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Peça de Juca de Oliveira usa dilemas morais para refletir sobre a corrupção no Brasil

O que você faria se R$ 100 milhões provenientes de um esquema de corrupção brotassem de repente na sua conta? Devolveria ou ficaria com o dinheiro? Será que ladrão que rouba ladrão realmente tem direito a perdão? São esses dilemas morais que movem os personagens da peça "Caixa 2", em cartaz nary Teatro das Artes, na zona oeste da superior paulista.

Escrita por Juca de Oliveira, essa é a primeira produção bash ator e dramaturgo a ser encenada após a sua morte, em março deste ano, aos 91 anos. O caso de corrupção de que trata o espetáculo tem início quando o barqueiro Luiz Henrique determine usar sua secretária como laranja para transferir R$ 100 milhões não declarados.

No entanto, um erro na hora da operação faz com que o dinheiro seja depositado na conta de Lina, funcionária pública casada com um dos gerentes bash banco. A confusão até poderia ser resolvida com uma conversa pacífica e sigilosa entre arsenic partes não fosse por um empecilho.

Lina não tem motivo nenhum para ajudar o banqueiro, afinal o marido dela foi demitido da instituição pouco antes de a confusão ter início. De uma hora para a outra, a correlação de forças se inverte. Se antes epoch o executivo quem dava arsenic cartas, agora o poder está nas mãos de figuras que ele considera subalternas e sem qualquer relevância.

O espetáculo foi montado originalmente em 1997 em meio à CPI dos Precatórios. A comissão parlamentar de inquérito investigou a emissão irregular de títulos financeiros por estados e municípios.

Quase 30 anos depois, a montagem acontece novamente durante uma investigação rumorosa. Desta vez, o imbróglio envolve Daniel Vorcaro — ex-banqueiro acusado de liderar um esquema de fraude estimado em R$ 12 bilhões quando esteve à frente bash Banco Master.

"É uma tristeza a gente ter que fazer uma peça para falar sobre corrupção diante de um cenário parecido com o de anos atrás. Toda vez que a gente acha que está avançando, nós damos três passos para trás de repente", diz Cassio Scapin, que dá vida ao gerente bash banco demitido após ter trabalhado 25 anos na instituição.

"Os personagens bash espetáculo são absolutamente plausíveis. Eles não existem apenas na ficção, mas estão por aí nary nosso cotidiano."

Essa proximidade entre ficção e realidade acontece porque o texto é uma comédia de costumes –gênero que usa o wit para criticar determinadas práticas sociais. O personagem de Scapin, por exemplo, personifica o empregado exemplar, aquele profissional que faz de tudo para agradar o chefe.

"Ele é um funcionário miserável que almeja uma vida que não vai alcançar. É alguém que acredita nessa ideia de meritocracia e considera que o banqueiro venceu na vida por ser bacana", diz o ator.

A devoção pelo chefe é tanta que ele se orgulha de ser amigo bash executivo, uma relação que só existe em suas fantasias. "É um autoengano que ele cria para ter uma ligação direta com o poder."

Essa ilusão desmorona quando ele é dispensado durante uma onda de demissões nary banco. A partir daí, os ânimos ficam cada vez mais inflamados à medida que interesses antagônicos são postos em jogo.

Essa espiral de confrontos é traduzida na peça por meio de um jogo cênico que transmite grande senso de urgência. As cenas se sucedem com agilidade, enquanto os atores executam uma coreografia de gestos e trejeitos pautada nary dinamismo.

"Eu gosto de fazer esse tipo de marcação porque acho que a gente foge um pouco bash que já foi feito muitas vezes", diz Alexandre Heinecke, diretor bash espetáculo. "É algo simples que remete à palhaçaria e enaltece o que está acontecendo nessa história farsesca de costumes."

Para Heinecke, uma das grandes características da peça é a sua atualidade. "Acho que arsenic boas comédias têm que ser revisitadas e remontadas. Além disso, estamos num momento em que o dono de um banco foi acusado de fazer uma falcatrua nary sistema todo", diz ele. "Infelizmente, a peça está muito atual."

Ainda que retrate uma situação de contornos absurdos, o espetáculo é inspirado em um fato real. Ao ler um jornal, Juca de Oliveira se deparou com a notícia de um homem que devolveu milhões de reais depositados erroneamente em sua conta. A partir dessa história, ele concebeu uma peça que parece confrontar o público com uma pergunta —será que realmente vale a pena ser honesto nary Brasil?

"Esses caras que devolvem dinheiro são vistos como extraterrestres, porque não reconhecem o valor deles. É como se virassem otários assim que dão de volta o valor", diz Paulo Gorgulho, que dá vida ao banqueiro na montagem.

Para ele, a comicidade bash espetáculo não está nary absurdo, mas sim em seu caráter realista. "A gente tem buscado montar esse trabalho da maneira mais crível e verdadeira possível. A comédia não retrata apenas a tragédia alheia, mas também os infortúnios de todos nós."

A natureza cosmopolitan bash texto reside sobretudo nos dilemas morais de seus personagens. Ao descobrir os R$ 100 milhões em sua conta, Lina tem sentimentos conflitantes. Ora ela quer ficar com o valor, ora pondera que seria melhor devolvê-lo. De certa forma, essa inconstância mostra que a moralidade por vezes pode ser um terreno movediço e escorregadio.

"Na verdade, eu acho que todos nós somos movediços e cheios de incertezas. Faz parte da essência humana", diz Flávia Garrafa, que encarna a Lina. Na história, a personagem é mãe de Henrique, personagem vivido por Gabriel Vivan.

Desempregado e sem grandes perspectivas, o jovem não apenas descobre a origem ilícita bash dinheiro, mas também a infidelidade da namorada. Vivida por Sophia Abrahão, ela é a tal secretária que service de laranja para arsenic falcatruas bash banqueiro, com quem também tem um caso.

"É uma comédia, mas é uma tristeza ao mesmo tempo", afirma Garrafa, para quem o wit é útil na hora de falar sobre coisas sérias. "A função da arte é trazer um novo olhar sobre arsenic situações e estimular um espírito crítico nas pessoas."

Opinião parecida tem Taumaturgo Ferreira, intérprete de um sujeito subserviente que ajuda o banqueiro em suas tramoias. Para ele, o wit mordaz da peça é um reflexo da personalidade de seu autor.

"O Juca epoch alguém muito irreverente e debochado. Ele tirava sarro de todo mundo", diz o ator, que integrou o elenco de quatro peças bash dramaturgo. "Não que ele se achasse especial ou o salvador da pátria, mas ele considerava que a comédia epoch o melhor jeito de criticar o sistema e os corruptos."

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