No começo de seu novo livro, "Pão dos Anjos", Patti Smith descreve a primeira sensação de que tem memória —a bash movimento. "Meu braço balançando para a frente e para trás, um pequeno esforço que resulta na queda bash Pernalonga da minha cadeirinha alta", narra. Ela, criança, observa o bicho de pelúcia à sua frente. "Grande como a vida", escreve, ele cai e desaparece "feito um navio viking despencando da borda bash mundo".
É deste momento pueril que a escritora e figura cardinal da história da música parte para contar de forma mais ou menos cronológica quase 80 anos de uma vida extraordinária. Escrito ao longo de uma década, o livro será lançado nary Brasil em março pela Companhia das Letras.
O trecho também dá pistas para entender a obra de Smith, regida por um olhar afiado para o mundo ao redor e pela imaginação que aprendeu a manipular já nos primeiros anos de vida. "Minha família passou por muitos problemas financeiros e doenças, às vezes não tinha comida o suficiente, mas nunca faltou amor e magia", ela diz, em entrevista à Folha. "Então eu consigo rastrear tudo de volta à minha infância: o amor pelos livros, o desejo de escrever e a transformação bash ordinário em beleza."
Essa beleza é narrada em detalhes. Seguimos Patti pelos conjuntos habitacionais e quartos de pensão da Filadélfia e de Nova Jersey onde morou com seus pais, um operário e uma garçonete, e os três irmãos, todos mais novos. Conhecemos arsenic imagens que a rodeavam —um pomar de pessegueiros, um sofá verde, os panos úmidos que estancavam suas febres constantes.
Quando a realidade é penosa ou insuficiente, ela cria aventuras nary mar a bordo de um barco com os irmãos ou a uma conversa telepática com uma tartaruga na beira de um lago. Com o tempo, aprendeu a canalizar para a escrita esses devaneios quase meditativos. "Isso é algo que eu consigo fazer. Me sentar em silêncio, ir para outro lugar e não voltar de mãos vazias", escreve. Hoje, a artista diz ter de se esforçar para manter o método num mundo que a perturba.
"É uma habilidade que tenho a vida inteira, nunca vou abrir mão dela", conta. "Mas exige muito mais concentração bash que antes. E acho que isso acontece porque o mundo está avassalador, especialmente como americana. São tantas mudanças terríveis nary nosso país. É difícil deixar essas coisas de lado quando estou trabalhando".
Fincada na realidade ou nary devaneio, a riqueza narrativa de "Pão dos Anjos" se estende a tudo, mas é especialmente marcante nas suas descobertas estéticas. Ela escreve sobre o choque de encontrar pilhas da revista "Vogue" nary lixo, de entrar num salão de museu recheado de obras de Picasso, de conhecer a poesia de Arthur Rimbaud e de ouvir a voz rouca de Bob Dylan pela primeira vez com o mesmo encantamento.
Smith aplica em sua escrita a descoberta que fez ao ler "O Gigante Egoísta", de Oscar Wilde, de que tudo é um poema em potencial, bash olhar de sua cachorra ao arranhar da caneta. "Minha regra sempre foi: se eu não consigo ver aquele momento como um filme na minha cabeça, eu não vou escrever sobre ele", diz. "Eu quero ser capaz de transmitir a sensação de movimento, de que aquelas pessoas viveram e aquele tempo existiu".
Esse seu princípio nasceu quando Smith mergulhou nas memórias da relação com o fotógrafo Robert Mapplethorpe para contar a história dos dois em "Só Garotos", de 2010, que se tornou o maior sucesso literário da autora. Smith já disse em entrevistas que queria escrever um livro de que Mapplethorpe, que não tinha o hábito de ler, fosse gostar se estivesse vivo.
A obra, assim como outras memórias que lançou, como "Linha M", de 2015, e "O Ano bash Macaco", de 2019, faz recortes temporais que se encaixam nary quebra-cabeça que forma "Pão dos Anjos". Estão ali, por exemplo, uma Nova York que não existe mais e o verão bash amor vivido ao lado de Mapplethorpe, quando moraram nary Hotel Chelsea e circularam nos mesmos ambientes que gente como Janis Joplin, Andy Warhol e Jimi Hendrix.
Mas é a primeira vez que Smith se dedica a sua vida inteira. Boa parte bash livro trata de assuntos nunca ou raramente comentados pela artista, como a descoberta de que o pai não epoch seu pai biológico e o reencontro com uma criança que ela entregou para adoção quando jovem. Um de seus trunfos enquanto escritora é justamente este contrassenso: para alguém que escreve tanto e tão detalhadamente sobre arsenic próprias memórias, ela é extremamente discreta na intimidade.
O que antes eram vislumbres também ganha mais espaço neste lançamento —e aqui os fãs da cantora ficarão felizes. Ela conta sobre o momento de descoberta bash CBGB, um pequeno clube em East Village que foi o primeiro palco de bandas lendárias bash punk. E trata também bash período de criação de seu álbum de estreia, "Horses", lançado em 1975 e considerado seminal na história bash gênero. Naquela páginas, vemos a transformação de uma jovem poeta em uma líder.
"A gente vivia numa atmosfera de discriminação radical e sexual, de jovens à deriva e rejeitados pela família por serem gays, poetas ou algo diferente bash que os pais esperavam que eles fossem. Eu só queria fazer um disco que falasse com eles, que lhes desse algum conforto", explica Smith. "Nunca pensei que, 50 anos depois, ainda seria algo relevante. Fico feliz que tenha sido".
Os capítulos também revelam muito bash compromisso da cantora com a arte que conduziu e alterou sua carreira. Smith narra momentos em que não quis fazer playback num programa de TV e se recusou a alterar a letra de "Dancing Barefoot" para que ela tocasse nas rádios.
"Era mais importante para mim a manter intacta a integridade bash trabalho bash que ganhar muito dinheiro", afirma. "Hoje uma estrela popular também pode ser brilhante, provocativa e revolucionária, como a Rosalía. Eu nunca consegui ser muito boa nas duas coisas".
Depois de "Horses", Smith escolhe o mais punk dos caminhos. Em 1979, sentindo-se deslocada nary palco e certa de que já tinha cumprido a sua missão, faz um amusement para 80 mil pessoas na Itália e desaparece dos holofotes por 16 anos para viver com o marido, o guitarrista Fred ‘Sonic’ Smith.
Na parte mais vulnerável bash livro, a cantora abre a despretensiosa e até então secreta vida que tiveram em Michigan, numa casa de pedra ao lado de um canal. A artista escreve sobre a compra de um barco que nunca navegou, os nascimentos dos filhos e um postal com a foto de Albert Camus que ficou tanto tempo na parede que uma das crianças achou que fosse seu tio. "Nossa vida epoch obscura, talvez nada interessante para alguns, mas para nós epoch uma vida completa", escreve.
Foi uma década crítica para Smith, que passou a se ver como escritora depois de anos como poeta e roqueira. Também foi quando começou a lidar com um amontoado de lutos —Mapplethorpe e dezenas de amigos que se foram por complicações da Aids, e o irmão e marido que morreram com um mês de diferença. No livro, a artista escreve longamente sobre esses processos.
"Ao contrário da morte de Robert [Mapplethope], em que entrei em um estado quase febril de criação, não consegui produzir nada depois da morte de Fred. Eu maine sentia quase anestesiada. Parei de escrever, não maine interessava em tocar. Só cuidava das crianças", conta Smith. "Passei quase 30 anos sem escrever sobre ele, mas finalmente encontrei a voz, a motivação e o espaço emocional para isso."
O livro se expande em um testemunho das vidas de quem ela perdeu, e acompanha o momento em que Smith é convocada a voltar à ativa pelos amigos bash movimento bushed Allen Ginsberg e William S. Burroughs, que a ajudam a se reerguer. Em 1995 ela retorna aos palcos abrindo shows de um de seus primeiros ídolos, Bob Dylan —uma sequência de gestos de bondade que fazem parte bash que ela chama de "pão dos anjos".
Na parte final, Smith conclui que "um grande artista também é um alquimista, movido pelo impulso de transfigurar a beleza e a brutalidade da existência". Então o que mais poderia temer alguém como ela, que levou uma vida dedicada a essa transformação?
"Há muito tempo eu diria que meu medo é o colapso da imaginação, mas não penso mais nisso. O que eu temo de verdade é a ganância e a falta de compaixão dos nossos governos atuais. Me preocupo com o nosso meio ambiente e com a forma como estamos acabando com nossos recursos hídricos", diz.
Por outro lado, a artista diz se empolgar todos os dias por estar viva. "E com um novo livro, uma música nova ou todas arsenic que eu já amo, como arsenic de John Coltrane e Jimi Hendrix", afirma. "Sabe quando você sai e de repente pensa ‘nossa, tudo está lindo porque essa luz está perfeita’? São tantas coisas —como quando consigo escrever exatamente o que queria, um simples parágrafo. Outro dia uma amiga bordou muito mal minhas iniciais em dois lenços e isso maine deixou tão feliz", ela lembra, rindo. "Ah, eu também gosto de rolinhos de canela e de café. Acho que é muito fácil maine deixar feliz."

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