Há uma história grega que ilustra bem isso: Zeuxis e Parrásio se desafiam para saber quem é o melhor pintor. Zeuxis pinta grãos de milho tão perfeitos que são capazes de atrair pardais verdadeiros, que tentam bicá-los. Depois deste feito, ele se vira para Parrásio e pergunta: "E você, que pintura esconde atrás desta cortina?". A pintura de Parrásio era a própria cortina.
Enquanto um engana pardais, o outro engana seres humanos: este é o verdadeiro pintor e o verdadeiro mentiroso.
A paralinguística, que é a disciplina que estuda a linguagem não verbal, os sinais corporais, o tom de voz e o estilo de dizer, diz que há sinais que denunciam a mentira — que podem variar muito de cultura para cultura e de pessoa para pessoa, podem ser aprendidos e neutralizados pelos profissionais, mas que são:
- Falar mais alto ou mais depressa;
- Desviar o olhar de seu interlocutor;
- Morder os lábios ou suar mais do que o normal;
- Usar e repetir expressões como "de fato" ou "você não acredita em mim?";
- Aumentar a frequência de indicadores de ansiedade (tocar o rosto, balançar os pés, coçar-se, mostrar as palmas das mãos ou mexer no cabelo).
Nenhum sinal isolado é prova de mentira. Mesmo para especialistas treinados, a taxa de acerto na detecção fica em torno de 54% — ou seja, pouco mais que o chute ao acaso.
Ainda é preciso distinguir tipos e funções da mentira:
- Mentimos porque precisamos descobrir a verdade.
- Mentimos para ser/ter o que não somos/temos, para tirar a vida da banalidade (embora o excesso torne a vida quase insuportável).
- Mentimos para descobrir o que temos e somos coletivamente (chegar na "verdade" sobre nosso lugar em relação ao outro).
- Mentimos para passar do desejo de reconhecimento para o reconhecimento do desejo (mentira como estratégia de sedução, ironia e poesia).
- Mentimos porque nos alienamos ao desejo do outro, ou seja, queremos adivinhar o que nos tornará amáveis, adequados e interessantes.
A mentira é um ensaio de viver outras vidas e nos tornar outras pessoas, que envolve teatro, dança, lúdico e sexo. Ou seja, é um exercício da fantasia, de cujas regras para construir e encobrir nos levam à verdade.
Uma história clássica parece conter a essência humana da mentira: "Poesia e Verdade", o relato autobiográfico de Johann Wolfgang von Goethe.
O jovem poeta conclui seus estudos de forma brilhante e majestosa. O mundo está a seus pés; ele finalmente se tornou alguém na vida. Neste momento, abate-se sobre ele a mais profunda depressão. Ele sabe tão bem quem é que não sabe mais o que quer. O mundo lhe parece falso, inautêntico e mentiroso — um jogo, um teatro, uma farsa.
Sentindo-se apenas mais um ator nessa comédia de erros, ele decide criar um exercício para si: veste-se de monge trapista e viaja para uma aldeia rural onde ninguém o conhece. Lá, tratado como qualquer um, deixado à sua própria sorte, mas incógnito, ele passa pela mais profunda experiência de libertação de si. Não tem mais favores ou obrigações.
Livre e anônimo, sem saber quem é, ele pode, então, se apaixonar da forma mais lancinante e verdadeira. Mas que moça corresponderia ao amor de um pobre monge? Recusado no seu mais puro sentimento, ele descobre uma amarga verdade: quando se sabe o que se quer, não se sabe mais quem se é; e quando se sabe quem se é, não se sabe mais o que se quer.
Este descompasso entre ser e querer é a maior fonte da mentira, inclusive da pior delas: aquela que não reconhecemos como tal e que erguemos contra nós mesmos.
Goethe volta, assim, para sua terra natal em Weimar e torna-se o que verdadeiramente era (a parte menos interessante da história): alguém que sabe quanta mentira é necessária para chegar à verdade.
Por que a criança aprende a mentir
Entre dois ou três anos, as crianças já dispõem de um farto repertório de manipulações, fingimentos e mentiras — algo que, em geral, os adultos relutam em admitir.
Mas a descoberta de que os mais velhos mentem e de que ela, consequentemente, também pode fazê-lo é um salto psíquico crucial que permite que a criança desenvolva o sentido de intimidade e de investigação "agonística" com o mundo.
Em outras palavras, ela começa a entender que as coisas não lhe serão ditas de forma direta, porque o silêncio ergue barreira de privacidade e porque existem coisas que os outros simplesmente não sabem — nem sobre si mesmos.
Começamos mentindo para o mundo e terminamos sem saber quando estamos mentindo para nós mesmos. Uma série de experimentos psicológicos já provou que nossa autopercepção sobre nossos próprios valores, princípios e imagem é assustadoramente distorcida. É difícil estabelecer o limite entre mentira, fantasia, ilusão e autoengano.
Quanto mais mentimos para nós mesmos, mais tendemos a mentir para o outro.
Elas mentem, eles mentem
Diante da mentira, as mulheres costumam perguntar "por quê?", enquanto os homens, "para quê?".
Ao mentir, as mulheres usam mais a linguagem de distanciamento emocional, usando menos pronomes em primeira pessoa ("a gente" ou "aquela situação"). O "eu fiz" vira "foi feito". Os homens fazem isso de forma menos sistemática. Elas também inserem mais marcadores de incerteza ("acho que", "talvez", "não tenho certeza", "eu pessoalmente") —isso pode ser sinal de mentira ou estilo comunicativo habitual, o que torna a detecção mais difícil.
Desviar o olhar, apesar do que diz o senso comum, não é um sinal confiável de mentira. Mas há diferença de padrão: as mulheres tendem a manter o contato visual ligeiramente mais longo, enquanto os variam mais entre aumentam o contato para parecerem mais convincentes e desviam o olhar para dispersar o foco.
As mulheres são, provavelmente, mais treinadas para isso. São socializadas desde cedo para gerenciar as emoções alheias e a mentir de forma mais sofisticada, o que inclui desenvolver um maior controle paralinguístico.
As meninas aprendem que as expressões faciais têm consequências sociais imediatas, e se tornam exímias em mascarar mentiras de baixo risco —paradoxalmente, em situações de alto risco, isso sobrecarrega o sistema e provoca microexpressões involuntárias. Homens tendem a vazar mais pelo corpo sob pressão.
Elas mentem mais sobre estados internos ('estou ótima', 'adorou seu presente'), focando na proteção social e no ego do outro.
Eles mentem mais sobre conquistas e fatos ('eu já sabia', 'fiz sozinho'), priorizando a autopromoção.
Mentiras sobre estados internos demandam mais controle emocional e prosódico, enquanto mentiras sobre fatos exigem mais coerência narrativa.
E gênero interage com cultura, poder e contexto. Alguém em posição de autoridade mente de forma muito diferente de um subordinado, independentemente do gênero. Pessoas com um estilo comunicativo mais andrógino tendem a misturar esses padrões.
O melhor detector de mentiras continua sendo o contexto, a inconsistência narrativa e o quanto você já conhece a pessoa.
Qual seu tipo de mentira preferido?
Qual é o seu estilo de mentira preferido: o que engana os outros ou o que sabota a si mesmo? Para quem adora se enganar com testes de TikTok, aqui vai um pequeno exercício. Escolha uma das alternativas:
Mentira 1
a) Digo que vou sair com a pessoa A para testar sua reação (caçar sinais de inveja, ciúme ou indiferença), mas também para plantar a suspeita de que meu plano real é sair com B. Faço isso porque aposto que você, no fundo, quer me ver com A, só para ter o álibi perfeito para especular sair com B.
b) Digo que vou sair com A para checar se você valida essa escolha. Preciso ver se você acha A tão atraente, desejável e amável quanto eu imagino. Só descubro o meu "verdadeiro" desejo quando o comparo com o desejo do outro — mesmo sabendo que esse outro também pode estar mentindo.
Mentira 2
a) Ligo para aquela amiga que eu tenho certeza de que vai me dar o empurrãozinho que falta: "Liga para o X agora!". É o que eu quero fazer, mas só consigo ir em frente se acreditar que minha amiga faria a mesma burrada no meu lugar.
b) Ligo para aquela amiga sabendo que ela vai dizer: "Não ligue para o X!", porque eu sei que vou fazer a mesma burrada de sempre e ligar. Mas eu preciso que alguém me diga compreensivamente "Eu te avisei!" depois para amplificar minha culpa e, ao mesmo tempo, me eximir dela.
Mentira 3
a) Digo que o sapato custou X, quando custou bem mais, porque quero que o outro pense que sou econômica e não abuso do orçamento.
b) Digo que o sapato custou X, quando custou bem mais, mas em seguida me sinto idiota porque o outro não sabe e não parece ligar para o preço.
c) Deixo escapar, "sem querer querendo", que o sapato custou uma fortuna, só para ver o outro tomado por desprezo, fúria e inveja. Assim, posso dizer que era brincadeira (mentira).
Agora, cruze suas respostas com a escala abaixo. Ela mede o preço que você está disposto a pagar pela mentira ou o quanto tenta empurrar esse custo para os dos outros.
É o termômetro da sua capacidade de autocrítica, autoironia e sinceridade consigo mesmo, indicando se suas mentiras estão em um nível subclínico ou se você precisa procurar um "verdadólogo" para tratar a sua "mentirice".
Grau 1: Mentira do Cotidiano
Ela sequer é percebida como real por quem mente. O ato é suavizado com expressõesauto-enganadoras do tipo "todo mundo faz" ou "todo mundo diz" -- o que não torna a coisa menos mentirosa. É o nível das pequenas ficções que tornam a vida suportável, misturando semirrealidade, sub-realidade e super-realidade.
Grau 2: Mentira do Ganho Oculto
Ela é parte de uma fantasia cujo ganho é ignorado pelo próprio sujeito. Trata-se daquele prazer de levar vantagem sem pagar a conta ou de causar mal-estar sem ser responsabilizado. É o terreno da fofoca e da maledicência. No fundo, é uma só covardia moral que, em geral, termina na depressão.
Grau 3: Mentira como Modus Operandi
Aqui ganha dois agravantes comuns: a repetição compulsiva e a organização em grupo. É a mentira que exige outras mentiras para manter o castelo de cartas e que vira meio de vida. O sujeito desgasta sua palavra, fica desorientado e precisa de "parceiros" para confirmar a mentira, o que torna todas as relações instáveis. É o nível da mentira compulsiva e fabulante do filme "Prenda-me se for Capaz" --qualquer choque de realidade é recebido com agressividade e visto como uma ofensa pessoal
Grau 4: Mitomania Delirante
Aqui a mentira ganha força de crença religiosa: fechada no sistema, organizada e refratária à mudança. É o que a psicopatologia clássica chama de mitomania ou fabulação, onde o sujeito acredita no próprio delírio. Este é o nível dos distúrbios severos de imagem corporal (que levam ao ciclo infinito de cirurgias plásticas), das pessoas que vivem como personagens ou do fanatismo político, religioso ou estético.
O mitômano reúne todas as patologias anteriores, acrescidas de uma urgência perigosa: o desejo de impor, espalhar e estabelecer a sua mentira como a única verdade para o outro.
Se você se reconheceu nos últimos graus, o diagnóstico é claro: suspenda os testes de internet. Afinal, a pior mentira é sempre aquela que contamos para nós mesmos no escuro do quarto.
Opinião
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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