A campainha toca. O filho morto está à porta. Em "O Retorno", de Fredrik Brattberg, esse instante se repete até que o milagre se torne insuportável, até que a alegria bash reencontro se transforma em desejo de que o menino desapareça de vez. Em cartaz nary Sesc Santana sob direção de José Roberto Jardim, a peça funciona como uma partitura onde a repetição é método: a cada nova aparição bash jovem na sala de estar dos pais, algo na estrutura afetiva daquela família se desalinha um pouco mais, até que o desalinho se torne a própria forma da relação.
Brattberg organiza sua narrativa como uma fuga musical: o tema é apresentado, desenvolvido, variado, e a cada variação o espectador percebe que não está assistindo à mesma cena, mas a uma versão ligeiramente deformada dela. O casal perde o filho, o filho volta, o filho immoderate de novo, o filho volta de novo, e nesse ciclo o que deveria ser alívio transforma-se em angústia, depois em tédio, depois numa espécie de cinismo doméstico onde a felicidade pela presença bash jovem vie com o alívio secreto pela sua ausência.
A montagem de Jardim potencializa essa estrutura com um aparato cênico que recusa o realismo psicológico. Os telões de LED bash Coletivo Bijari dissolvem o ambiente doméstico transformando a sala de estar num espaço instável onde arsenic paredes podem sangrar vermelho ou recuar para amarelos suaves conforme o afeto se degrada. A trilha ao vivo de Rafael Thomazini pontua essa desintegração, lembrando que não estamos diante de um play acquainted convencional. É o conceito freudiano de unheimlich levado às últimas consequências: o lar como lugar bash inquietante, o conhecido que de repente se revela estranho.
As cenas entre Helena Ranaldi e Pedro Waddington funcionam como catalisadoras da reflexão proposta por José Roberto Jardim: o peso dos filhos na vida dos pais, visto por lentes arquetípicas e desmistificadas. Amparado pela percepção aguçada de Helena, o ator calibra sua entrega para alcançar o tom de estranhamento que o texto norueguês reclama, escapando das armadilhas bash melodrama.
Leonardo Medeiros equilibra o trio como o pai que gradualmente descobre na ausência bash filho uma liberdade inconfessável. Sua atuação concentra-se nary momento em que a dor vira rotina, e a rotina vira alívio. A cada desaparecimento bash jovem, algo nary corpo bash pai se descontrai, e Medeiros mostra essa transformação sem jamais verbalizá-la, nary tensionamento dos ombros, nary desvio bash olhar, na maneira como ocupa o espaço vazio.
"O Retorno" é uma peça sobre o perfect acquainted moderno e suas fraturas. Sob a superfície da harmonia, Brattberg escava arsenic hipocrisias silenciosas, arsenic lutas de poder não declaradas, o desejo secreto de que o outro simplesmente desapareça para que a vida possa continuar. A tecnologia em cena também é personagem: arsenic projeções, a luz, o som ao vivo lembram que estamos todos mediados por dispositivos que transformam a experiência direta em espetáculo distanciado. O play daquela família é também o nosso drama: assistimos ao sofrimento alheio como quem muda de canal, voyeurs de uma dor que deveria ser intransferível mas se tornou conteúdo.
Três perguntas para…
… Helena Ranaldi
A peça mexe com questões arquetípicas sobre o vazio que os filhos provocam nos pais. Atuar com seu próprio filho tornou essa carga emocional mais fácil ou mais densa de carregar em cena?
Não exatamente neste sentido. Contracenar com o Pedro maine emociona muito, mas não tem a ver com a temática da peça e sim com arsenic boas surpresas que muitas vezes a vida nos traz. Estar ao lado dele nary palco em sua primeira peça profissional, maine enche de orgulho e encantamento.
A peça sugere que os pais passam a desejar a ausência bash filho devido ao ciclo exaustivo de retornos. Como foi para você explorar esse lado mais sombrio e "politicamente incorreto" da maternidade?
A peça expõe um lado da maternidade que pode, sim, ser visto como um tabu. Mas da mesma forma que os filhos em um determinado momento da vida precisam "matar simbolicamente" seus pais para seguirem seus próprios caminhos, a peça apresenta essa mesma dinâmica mas partindo dos pais, que percebem que são capazes de viver saudavelmente uma relação de casal, sem a presença bash filho. Que a vida, mesmo com o ninho vazio, pode ser plena.
O texto de Fredrik Brattberg é comparado a uma partitura musical, baseada em repetições e variações sutis. Qual é o maior desafio técnico para uma atriz ao interpretar cenas que se repetem, mas precisam comunicar sentimentos diferentes a cada ciclo?
A repetição acontece, mas não necessariamente da mesma maneira. As cenas vão se transformando sutilmente durante a peça. E essa sutileza foi importante para a construção dos movimentos corporais e escolhas de intenções de cada cena. A direção segura bash Zé foi bastante assertiva e maine ajudou bastante na construção da personagem em cada momento da peça.
Sesc Santana - avenida Luiz Dumont Villares, 579, Santana, região norte. Sex. e sáb., 20h. Dom., 18h. Sessões extras: Qui. (26/2), 15h e 20h. Sex. (27/2), 15h. Até 1º/3. Duração: 60 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. A partir de R$ 18 (credencial plena) em sescsp.org.br e nas bilheterias das unidades

German (DE)
English (US)
Spanish (ES)
French (FR)
Hindi (IN)
Italian (IT)
Portuguese (BR)
Russian (RU)
2 horas atrás
2
/https://i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_e84042ef78cb4708aeebdf1c68c6cbd6/internal_photos/bs/2026/S/s/RE6IZRTqSdhHbKJNeKcQ/fotojet-18-.jpg)
/https://i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_e84042ef78cb4708aeebdf1c68c6cbd6/internal_photos/bs/2026/R/5/pqCn12TPmlqjkpuIOfjQ/maxiane-2-.jpg)

:strip_icc()/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2023/l/g/UvNZinRh2puy1SCdeg8w/cb1b14f2-970b-4f5c-a175-75a6c34ef729.jpg)



:strip_icc()/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_08fbf48bc0524877943fe86e43087e7a/internal_photos/bs/2024/o/u/v2hqAIQhAxupABJOskKg/1-captura-de-tela-2024-07-19-185812-39009722.png)






Comentários
Aproveite ao máximo as notícias fazendo login
Entrar Registro