Essa lógica não é nova. No livro The Social Animal (O Animal Social), de Elliot Aronson, aprendemos como o ambiente molda comportamento e decisões. Freud já apontava que a experiência é um registro emocional inconsciente que influencia escolhas futuras. Aquilo que sentimos em determinado contexto passa a orientar decisões seguintes, inclusive as de consumo.

É por isso que compramos com emoção e justificamos pela razão.
Quando uma marca entende isso, deixa de disputar apenas preço ou funcionalidade. Passa a disputar espaço na memória emocional do cliente. E memória emocional não se constrói com produto isolado, constrói-se com ambiente, relações e contexto.
Foi exatamente isso que observei ao passar três dias em Campos do Jordão. Ocupada desde 1874 e emancipada em 1944, a cidade viveu seu auge turístico entre as décadas de 1950 e 1970 e hoje atravessa um novo ciclo de valorização, um verdadeiro renascimento.
Na coletiva realizada no Campos Hall, que anunciou a maior Páscoa da história do município, com expectativa de 500 mil visitantes ao longo de seis semanas, ficou evidente um movimento coordenado: empresários e poder público decidiram elevar juntos o padrão do destino.

Em conversa reservada, Rafael Marcandali, um dos proprietários do Hotel Quebra-Noz, eleito duas vezes o melhor hotel de montanha do Brasil, resumiu com clareza: excelência isolada não sustenta um destino; é preciso elevar a régua coletiva.
Hospedada no Quebra-Noz, compreendi o que ele quis dizer. O bangalô de 100m² impressiona, mas o que transcende é o cuidado: atendimento minucioso, gastronomia refinada, onde o ceviche de banana-da-terra conquistou meu paladar e o premiado medalhão confirmou a excelência da cozinha, biblioteca silenciosa, o tradicional chá da tarde e o terraço Veuve Clicquot, um convite à pausa e à contemplação. Ali, a experiência começa antes do check-in. Começa no entorno.

Quando Thais Medina, da Business Factory, além que criar todo o meu roteiro em Campos, fez questão de me apresentar pessoalmente aos empresários locais, donos dos estabelecimentos que conheci, minha percepção mudou. Deixei de ser apenas visitante. Passei a me sentir parte.
Campos entrega pertencimento em diferentes camadas. No Parque Estadual Campos do Jordão, a natureza e a organização elevam a experiência. Ali me aventurei no mini golfe e no arco e flecha. Dentro do parque, o restaurante Dona Chica traduz identidade regional com hospitalidade genuína. Os pratos são assinados pelo Chef Anderson.

Em outra atmosfera, o restaurante Di Paolo, ao som de sax ao vivo, reforça tradição e eficiência. O restaurante Pennacchi transforma refeição em cenário, com piano histórico de 1912 e afrescos inspirados na obra de Fulvio Pennacchi.

O jantar no Hotel Vila Inglesa amplia o imaginário europeu da cidade, o fondue é uma experiência à parte. A visita ao Parque Amantikir reforça o encantamento paisagístico.

A Casa Bambuí impressiona pelo atendimento acolhedor e pela apresentação estética dos pratos assinados pela Chef Anouk Migotto.

E o passeio de quadriciclo ao Pico do Imbiri (Campos do Jordão Quadriciclos) revelou algo essencial: o desafio também constrói memória. A sensação de "eu consegui" após 45 minutos de trilha permanece viva.

Mas há um equívoco comum quando falamos de experiência: associá-la apenas à sofisticação.
Se Campos do Jordão mostrou como o pertencimento pode ser construído por meio de um ecossistema articulado, outro destino me lembrou que ele também nasce da simplicidade bem executada.
No Hotel Fazenda Bela Vista, em Dourado (SP), cavalgada pelo cafezal, ordenha e agrofloresta demonstram que experiência não depende de luxo, mas de coerência entre proposta e entrega. Ali, o pertencimento vinha da terra, do ritmo desacelerado, do contato genuíno com a natureza. Levei para casa alguns produtos da fazenda, uma forma de prolongar a sensação vivida ali.

No fim, o que move o mercado não é apenas produto.
É a capacidade de fazer alguém se sentir parte, seja em um terraço Veuve Clicquot, seja em um cafezal ao amanhecer.
Quando empresas entendem isso, deixam de vender itens e passam a ocupar espaço na memória.
E quem ocupa memória? permanece.
Opinião
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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