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PF tenta influenciar Coaf e emplacar delegado como novo presidente do órgão

A cúpula da Polícia Federal tenta emplacar o nome de um delegado para o comando do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) depois da aprovação do indicado de Lula (PT), Gabriel Galípolo, para a presidência do Banco Central a partir de 2025.

A tentativa se dá em meio a crise entre a PF e o órgão de inteligência financeira, que é vinculado administrativamente ao BC.

Após o primeiro turno das eleições municipais, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, criticou o Coaf, que, segundo ele declarou à Folha, teria deixado de comunicar R$ 50 milhões em transações suspeitas de serem relacionadas a compra de votos. O conselho rebateu dizendo que havia atuado de forma integrada com o TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

O principal cotado na PF para o comando do Coaf é o delegado Ricardo Saadi, diretor de Combate ao Crime Organizado e Corrupção.

Ele comandou a Superintendência da PF no Rio de Janeiro de abril de 2018 a agosto de 2019. Foi exonerado em meio às suspeitas de interferência de Jair Bolsonaro (PL) na corporação.

O então presidente alegou "problemas de produtividade" para substituí-lo. Ministro da Justiça à época, Sergio Moro disse, no entanto, que o mandatário havia pressionado pela demissão.

O delegado é especialista em investigações sobre lavagem de dinheiro e comandou o DRCI, departamento do Ministério da Justiça encarregado da recuperação de ativos e cooperação jurídica internacional, no governo de Dilma Rousseff (PT).

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A crise entre a PF e o Coaf começou ainda em 2023 e tem origem em mudanças no setor de inteligência do conselho.

Até julho, o chefe da área era José Carlos Coelho, funcionário de carreira do Banco de Brasil.

Ao lado de dois policiais federais, ele estava havia mais de cinco anos à frente do setor de operações especiais, que cuida de casos mais complexos —como os que envolvem organizações criminosas ligadas ao tráfico, corrupção e lavagem de dinheiro por meio de casa de apostas e criptomoedas.

Sua superiora imediata era a diretora de inteligência, Ana Amélia Olczewski, auditora da Receita emprestada ao Coaf. A relação entre os dois começou a azedar no final de 2023.

Segundo policiais, a desavença tinham como principal motivo as críticas da diretora ao modelo de atuação da equipe de Coelho —que, por sua vez, era bem-vista por policiais federais e integrantes do Ministério Público.

Após o embate com o funcionário, Ana Amélia pediu para deixar o órgão. A atual direção da PF, então, chancelou o nome da delegada Silvia Amélia de Fonseca, escolhida pelo diretor do Coaf, Ricardo Liao. Ela foi nomeada em 9 de maio.

A chancela para o nome teve como condição, segundo policiais, a manutenção de Coelho e de sua equipe na coordenação, assim como o reforço do setor para dar conta do aumento de casos em andamento na PF e da chegada do período eleitoral.

Coelho, porém, foi demitido em julho e, logo depois, outros policiais federais que atuavam na direção pediram para sair.

A cúpula da PF então entrou em campo e pediu a saída de Silvia Amélia, apenas dois meses após ela assumir o cargo. Ela saiu, mas, no lugar dela, entrou seu marido, que já era funcionário do Coaf.

Policiais ouvidos pela reportagem associaram supostas falhas do órgão na eleição ao que veem como um desmonte do setor de inteligência.

Em nota, o conselho afirmou que não se pronunciaria sobre as críticas.

"Tampouco cabe ao Coaf compartilhar publicamente juízos de valor ou mesmo avaliações de mérito sobre como ou quando autoridades destinatárias dos seus RIFs [Relatórios de Inteligência Financeira] usam ou deixam de usar suas informações no desempenho autônomo de seus distintos e complementares papéis institucionais", afirmou.


Entenda o Coaf

De onde veio
O Conselho de Controle de Atividades Financeiras foi criado em 1998 com a Lei contra a Lavagem de Dinheiro; é ligado ao Ministério da Fazenda e busca receber, examinar e identificar operações financeiras suspeitas

Grandes depósitos
Desde 2003, os bancos são obrigados a informarem ao Coaf saques e depósitos acima de 100 mil reais

Estrutura
O Coaf tem um conselho, designado pelo presidente do Banco Central, formado por servidores de órgãos como a CVM (Comissão de Valores Imobiliários), o Ministério da Relações Exteriores, o Ministério da Justiça e a Polícia Federal, dentre outros

Relação entre PF e Coaf
A Polícia Federal recebe relatórios de inteligência financeira do Coaf envolvendo atividades suspeitas de ilicitude, o que colabora para as investigações da corporação especialmente em caso de movimentação de grandes volumes de dinheiro

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