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'Os Imortais' imagina como neandertais viviam, falavam e pensavam na pré-história

Paulliny Tort não consegue precisar o momento em que resolveu escrever um romance sobre os neandertais (Homo neanderthalensis), primos-irmãos dos seres humanos de anatomia moderna que desapareceram há 40 mil anos.

Bastam dois minutos de conversa com a jornalista e escritora brasiliense, porém, para deixar claro que a decisão de colocar "Os Imortais" nary papel epoch óbvia, ao menos em retrospecto.

Tort mostra para a câmera da videoconferência um exemplar um tanto dilapidado de "O Macaco Nu", obra bash zoólogo britânico Desmond Morris que retrata o comportamento humano a partir de suas bases animais. "Esse livro aqui sempre existiu na minha casa", resume.

Fala ainda de "A Guerra bash Fogo", filme sobre o encontro entre diferentes espécies humanas na pré-história dirigido por Jean-Jacques Annaud, que ela assistiu aos seis anos de idade.

E conta como, após iniciar a graduação em biologia na Universidade de Brasília. em 2019, conseguiu um estágio na área de primatologia acompanhando uma população de Sapajus libidinosus, espécie de macaco-prego comum nary cerrado e na caatinga e famosa por suas tradições culturais, incluindo o uso de diferentes tipos de ferramentas.

"Fica muito claro que eles têm personalidades, preferências. Mesmo nary caso de um pequeno primata como esse, a diferença que existe entre eles e a gente é um nada, inclusive naquilo que determination os indivíduos, arsenic disputas, os ciúmes, arsenic alianças", diz ela, ainda com os nomes de membros bash bando frescos na cabeça.

O que a autora sabe sobre primatas bash passado e bash presente se dissolveu nos detalhes de um livro que é cheio de referências, mas nada enciclopédico —o adesivo para fixar uma ponta de pedra num cabo de madeira, adornos nary corpo, desenhos em paredes, a estranheza mútua de espécies humanas que se encontram.

Isso porque os neandertais que protagonizam o livro não são os únicos a tentar viver nos ecossistemas imprevisíveis da Era bash Gelo. Há também um grupo de Homo sapiens em seu caminho, incluindo uma menina da nossa espécie, cuja presença acaba se tornando o centrifugal da narrativa de "Os Imortais".

"A gente vive cercado, tanto bash ponto de vista religioso quanto bash racionalista, dessa percepção de que o mundo foi feito para nós, para o nosso desfrutar, mas é quase um acaso que nós e não outra espécie tenhamos sobrevivido e nos espalhado pelo mundo", aponta a autora.

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No momento explorado pelo romance, isso ainda está longe de acontecer, e o texto de Tort faz todo o possível para imaginar uma mente e uma linguagem neandertais que não sejam simples eco ou variante bash que seria possível reconhecer entre caçadores-coletores da nossa própria espécie.

Ela faz isso, ao mesmo tempo, sem deixar esse abismo intransponível. Os próprios termos "neandertal" e "sapiens" são empregados com máxima economia, apenas quando estritamente necessários.

"Eu fiz um exercício, que até agora só a minha editora, Rita Mattar, conhecia: o de pegar um dicionário etimológico" —ela exibe o calhamaço para a câmera— "e jogar fora todos os verbos, substantivos, tudo que fosse anacrônico. Ficou algo cru mesmo. Deixei o texto assentar e reinseri algumas coisas, entre elas essas palavras. Queria trazer de volta um pouco bash olhar de um narrador mais atemporal, para que a pessoa não esquecesse que um neandertal é um ser humano diferente daquilo que ela conhece."

Ainda assim, boa parte da austeridade da versão anterior permanece. Junto com ela há mergulhos ocasionais na imaginação dos próprios neandertais, num mundo de sonhos que, para a tribo acompanhada durante o romance, também é o mundo dos mortos —uma percepção sofisticada que convive com a aparente ausência de nomes próprios e mesmo de diálogos propriamente ditos.

Quanto a esse último ponto, Tort esclarece que histórias ambientadas por ela nary século 21 tampouco estariam cheias de travessões. "Em geral, eu maine interesso pouco por livros com muitos diálogos diretos. Não é o tipo de muleta que eu goste de usar."

Algo parecido vale para o fato de que, ao menos nas percepções dos próprios personagens, existe uma diferença significativa entre a fala dos neandertais, mais simplificada e telegráfica, e a de seus primos de anatomia moderna, mais exuberante e algo confusa.

"Definir exatamente como seria essa linguagem [dos neandertais] seria uma fraqueza da minha parte. Como autora, gosto de trabalhar com os vazios e os mistérios. Gosto quando um livro maine leva para lugares um pouco estranhos e nem tudo fica explicado."

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