1 semana atrás 19

Papa matemático reescreve as regras da IA

O documento abandona a velha dicotomia entre o otimismo cego e o medo do robô exterminador e desloca a discussão para modelos de governança e desenho de poder. Leão XIV argumenta que o poder tecnológico deixou de ser predominantemente estatal para se tornar transnacional e privado, superando a capacidade de intervenção de muitos governos. "A tecnologia não é neutra; ela assume as características de quem a projeta, financia, regula e utiliza", escreve o papa.

O marco teórico se apoia em duas imagens bíblicas opostas. De um lado, a Torre de Babel, um projeto de uniformidade forçada, focado na eficiência a qualquer custo, que exclui os fracos e concentra o poder no topo. É uma analogia ao "construa rápido e quebre as coisas", a mesma doutrina que pavimentou os monopólios digitais.

E, de outro, a reconstrução de Jerusalém por Neemias, um esforço coletivo em que cada família respondia por uma seção do muro e a comunidade afetada tem voz e poder de veto. Para o papa, são duas civilizações possíveis. A Babel que otimiza o lucro e terceiriza o prejuízo para a sociedade. E Jerusalém que distribui a responsabilidade antes de erguer a pedra. O documento nomeia essa fratura como o embate entre a civilização do poder e a civilização do amor.

Para sustentar que a IA não é imaterial, a encíclica recorre a dados concretos. Citando estudo publicado na revista Joule, lembra que um pedido simples de um resumo em um modelo de fronteira (plataformas como ChatGPT, Claude e Gemini) consome cerca de 0,31 watt-hora, gasto que se multiplica por bilhões de requisições diárias. E quando o modelo entra em tarefas de raciocínio, gerando respostas passo a passo, o consumo salta até 13 vezes por requisição.

A partir do conceito de dignidade ontológica, que é o valor que pertence a todo ser humano apenas por existir, independentemente de utilidade, inteligência ou produtividade, o texto organiza sua exigência ética em quatro frentes.

No eixo ambiental, o progresso não é legítimo se degradar ecossistemas, e auditar energia, emissões e água deixa de ser métrica de ESG para virar dever de justiça intergeracional. No eixo laboral, a IA não provoca necessariamente um colapso do emprego, mas impõe uma reorganização desigual das tarefas que pode desqualificar o capital humano e reduzir o trabalhador a uma peça de engrenagem.

Leia o artigo inteiro

Do Twitter

Comentários

Aproveite ao máximo as notícias fazendo login
Entrar Registro