Mas, alguns meses antes do início da pandemia, contratamos um marceneiro para fazer móveis para nosso apartamento e sempre que eu lhe mandava mensagens de texto com instruções ou dúvidas, ele me respondia com áudios. Eu insistia em responder com texto para conseguir pontuar itens específicos nas imagens que anexava, mas ele devolvia com gravações de voz, mesmo que fosse para comentários curtos.
Certa manhã, ele esteve em casa para tirar medidas e revisar alguns pontos do projeto e foi então, observando como fazia anotações em cima da planta aberta sobre a mesa, que me dei conta: ele não sabia escrever direito.
Suas mensagens não eram fruto de preguiça ou uma forma de poupar o tempo dele ao custo do meu (motivo pelo qual ainda implico com amigos e familiares que insistem em me enviar seus podcasts), mas um jeito de conseguir se comunicar com clareza e velocidade.
Depois disso, contratamos um pintor e um entregador, uma funcionária que nos ajudou em casa por um tempo e a lógica se repetiu em diversas ocasiões, de tal forma que acabei aderindo ao formato quando me dava conta desse padrão.
Em 2024, Mark Zuckerberg disse que os brasileiros enviam quatro vezes mais mensagens de voz no WhatsApp do que usuários de qualquer outro país do mundo. Segundo uma pesquisa Panorama Mobile Time/Opinion Box divulgada no mesmo ano, 98% dos telefones no Brasil têm o aplicativo instalado.
Muitas pessoas preferem enviar recados nesse formato porque talvez seja a forma mais eficiente e clara de se comunicar.
Calcula-se que 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos estejam na condição de analfabetismo funcional (pessoas que têm dificuldade para entender textos simples ou fazer contas). Entre esses, 7% são analfabetos absolutos. Os dados são do Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional), iniciativa da Ação Educativa e do Instituto Paulo Montenegro. É um número espantoso e que tem como efeito colateral uma parte razoável das dificuldades que enfrentamos como sociedade.
É bem-vindo, portanto, qualquer recurso que permita a essa fatia da população participar da vida social, cultural e econômica. Os "áudios de zap" acidentalmente se tornaram um instrumento de inclusão. A mesma pesquisa do Inaf revelou que entre os analfabetos funcionais, 86% utilizam WhatsApp.
Eu ainda escuto esses recados em atitude relutante e velocidade 2x, de forma que, em minha mente, todo mundo com quem converso tem a voz de Alvin e os Esquilos, mas enquanto mordo a língua para minha rabugice umbigo-cêntrica, me dou conta de que para além dessa população, mensagens de voz também são úteis para qualquer grupo com menor letramento digital ou com impedimentos para o uso funcional desses dispositivos. Idosos, pessoas com deficiência e crianças (com as devidas ressalvas quanto ao uso de dispositivos conectados por menores de 12 anos) se beneficiam dessa possibilidade.
É um alento e uma decepção. Sou do tipo que gosta de ter coisas fúteis das quais reclamar e me convencer de que áudios são um recurso decente para tanta gente, enfraquece meu plano de governo para dominação universal.
Mas, entre os áudios escutados sem fone e as mensagens ignoradas, que nos torturem os versos do menestrel deste meu reino idealizado: "Quer as palavras que falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor (...) Pois metade de mim é o que ouço, a outra metade é o que calo".
[refs]
- Esta semana, eu fiquei lendo sobre porque é tão difícil nos contentarmos em levar uma vida normal, renascimento dos telefones com fio e me perdi nessa reportagem do Leão Serva aqui no UOL com povos isolados no Amazonas.
- Escutei um monte de episódios de podcast falando da dominação de IA em nossas vidas (aqui falando do fim dos empregos, aqui o CEO do Google comentando nossa incapacidade de processar tanta informação e aqui os fundadores da Anthropic na Oprah, o que basicamente se explica) e li que os jovens estão deixando de lado o uso de telas para? fazer crochê (oi, mãe!).
- No domingo, assistimos a Devoradores de Estrelas e quero assistir de novo. Assisti também à entrevista com a Dra. Luana Araújo no Missão Saber (programa do Murilo Garavello aqui no UOL) e já não sei se quero viver 120 anos.
- E se você ficou até aqui, deixo o convite para ler meu primeiro texto aqui no UOL, sobre livros e leituras no canal Livros Mudam Vidas: Tudo, menos livros.
Opinião
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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36 minutos atrás
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