abaixo na reportagem).
"Hoje lançamos o que será conhecido como Projeto Cofre para garantir que as empresas e os trabalhadores americanos nunca sejam prejudicados pela escassez", declarou o presidente americano, Donald Trump, no início de fevereiro, na Casa Branca.
Em meio ao conflito tarifário entre EUA e China, o líder chinês, Xi Jinping, reagiu em 2025 contra Trump restringindo a exportação de terras raras, deixando claro que o domínio chinês na mineração estratégica é uma de suas principais armas nas negociações comerciais.
"Não queremos voltar a passar pelo que passamos há um ano", declarou Trump.
As terras raras são apenas uma parte da extensa lista de 60 minerais críticos definidos pelos EUA.
Esses minerais são essenciais para a fabricação de produtos estratégicos como aviões de guerra, semicondutores, veículos elétricos, sistemas de inteligência artificial, dispositivos médicos, computadores e telefones — em suma, praticamente toda a tecnologia que move o mundo. Estima-se que um único caça F-35 precise de mais de 400 quilos de terras raras para ser fabricado.
E quem extrai 70% das terras raras do mundo e faz o processamento químico de 90% do fornecimento global? A China.

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Agora, os minerais considerados críticos pelos EUA (que vão muito além das cobiçadas terras raras) não são apenas a chave para novas tecnologias, a indústria militar ou a segurança energética. Eles também são essenciais para algo tão básico quanto o funcionamento diário de um país.
Basta observar a lista definida pela Casa Branca. Ela inclui minerais historicamente fundamentais, como o cobre — que é o "sangue" que corre pelas veias da infraestrutura elétrica, das telecomunicações, da construção, do transporte e de diversos dispositivos tecnológicos — e o níquel — essencial na fabricação de aço inoxidável, baterias e componentes da indústria aeroespacial.
Os EUA também querem garantir reservas de minerais como cobalto, lítio, grafite e gálio.
Embora o Pentágono mantenha uma reserva nacional de minerais críticos armazenada em seis locais, esses depósitos são destinados exclusivamente a situações de emergência nacional, segundo informações divulgadas pelo Departamento de Estado dos EUA.
Para Jeff Dickerson, consultor principal em minerais críticos da empresa de pesquisa energética Rystad, os EUA deveriam ter estocado esses minerais com muito mais antecedência.
Como isso não aconteceu, agora "a corrida para recuperar o terreno perdido é real", e não é fácil mobilizar capital diante da incerteza, afirmou em entrevista à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.
Um dos grandes desafios atualmente, segundo Dickerson, é convencer investidores a entrar nesse setor.
Do outro lado da balança está a China, que tem grande capacidade de extração e, sobretudo, controle sobre o processamento de minerais críticos.
"É necessário construir uma ponte entre as matérias-primas e o processamento final. Esse é o componente-chave que falta" para reduzir a dependência do gigante asiático, explica o especialista.
No fim das contas, as matérias-primas só se tornam realmente úteis quando são transformadas em materiais processados, acrescenta.
O papel da América Latina
O interesse dos EUA por esses minerais não é novo, mas a recente atenção da Casa Branca à América Latina, por razões geopolíticas e econômicas, colocou os recursos minerais da região no radar do governo Trump.
A América Latina possui grande riqueza mineral, que vai de recursos tradicionais como cobre até lítio e terras raras. Essa diversidade torna a região particularmente atraente tanto para investidores quanto para governos.
Com a volta de Trump à Casa Branca, os EUA passaram a adotar uma estratégia mais ampla em relação à região, afirma Henry Ziemer, pesquisador associado do Programa Américas do Center for Strategic and International Studies (CSIS).

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Nesse contexto, o governo dos EUA está prestando muito mais atenção à riqueza mineral do hemisfério ocidental e da América Latina, afirma Ziemer. A América Latina, explica, "tem se tornado cada vez mais um campo de batalha entre China e EUA na questão dos minerais".
Essa disputa vem sendo travada em vários países e a China, que há décadas conquista contratos de mineração na região e leva uma vantagem indiscutível, especialmente no Cone Sul (subregião que inclui Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai).
"Os EUA estão chegando tarde", afirma Tilsa Oré Mónago, pesquisadora do Centro de Estudos Energéticos do Instituto Baker para Políticas Públicas e professora de economia na Universidade Rice, em Houston (EUA).
O "descuido" com as alianças com a América Latina, diz ela à BBC News Mundo, acabou deixando o caminho mais aberto para a China.
Uma aliança com o Brasil, por exemplo, seria um passo importante para os EUA em sua tentativa de reduzir a dependência da China, afirma a especialista, no novo contexto de urgência para obter minerais críticos.
O Brasil surgiu como um mercado de mineração especialmente atraente por possuir a segunda maior reserva de terras raras do mundo.
Estima-se que o Brasil tenha entre 20% e 23% das reservas mundiais de terras raras, por exemplo, a segunda maior atrás apenas da China. Em 2025 o Brasil exportou US$ 12 milhões (cerca de R$ 60 milhões) em terras raras, sendo que 99,4% desse total foi para compradores chineses.
Além disso, o governo já se mostrou contrário ao desejo expressado pelos americanos de que países que façam acordo com os EUA fechem as portas para o mercado chinês.

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Dias após o anúncio do Projeto Cofre, o Departamento de Estado dos EUA assinou 11 acordos sobre minerais críticos que declaram a intenção de outros países de colaborar com a Casa Branca.
Argentina, Equador, Paraguai e Peru foram os quatro países latino-americanos signatários, enquanto o México concordou com um Plano de Ação sobre Minerais Críticos.
Faltando poucos meses para o início formal da revisão do acordo de livre-comércio T-MEC entre EUA, México e Canadá, o pacto com o México inclui "identificar projetos de extração", processamento e fabricação de minerais críticos de interesse para os dois países, afirmou o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer.
O México possui reservas ou, em alguns casos, operações de lítio, prata, cobre, zinco, chumbo, manganês e grafite, além de alguns depósitos de terras raras.
Calcula-se que a mina Bacadehuachi, no Estado de Sonora (México), tenha cerca de 8,8 milhões de toneladas de lítio. Até agora, não entrou em operação devido a litígios pendentes com a empresa chinesa Ganfeng Lithium, após o governo de Andrés Manuel López Obrador (2018–2024) anunciar a nacionalização do mineral há três anos, gerando incerteza entre investidores.
E há alguns dias o governo do Chile, que possui uma das maiores reservas de lítio e é o maior produtor de cobre do mundo, assinou uma declaração com os EUA para estabelecer consultas bilaterais sobre recursos estratégicos.
Embora os países latino-americanos tenham muitos dos minerais críticos de que o mundo necessita, ainda há um elo perdido.
Nesse sentido, Jeff Dickerson, da Rystad, afirma que a grande pergunta dos EUA continua sendo o que fazer para que os minerais críticos latino-americanos não precisem necessariamente passar por fundição e refino na China.
A região "pode desempenhar um papel fundamental como potencial fornecedora", particularmente por sua proximidade com os EUA, afirma.
Por isso, acrescenta, na construção dessa "ponte" entre a extração e o mineral final está um dos fatores que podem determinar o sucesso do plano dos EUA para reduzir sua dependência da China.
*Reportagem adicional de Leandro Prazeres

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