[RESUMO] Legenda derivada do MBL, fundada em novembro de 2025, o partido Missão vem investindo na formação ideológica da sua base eleitoral, inspirando-se em nomes extremistas e reacionários, para se posicionar em um cenário de possível ocaso do bolsonarismo.
Certa vez, nos primeiros minutos de uma entrevista, o diretor de um instituto húngaro de direita me perguntou: "Você já ouviu falar de Antonio Gramsci?".
Eu havia procurado Frank Furedi em 2023 para uma reportagem que seria publicada na revista americana Foreign Policy. O foco era a estratégia do então primeiro-ministro Viktor Orbán, responsável por transformar a Hungria em um hub global da ultradireita ao financiar uma série de think tanks conservadores.
Acenei positivamente com a cabeça. Gramsci, o famoso teórico marxista italiano, desenvolveu o conceito de hegemonia, segundo o qual as ideias dominantes em uma sociedade são as ideias da classe dominante. Ou seja, a dominação não se dá apenas pela força, mas também pela cultura, por meio de aparatos como a mídia e as escolas.
"A sobrevivência a longo prazo do tipo de projeto que ele tem demanda algum grau de hegemonia intelectual na sociedade", Furedi disse sobre Orbán. "Ele precisa criar uma ‘contraintelectualidade’ para criar as bases de um regime político mais durável."
O Missão (ou a Missão, como seus membros preferem), partido de direita derivado do MBL (Movimento Brasil Livre), fundado no fim do ano passado, também parece ter lido —e aplicado— Gramsci.
Com uma revista de artigos políticos escritos por líderes do movimento e colaboradores, um clube do livro, uma academia de formação de quadros e uma espécie de cartilha do partido (O Livro Amarelo), o Missão engaja sua base eleitoral de jovens a partir da disputa ideológica.
É essa base o principal ativo de Renan Santos, um dos fundadores do MBL, presidente da legenda e pré-candidato à Presidência.
Nas redes, ele adota um discurso antissistema e conta que tem feito um tour de carro pelo Brasil financiado por apoiadores, buscando se diferenciar de adversários com grandes estruturas e recursos partidários. Santos também tem viajado à Europa e aos Estados Unidos para encontrar lideranças da direita.
No passado, ele ficou mais conhecido pelo "tour des blondes". Em um dos áudios sexistas sobre mulheres ucranianas enviados em 2022, o ex-deputado estadual Arthur do Val, o Mamãe Falei, disse que Santos viajava ao exterior "só para pegar loira".
A pré-campanha do presidente do Missão ainda não furou a bolha, mas pode ter ganhado um incentivo diante do baque enfrentado pela pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL). No último dia 13, o site The Intercept Brasil revelou conversas em que o filho de Jair Bolsonaro (PL) cobrava de Daniel Vorcaro, do Banco Master, o pagamento de parcelas do financiamento do filme "Dark Horse", uma ode à história do pai.
Após a divulgação dos áudios, houve aumento nas buscas pelo nome de Santos no Google Trends, ferramenta que permite acompanhar a popularidade das pesquisas no buscador. Foi o maior pico de interesse no líder do MBL no último ano, o que poderia indicar um desejo do eleitorado de direita de encontrar um candidato alternativo.
Na primeira pesquisa do Datafolha feita integralmente após a eclosão do caso "Dark Horse" , o presidente Lula ampliou de 3 para 9 pontos a vantagem sobre o senador, com 40% das intenções ante 31% do rival. Os ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD, 4%) e Romeu Zema (Novo, 3%) empataram com Renan Santos (Missão) e Samara Martins (UP), ambos com 3%. No cenário de segundo turno, a igualdade em 45% se transformou agora em vantagem de 47% a 43% para o petista sobre Flávio.
O fato de o líder do partido não ter subido e se aproximado dos dois dígitos na pesquisa não representa necessariamente um fracasso. Isso porque a disputa do Missão não é para agora, diz Odilon Caldeira Neto, professor de história da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) e pesquisador do neofascismo e da extrema direita. "Eles estão se colocando em um processo político mais amplo, pensando em um certo ocaso do próprio bolsonarismo."
É nessa construção a longo prazo que se inserem as iniciativas de formação ideológica no movimento. A revista Valete, por exemplo, foi criada com a intenção de se tornar um "hub intelectual da direita", como afirma um editorial de um exemplar de 2023.
As ideias norteadoras do partido ou quais autores seus líderes têm como referência não são informações de fácil acesso ao público. Uma edição avulsa da Valete custa R$ 100, enquanto a série do Livro Amarelo sai por R$ 589.
Professor de Ciências Sociais na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Jorge Chaloub diz que o Livro Amarelo reúne pílulas de anarcocapitalismo, ideias voltadas a hierarquias de gênero e raciais, uma mobilização de elementos cristãos e um "certo apelo à violência". "Nessa ideia de mudança rápida e radical, vão trabalhando uma certa vertigem de referências."
A Folha procurou o fundador do MBL para uma entrevista. Santos primeiro resistiu: disse que se a conversa fosse sobre populismo digital, um assunto para ele ultrapassado, não perderia seu tempo.
"Adoraria colaborar, mas não vou colaborar com algo que seja uma visão rasa sobre algo muito novo que está acontecendo", afirmou em mensagem de áudio. "Tenho muito pouco tempo a perder. Se for voltar a ter conversa de 2015, 2016, é ‘pointless’ [inútil]."
Respondi que, na verdade, gostaria de saber mais sobre as referências intelectuais e ideológicas do Missão. Ele então pareceu animado, mas, nas semanas posteriores, não respondeu mais aos contatos. Na troca de áudios, disse que o partido é hoje "o grupo político que mais produz conteúdo ideológico e intelectual no Brasil".
Se as referências teóricas da legenda são pouco divulgadas, o mesmo não pode ser dito das propostas da pré-campanha de Santos, que parecem ter sido pensadas para fazer barulho.
Com uma estratégia digital agressiva, típica do movimento que ajudou a criar, ele costuma viralizar nas redes com falas radicais ou exaltadas, como ao defender uma intervenção federal no Maranhão e a separação do Rio de Janeiro do Brasil, ou ao dizer que Flávio Bolsonaro tem que morrer (posteriormente, afirmou que se referia à morte política).
Santos nega que esse tipo de conteúdo faça parte de uma estratégia de viralização. "Não é estratégia, é política pública. Se fosse estratégia, eu não falaria que vou fazer uma nova Reforma da Previdência, que tira voto", disse ele a jornalistas após participação em evento do grupo Esfera, neste sábado (23).
"Ser polêmico não é problema. Ter boa capacidade de comunicação não é problema. Havia uma propaganda dos anos 1990, da Pirelli, que era 'potência não é nada sem controle'. Ser só potência, barulho em rede, não serve para nada se você não tiver o controle. Basta ver o Pablo Marçal, potente em redes, mas que era um completo pateta. Fora que era um estelionatário. Eu não estou aqui para isso."
Em um país onde a maioria avassaladora dos mortos pela polícia são negros, o Missão abraça a controversa teoria do direito penal do inimigo. O partido defende que criminosos do Comando Vermelho e do PCC não tenham direito a um processo criminal com ampla defesa.
Adotando um discurso linha-dura na segurança, Santos também costuma tecer longos elogios a Nayib Bukele, o presidente salvadorenho aspirante a ditador. Ou, ao menos, longos o bastante para caber em um vídeo vertical de poucos minutos.
Em artigo intitulado "Eu não sou só um rostinho (bonito?) na sua timeline. Ou não gostaria de ser (ainda que seja inevitável, e isso realmente é um saco)", publicado em 2023 na Valete, Santos critica a atuação da direita brasileira, que, segundo ele, vive de "espetáculo barato, entretenimento para redes sociais e polêmicas de bar". Ao mesmo tempo, reconhece que também está inserido na lógica das redes.
"Fazer política como grito de negação, como fragmento desesperado, como meme que desaparece na timeline, não deve ser nosso caminho. Pode ser uma das armas, uma alternativa tática para enfrentamento e ocupação de espaços. Mas é pouco, pouco demais", escreveu.
O Missão não apenas faz parte desse fenômeno, como é um de seus precursores no Brasil. O MBL, fundado há 12 anos, cresceu amparado em suas táticas de viralização (o grupo tinha uma dupla de integrantes que passava o dia criando memes, os "memeiros"), muitas vezes de conteúdos mentirosos. Uma marca inapagável de sua história foi o compartilhamento de uma publicação que sugeria, falsamente, que a vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018, teria relação com o tráfico de drogas.
Outros líderes do Missão apresentam um discurso ainda mais radical. Orlando Lima, editor da Valete, defende o fim do sufrágio universal (segundo ele, "o maior problema da democracia") e o que chama de uma "gradação de cidadanias" —quem recebe auxílio do governo, para Lima, não deveria ter direito ao voto. "Pessoas com propriedade, família, trabalho, essas pessoas, sim, seriam plenas de direitos." A reportagem o procurou para saber mais sobre suas ideias, mas não houve resposta.
Tecnofascismo ou tecno-otimismo?
Ainda que não exista um manifesto público do Missão, há algumas pistas para entender com quais universos ideológicos a legenda dialoga.
No festival nacional do MBL, no fim do ano passado, a combinação curiosa de alguns elementos estéticos gerou acusações de que o grupo estaria adotando uma linguagem fascista.
Renan Santos vestia uma jaqueta militar, com insígnias no peito, e carregava uma espada. A sua volta no palco, havia vários estandartes representando os estados, e um deles levava a imagem da bandeira imperial. Esse último era conduzido por uma pessoa fantasiada de onça, o símbolo do partido —uma escolha que alude à identidade nacional.
"Existe um elemento estético realmente provocativo. Eu diria que tem um certo pastiche das formas públicas do Estado Novo brasileiro durante a era Vargas, da exaltação da nacionalidade", diz Caldeira Neto.
"Instrumental ou não, a própria escolha manifesta que o universo fascista acabou impregnando a linguagem nas direitas brasileiras e deixa subentendido que, para os membros do partido Missão, os elementos fascistoides são partes legítimas do seu abecedário e elemento de mobilização política."
Coordenador nacional do MBL, Ricardo Almeida afirmou em participação no podcast 3 Irmãos que a crítica é "muito burra" porque pressupõe que toda estética de orgulho nacional é necessariamente fascista.
"Eu estava na escolha daquela jaqueta, não tem nada a ver com Plínio Salgado ou Mussolini. A espada é uma das intuições simbólicas que o Renan está tendo. O MBL sempre foi muito experienciador de estética", afirmou. "Está rolando uma estética meio imperial, ‘somos brasileiros’, ‘temos que retomar essa terra’. Incentivar o patriotismo nos movimentos de direita é uma coisa muito boa."
Editor-chefe da Valete e coordenador do Livro Amarelo, Almeida foi aluno de Olavo de Carvalho, guru da ultradireita brasileira. Muçulmano, é admirador do escritor francês René Guénon, convertido ao islamismo e precursor do tradicionalismo, uma ideologia de rejeição à modernidade, tratada como uma fase de decadência.
As ideias de Guénon foram absorvidas pelo escritor italiano reacionário Julius Evola e influenciam expoentes da direita iliberal ao redor do mundo, do ideólogo russo Aleksandr Dugin a grupos radicais como a brasileira Nova Resistência, classificada pelo governo dos Estados Unidos como uma organização neofascista. Almeida não respondeu a um pedido de entrevista da Folha.
O festival do MBL também rendeu críticas por outro motivo: a presença do blogueiro neorreacionário americano Curtis Yarvin, também conhecido pelo pseudônimo Mencius Moldbug, precursor do movimento do iluminismo sombrio.
Yarvin argumenta que a democracia é um modelo fraco de governança e que deveria ser substituída por uma monarquia liderada por um CEO. Suas ideias são a manifestação do que os críticos passaram a chamar de tecnofascismo: a junção de tecnologias avançadas, controladas por uma elite de bilionários, com aspirações antidemocráticas.
Por muito tempo, os escritos de Yarvin, um engenheiro da computação, ficaram contidos nas franjas da internet. Nos últimos anos, porém, ele ganhou influência sobre figuras do entorno de Donald Trump, como o vice-presidente J.D. Vance e Michael Anton, que foi um alto funcionário do governo. Yarvin também mantém laços com bilionários do Vale do Silício, como Marc Andreessen e Peter Thiel.
Para além dos escritos antidemocráticos, Yarvin tem ainda um rol de declarações controversas sobre raça. Já afirmou, por exemplo, "que é muito difícil argumentar que a Guerra Civil americana tornou a vida de alguém mais agradável, incluindo a dos escravos libertos".
Segundo perfil de Yarvin publicado na revista The New Yorker, ele chegou a escrever em seu blog, ao tratar da população mais pobre da cidade de San Francisco, que era fundamental encontrar "uma alternativa humana ao genocídio", um desfecho que "alcance o mesmo resultado que o assassinato em massa (a eliminação de elementos indesejáveis da sociedade), mas sem qualquer estigma moral".
Chaloub diz que o convite a Yarvin se insere numa profunda preocupação do MBL com a estética e com a ideia de se vender como um produto.
"Quando mobilizam o Yarvin, não necessariamente vão comprar tudo dele, por mais que comprem em boa medida", afirma. "O Yarvin surge como alguém que sinaliza uma série de coisas. Sinaliza popularidade nos Estados Unidos, proximidade com a base trumpista, um radicalismo muito importante para o discurso deles. Eles querem reivindicar essa radicalidade, esse papel de transformação total."
O americano foi recebido como estrela no festival do MBL, tietado por integrantes e líderes do movimento, e entrevistado como parte do conteúdo premium da revista Valete.
Lideranças do grupo já replicaram ideias projetadas por Yarvin sem citá-lo. Orlando Lima (o que defende o fim do voto universal), por exemplo, afirmou nas redes que o tempo atual demanda o cesarismo, sistema de governo autoritário, centrado em torno de um único líder, geralmente militar.
"Bukele é um César. A figura do César [...] só existe em momentos de decadência. Só existem duas saídas, a ascensão do César para interromper o ciclo ou a dissolução daquela nação", disse em um vídeo com uma imagem de inteligência artificial que transformou Renan Santos em uma espécie de Júlio César.
O cesarismo faz parte do léxico de Yarvin, Anton e de outros expoentes da ultradireita americana.
Em abril, veio à tona outra referência teórica do movimento, a partir de uma reportagem do portal Metrópoles, que divulgou conversas que Santos manteve em um grupo no Instagram. Em uma das mensagens, o líder do MBL pergunta se os participantes já leram BAP. "Vocês têm que ler a Valete. Tem várias pistas desses autores por lá", escreveu.
BAP é a sigla para Bronze Age Pervert, uma personalidade de extrema direita conhecida por seus ensaios e por sua influência na machosfera. Veículos de mídia americanos já associaram o pseudônimo ao escritor romeno-americano Costin Vlad Alamariu.
"Eu acredito no fascismo ou em ‘algo pior’ e posso afirmar isso sem ambiguidades porque, ao contrário de outros, há muito tempo desisti de qualquer esperança de fazer parte do mundo respeitável ou de conquistar um público respeitável", escreveu BAP em texto publicado em 2021 na J'accuse, newsletter britânica da direita radical. "Há muito tempo venho dizendo que acredito no governo de uma casta militar de homens capazes de guiar a sociedade rumo a uma moralidade eugênica."
Ao Metrópoles, Santos disse que não concorda "com as coisas do BAP". "Agora, o BAP é um ator muito influente", afirmou.
De fato, seu livro "Bronze Age Mindset" (mentalidade da Idade do Bronze), publicado em 2018, se tornou bastante influente entre funcionários do governo trumpista. Segundo o site de notícias Politico, Michael Anton recebeu o livro como um presente de Curtis Yarvin.
O ex-funcionário do governo Trump escreveu em uma resenha de 2019 que a importância do livro de BAP "reside no fato de que ele aborda diretamente a insatisfação dos jovens (especialmente entre os homens brancos) com a igualdade tal como é propagada e imposta nos dias de hoje".
Para Caldeira Neto, o Missão está tateando esse universo ideológico para explorar uma nova roupagem, a partir da leitura de que o campo bolsonarista já está sedimentado.
"Eles estão buscando uma orientação afeiçoada a dinâmicas estadunidenses, o pessoal do aceleracionismo da extrema direita, Curtis Yarvin… Mostra que estão antenados com o fenômeno das plataformas digitais, da relação com esses oligarcas dos meios digitais e [associado] a um certo discurso elitista", afirma.
Em entrevista à revista Crusoé, perguntado sobre qual a ideologia do Missão, Orlando Lima, editor da Valete, afirmou que o partido representa "a direita do terceiro milênio".
"Nós somos a direita tecno-otimista. Estamos atraindo a atenção de muitos jovens que facilmente poderiam estar trabalhando no Vale do Silício e que se sentem abandonados pela atual conjuntura política do Brasil."

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