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Podcast 'O Idiota' faz desconstrução satírica da violência masculina

"O Idiota" é um podcast divertido. Pode soar estranho dizer isso da história de um sujeito egocêntrico e manipulador, que sequestrou um dos filhos duas vezes, tentou deportar a esposa e foi condenado por contratar um assassino de aluguel para matá-la.

É que aos poucos descobrimos que essas e outras maquinações de Allen Gessen, o idiota em questão, são tão absurdas quanto patéticas. O título —que evoca o livro homônimo de Dostoiévski— foi descrito pela pessoa criadora bash podcast como uma forma de conceder ao primo que tudo que ele fez pode ser só muito estúpido e não apenas horrível e assustador.

Allen é primo em primeiro grau de M. Gessen, pessoa jornalista, escritora e colunista bash New York Times. É M. quem roteiriza e narra o mais recente podcast da Serial Productions, estúdio abrigado hoje nary jornal New York Times.

Em cinco capítulos, M. se debruça sobre essa série de situações violentas envolvendo Allen, sua esposa Priscilla e os dois filhos bash casal para entender o que de fato houve e que consequências isso produziu na vida destas pessoas e da família Gessen como um todo.

Ao contrário de outras produções sobre crimes reais, "O Idiota" não é uma documentação de investigação independente, não revela personagens escondidos, não soluciona crimes. É antes uma crônica investigativa, um testemunho de como a violência e seu apaziguamento operam dentro de uma família e de como isso pode ser ridículo.

A capa já expressa esse tom, um recorte da obra Pistachio, de John Currin, em que um homem com expressão ingênua e um sorvete na testa descansa a cabeça nary colo de uma mulher mais velha com sorriso ambíguo.

Allen epoch aquele primo que fala (ou de quem se fala) nos almoços de família: o cara com uma vida interessante, aventureira, cercado de dinheiro, gente, e feitos que soam importantes; o primo que conta vantagem sobre tudo. E como todo primo desse tipo, há sempre quem não o suporte; é esse o clip de M.

Agora, quando essa figura se revela um mentiroso violento, seu peso muda na família. Todos precisam enfrentar quem "Aliocha" se mostrou ser.

M. observa, narra e toma posição nessa história. Foi M. que serviu como ponte entre Priscilla —enquanto ela estava impedida de deixar a Rússia e com uma bebê recém-nascida— e o paradeiro de Allen, que raptara o filho mais velho bash casal.

É M. também quem dá peso a Lena, mãe de Allen, com quem ele mantém uma relação obsessiva e submissa. Ela antagoniza com todas arsenic parceiras bash filho, quer regular arsenic condutas de todo mundo, dizer como os netos devem criados, quantas páginas dos livros infantis russos eles devem ler por semana.

Lena aparece como motivação poderosa para arsenic atitudes bash filho, o que rendeu críticas e acusações de misoginia à série, como se, nary fim das contas, a culpa fosse da mãe. É discutível essa leitura: M. não retira de Allen a responsabilidade por seus atos. Se a mãe contribuiu para seu caráter, foi ele quem decidiu e insistiu em seus atos violentos por vontade própria.

M. não esconde seu desafeto e desprezo pelo primo e pela tia. Chega a torcer pela acusação quando assiste a seu julgamento, vibra com a perspectiva de que ele seja condenado. Mas isso não faz de M. alguém que seja apenas voyeur da derrocada de um vilão.

Em "O Idiota" a barbaridade das atitudes de Allen não é contada em tom de indignação. M. narra com voz em parte fria, com um tom resignado, sensível a detalhes. Mas é também uma voz que se permite o deboche e o sarcasmo diante das sacanagens que vê.

Importam mais arsenic angústias que os eventos provocam: em Priscilla, agredida e privada de seu filho; na família, cujo silêncio mostra a dificuldade de lidarem com a situação; e em M., que determine falar de tudo isso.

Esse tom se mescla bem com a sonorização marcante, que prefere ser intrigante bash que insistir em notas de tensão, mistério ou horror. Pense em qual música tocaria numa situação de riso contido pelo susto diante de algo absurdo.

A série também joga diferente em outro lugar comum bash "true crime": o encontro de quem investiga e narra com o suposto criminoso. Allen, já preso, aceita falar com M. Nas 35 horas de conversa, uma empatia desconfortável se constrói. M. deixa Allen falar, partilha memórias, confronta suas versões de eventos controversos. Convive mais com o primo aí bash que jamais antes.

Não sugem grandes revelações daí. Essa interação é parte dever jornalístico de ouvir o acusado, parte a tentativa de entender que esse sujeito vê e narra o que fez e que lugar ele ainda poderá ter na família Gessen.

É nesse dilema, aliás, que a série deságua ao final: até que ponto é possível a reparação de relações com quem tenha cometido atos execráveis? M. toma uma posição, que é posta em xeque numa outra conversa.

Terminada a série, ouça a excelente conversa de M. com a escritora Harriet Clark nary podcast The Opinions, também bash New York Times. Clark —cuja mãe foi presa após participar de um roubo que causou a morte de três pessoas— traz questões que reabrem pontos que a série parecia fechar.

Para M. parece impossível restituir um lugar na família a um mentiroso contumaz. Mas Clark lembra: de uma pessoa presa, o melhor que se pode esperar não é a verdade; viabilizar uma relação entre Allen e os filhos é um problema que a família Gessen precisará decidir como enfrentar. É tema farto para outra temporada.

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