
- Author, Rowenna Hoskin
- Role, BBC País de Gales
Há 27 minutos
Tempo de leitura: 8 min
Quando eu comecei a explorar o mundo do prepping (preparação para emergências, em tradução livre), não sabia o que esperar. Parte de mim imaginava algo teatral, como kits para apocalipse zumbi ou bunkers nucleares.
Mas, ao me aventurar pelo interior da região central do País de Gales, ficou claro que eu havia caído em estereótipos.
Leigh Price, 51, de Builth Wells, disse que não estava se preparando para hordas de zumbis vagando pelos arredores, como muitos poderiam supor, mas para ameaças muito mais reais.
"Todo mundo acha que um prepper [indivíduo que se prepara para grandes catástrofes] é algum tipo de maluco de chapéu de alumínio. Não me entenda mal, há alguns por aí. Mas muitos dos estereótipos sobre preppers vêm dos Estados Unidos; no Reino Unido, é totalmente diferente."

Prepping é um movimento global de pessoas que se preparam para a eventualidade de que a sociedade venha a colapsar parcial ou totalmente.
Isso geralmente envolve manter um estoque de alimentos e aprender habilidades necessárias para se virar por conta própria.
Price, pai de três filhos, serviu no Exército, mas hoje administra uma loja especializada para preppers e oferece cursos de sobrevivência.
Cercado por árvores na zona rural de Powys, no País de Gales, o local é um ambiente tranquilo para uma loja que tinha todo o equipamento que se pode imaginar para sobreviver ao fim da civilização, incluindo balestras (arma antiga semelhante a um arco, por vezes conhecida como besta) e paredes cobertas de facas.
"Algumas pessoas estão se preparando para o fim do mundo, um ataque nuclear ou seja lá o que for, e eu sempre digo: 'olha, quando se trata de um ataque nuclear, não é impossível, mas é altamente improvável'", diz Price.
"É melhor você se preparar para as coisas que têm mais probabilidade de acontecer."

Price disse: "O mundo está ficando um pouco mais perigoso. A instabilidade social está no limite. Há algumas coisas acontecendo no mundo, nações contra nações."
A lista de possíveis ameaças dele inclui ataques cibernéticos que "podem derrubar a rede elétrica nacional", interrompendo todos os aspectos da vida moderna.
"Se isso derrubar as redes elétricas, voltamos à Idade da Pedra. Pelo menos por alguns dias", disse Price.
"Você pode imaginar então que, quando as pessoas entram em pânico, tendem a fazer coisas desesperadas.
"O pior cenário que pode acontecer é as pessoas começarem a saquear as casas dos outros, haverá brigas, incêndios... Então, como você se prepararia para isso?"

Eu havia presumido que poderia simplesmente pegar meu kit de primeiros socorros e minha barraca e correr para as colinas em um cenário assim, até Price me dizer que esse é o maior erro que as pessoas cometem.
"Elas acham que poderiam sobreviver como Rambo na natureza, mas, depois de alguns dias de vento, chuva e frio, vão pensar duas vezes", disse.
A chave é defender o seu local ou se deslocar para um mais seguro, como a casa de um amigo, afirmou Price.
Ele disse ainda que muitas pessoas acreditam que os preppers têm bunkers cheios de armas e munição, mas, na realidade, são "pessoas comuns do dia a dia, de todas as origens e de todos os espectros políticos", que têm o suficiente do básico para sobreviver por semanas sem precisar de supermercados ou do governo.
Para avaliar em que nível eu estava em termos de preparação, Price me submeteu a um teste. Depois de fazer várias perguntas sobre o meu estoque de alimentos, água e kits de primeiros socorros, ele disse que eu havia tirado 7/10.
Aparentemente, estar acostumado a fazer compras grandes por ter crescido na zona rural da Cornualha e ter equipamentos de acampamento faz com que você esteja razoavelmente preparado.
Mas, para aumentar a minha pontuação, precisaria comprar um kit de primeiros socorros melhor, um filtro de água e mais comida, muito mais comida.

Influência da pandemia
Price disse que sempre esteve preparado para emergências, mas considera isso apenas bom senso.
Ele abriu parcialmente a loja após a pandemia de covid-19, para poder se preparar caso algo semelhante voltasse a acontecer, depois de ter de fechar seu negócio anterior.
"Pensei: 'bem, vou fazer algo em outro lugar, mesmo que isso aconteça de novo', [assim] eu ainda poderia manter um negócio e sustentar a minha família."
Administrar a loja permite que ele compre seu próprio equipamento de prepping a preços de atacado. Ele disse que não poderia "nem arriscar um palpite" sobre quanto já gastou se preparando, mas acha que pode ter sido "algumas milhares de libras".
Ele acrescentou que não é obcecado por prepping e passa apenas cerca de uma hora por semana verificando se seu equipamento está em boas condições.

As lojas de Price são úteis para todos os tipos de emergência, ele disse, e por viver em uma área rural, ele obtém água de um poço artesiano, o que significa que um eventual apagão não apenas apaga as luzes, mas também impede o acesso à água potável, a menos que seja possível purificá-la.
O que, é claro, ele consegue fazer, já que possui uma bomba com filtro de água para acessar essa reserva subterrânea por meio do poço.
"Eu não me preparo para uma coisa específica, por assim dizer. Sempre penso que, se você está devidamente preparado e tem tudo organizado em casa, não importa o que aconteça, você consegue lidar com isso."
Isso significa uma abordagem diferente dependendo de onde você está.
Por exemplo, em uma viagem a Londres, na Inglaterra, Price disse: "Eu sempre teria um kit de primeiros socorros, não importa para onde eu vá. Provavelmente teria algum tipo de lenço, se houver, por exemplo, um incêndio, você pode cobrir a boca com ele. Uma lanterna, caderno e caneta, um bom casaco impermeável."
Price disse que uma das coisas que recomenda é encontrar uma comunidade: "Prosperamos como espécie humana vivendo juntos; ninguém vai sobreviver sozinho fugindo para a natureza. Em uma situação extrema, é melhor trabalharmos juntos."
Há três anos, havia apenas um encontro de preppers no País de Gales, mas agora eles acontecem regularmente em todo o país, disse Price.

Crédito, Donna Lloyd
Donna Lloyd, 60, também acredita na criação de uma comunidade.
Ela administra uma página no Facebook sobre prepping e começou a reunir suprimentos depois que a sua eletricidade caiu durante o lockdown da pandemia.
Ela e sua esposa, que vivem em Powys, no País de Gales, não conseguiram fazer uma xícara de chá, então um amigo foi até a casa delas com um fogareiro de acampamento para ferver água.
"Foi como aquele momento de estalo, eu me senti meio vulnerável e um pouco boba", disse.
"Pensei: 'bem, eu posso comprar um fogareiro de acampamento. Eu posso fazer isso'."
Lloyd, que já trabalhou nas Forças Armadas, mas hoje atua na área de educação, armazena água, alimentos enlatados, comida liofilizada, chá, café, leite em pó e um kit de primeiros socorros.
Assim como Price, Lloyd não está se preparando para algo específico, apenas tem consciência de que alguma coisa pode acontecer.

Crédito, Donna Lloyd
Ela acredita que há um estereótipo sobre como é um prepper, mas, na prática, existe um espectro.
Desde aqueles que têm seus próprios abrigos antinucleares até os que apenas carregam lanternas na bolsa, ela disse: "Eu fico em algum ponto no meio."
O universo do prepping pode ser bastante reservado, afirmou, variando de "armazenar suprimentos de forma discreta a um isolamento completo de 'lobo solitário', muitas vezes para evitar estigma e rotulações", enquanto outros se concentram na construção de comunidade.
Mas Lloyd disse que essa mentalidade não a impede de levar uma vida normal, e ela ainda tira férias.
"Há maneiras de se preparar, de modo que, mesmo estando longe do que você normalmente carrega, ainda seja possível utilizar ou improvisar com o que tiver", disse Lloyd.
"Algo que levo comigo o tempo todo é uma pequena ferramenta de sobrevivência no formato de cartão, com diferentes funções, como chave de fenda e abridor de garrafas."
Ela disse que outra forma de se sentir mais confiante é aprender a fazer fogo.
Lloyd continua: "Não se trata necessariamente de fazer fogo, mas da habilidade de identificar os elementos que ajudam você a acendê-lo.
"Ajudar você, como pessoa, a ter confiança, a se sentir mais no controle, mais capaz de lidar com situações e mais consciente do seu ambiente."
Ela afirmou que não faz isso por diversão, o prepping a ajuda a se sentir mais confiante e segura.
Esse sentimento é compartilhado por Price: "Tendo esses suprimentos iniciais, você vai se sentir um pouco melhor do que alguém que não tem absolutamente nada. Um bom ditado no prepping é: 'é melhor ter e não precisar do que precisar e não ter.'"

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