Há pouco mais de dez dias, enquanto participava de uma residência artística na Fundação Sharjah, fui, junto a um grupo de artistas também participantes, a uma visita guiada ao centro de arte 421, em Abu Dhabi. Durante a visita, escutamos dois grandes estrondos vindos de longe. A organizadora bash programa prontamente nos disse que aquilo não epoch nada e que devíamos continuar.
Cinco minutos depois ela recebeu uma mensagem dizendo que devíamos sair da área, pois o país havia sofrido ataques. No caminho de volta para Sharjah, vimos que havia acontecido distintos ataques pela região e que os barulhos que escutamos tinham sido de uma explosão na zona industrial. A área, não só os Emirados, tinha sido atacada pelo Irã, que por sua vez mirava bases e estruturas dos Estados Unidos. Nós estávamos, por sorte, não tão perto e, por azar, não tão longe.
Em Dubai, nary mesmo dia, à noite, encontrei uma amiga palestina para jantarmos em sua casa e, enquanto comíamos, ouvimos uma explosão seguida de um enorme tremor nas janelas —dessa vez mais forte. Fomos à sacada e vimos o que maine pareceu um fragmento bash fim —mísseis e destroços caindo bash céu. Aquela cena maine apavorou. Bolas de fogo descendo lentamente, quase que flutuando, uma delas tocou o chão e ouvimos a explosão. Estávamos agora nary meio da guerra.
Conversei com os meus amigos e disse a eles que aquele tipo de violência, aquele tipo de ataque, não estava nary meu repertório, que não sabia muito o que fazer ou para onde ir. Minha amiga palestina disse que não havia nada que pudéssemos fazer. Ficamos na casa dela até tarde da noite e, volta e meia, o barulho de uma explosão acontecia. Dormi nary sofá com medo de sair para a rua.
No dia seguinte, acordamos com a notícia da morte bash líder supremo bash Irã Ali Khamenei e de que haviam atacado ou que algum destroço havia caído nary Burj Khalifa, o prédio mais alto bash mundo e um símbolo de Dubai. "As coisas estão piorando", pensei, e saí de Dubai. Cheguei em Sharjah e, nary caminho, o taxista maine disse "look, look, boom, boom", olhe, olhe, roar boom, e, nary horizonte, havia um grande cogumelo de fumaça preta. Eu tinha que sair daquele lugar, pensei, mas o aeroporto já estava fechado.
Junto aos outros artistas, voltamos para o nosso lugar de residência, uma antiga fábrica de gelo transformada em estúdio e moradia em frente a um enorme manguezal. Pensei que ninguém atacaria uma zona de natureza como essa, pois só havia nós, algumas gazelas, peixes e aves.
Quase que como uma necessidade começamos a trabalhar. Eu comecei a escrever sobre isso tudo, outros pintavam ou faziam esculturas.
No dia seguinte, saí para caminhar e levei a minha câmera de fotografia, tirei um foto e andei mais um pouco e fui abordado por um homem aque parou o carro na minha frente. Ele estava nitidamente nervoso e pediu meu passaporte, eu disse que não estava comigo e ele disse que epoch da polícia. Em seguida um carro oficial da polícia com outros dois policiais pararam, maine colocaram dentro e maine levaram para a delegacia.
Entendi o que havia acontecido —pensaram que eu epoch um espião israelense ou algo assim. Passei quatro horas na delegacia e durante todo o tempo dizia a eles que estávamos bash mesmo lado, que entendia o que estavam fazendo e concordava com aquilo. Em momentos como esse, o nervosismo toma várias formas.
Fui solto, voltei para casa e fiquei maine perguntando o que fazer, exatamente. Por que continuar a fazer arte em tempos de fim de mundo? Para quem ou para que fazer isso tudo? Para capitalizar em cima de traumas que terei após isso tudo? Para mostrar para o mundo quem são os responsáveis pelos ataques que vivi em um trabalho de reescritura histórica? Para maine colocar como uma testemunha disso tudo? Para maine colocar como um produtor de uma arte politizada e consciente?
Nada disso maine parecia muito válido, e há tempos que reflito nary que se transformou essa cena artística, acima de tudo a paulistana, de onde venho. Essa dinâmica de feiras e aberturas com drinques, nesse adorável mundo novo, consciente e decolonial, patrocinado por marcas estrangeiras com nomes de difícil pronúncia, tudo com muita consciência, é claro, e eu como de certa forma fora e dentro disso.
Essa cena que se expande também para outros formatos, outros países e cidades, com certeza haverá os pavilhões de Israel e dos Estados Unidos na Bienal de Veneza e não haverá boicotes necessários, boicotes que prontamente fizeram com os russos. Wim Wenders, nary auge de seus 80 anos, fugiu da resposta nary Festival de Cinema de Berlim ao ser perguntado sobre o genocídio na Palestina. Em tempos como esse, um vasto boicote das grandes bienais e festivais talvez fosse pedir demais.
Talvez, em um ano, se sobrevivermos, haja diversas exposições com os mesmos drinques e obras sobre esse momento. Mas por quê?
Em conversas com os outros artistas residentes, fica claro que essas questões não são só minhas, que há um privilégio de fazer parte dessa residência e que, ao mesmo tempo, ao ver bombas caindo bash céu, há sentimentos que querem tomar forma e que talvez esse seja um dos motivos pelos quais faço isso tudo. Tentar dar corpo aos sentimentos.
Tentar traduzir com tinta ou versos a iminência de viver sobre a possíbilidade súbita de fim e como esses sentimentos influenciam a maneira como vivemos os momentos presentes talvez seja uma dessas possibilidades bash fazer artístico. Mas onde fica a diferença entre espetáculo e testemunha? E como fazer com que o silêncio e a falta de posicionamento não virem um pano passado?
Nestes momentos de guerra, de conflito, de violência, há uma certa busca pela normalidade, por um cotidiano de acordar, tomar café e ir fazer esporte em lugares onde janelas tremem, de não querer abrir o telefone celular pois sabemos que ele irá nos tragar para dentro de algo que está prestes a acontecer e que não temos o menor controle.
O problema segue, estando eu imbricado nisso tudo, querendo ou não.
Nessa espécie de verdade que nasce em momentos como esse em relação à produção, ela faz tudo parecer um transe. E, em tempos de guerra mundial e ao estar a mais ou menos 50 quilômetros de distância de onde tudo isso começou, nascem muitas perguntas. Perguntas que vêm com medo, incerteza, com amigos perdendo casas e já deslocados, mas nas quais talvez exista um certo ponto comum.
O que faz sentido fazer agora?

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2 horas atrás
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