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Por que o PT e a esquerda global não falam mais de Milei?

Imagens da balbúrdia sindicalista que tomou conta das ruas de Buenos Aires foram compartilhadas aos milhares pelas viúvas do peronismo e seus aliados pelo mundo afora, para propagar a narrativa de que o programa de Milei —ancorado na reforma radical do Estado, na austeridade fiscal, na liberação de preços, na abertura comercial, na privatização e na desregulamentação dos mercados— estava "fazendo água". No Brasil, até um economista de plumagem tucana pontificou: "Ele vai naufragar!".

Mas eis que, de repente, o PT e a esquerda do país e do exterior pararam de falar de Milei. O que aconteceu? Por que, da noite para o dia, ele deixou de ser vidraça aqui e lá fora? O que levou petistas e esquerdistas de colorações variadas, sempre tão combativos e mobilizados para detonar seus adversários por aí, muitas vezes recorrendo a fake news e à manipulação descarada de informações, a "esquecer" o presidente argentino?

É simples: ao contrário do que diziam os catastrofistas sobre seu governo, Milei vem colecionando resultados impressionantes não apenas na economia, mas também em outras frentes, como na segurança pública, na política externa e até no complexo cenário político argentino. Ele obteve, contra todos os prognósticos, uma vitória acachapante nas eleições legislativas de 2025, que lhe conferiu uma confortável vantagem sobre a oposição no Senado e na Câmara, para que possa implementar as medidas pendentes de seu programa de governo liberalizante.

Capitalismo

Decorridos dois anos à frente da Casa Rosada, Milei está mostrando, para desalento de seus críticos e opositores, que o capitalismo funciona e que a liberdade econômica ainda é a melhor forma de promover o crescimento econômico, a redução da miséria e a melhoria da qualidade de vida da população —e isso, obviamente, não é uma boa notícia para esquerda, especialmente para Lula e seus aliados na América Latina.

Milei está mostrando também que uma política de segurança enérgica contra a bandidagem é que leva à redução da criminalidade e que a defesa dos valores ocidentais, centrados na democracia, na livre iniciativa, no respeito aos direitos individuais, na igualdade de oportunidades, na meritocracia e na liberdade de expressão e de culto, é que fazem a diferença para a prosperidade das nações.

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Com o sucesso que alcançou até agora, Milei se tornou um fenômeno global, um exemplo para todos os que se opõem à agenda socializante e embolorada de Lula, do PT e da esquerda, focada na gastança sem lastro; no aumento ilimitado de impostos; no intervencionismo estatal nos negócios e na vida das pessoas; na demonização da riqueza e do sucesso individual; na distribuição de benesses ilimitadas aos "oprimidos"; e na tentativa de formar uma aliança do chamado Sul Global contra a ordem econômica mundial, liderada pelo satã "estadunidense".

Sua ascensão deixou Lula —que já foi chamado de "o cara" pelo ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama — na sombra, provavelmente morrendo de inveja. É certo que o próprio petista, com seu discurso dos tempos da Guerra Fria e a mesma ladainha de sempre, acaba sendo seu pior inimigo neste quesito. Ainda assim, não dá para negar que, com suas conquistas e suas ideias antiesquerdistas, Milei ficou sob os holofotes por seus próprios méritos e se tornou um dos grandes líderes globais. Onde quer que ele vá desperta enorme interesse e manifestações de admiração e respeito pelo que tem feito e pelo papel que passou a representar na arena mundial.

"Foi uma grande honra encontrar o presidente Milei da Argentina, um líder visionário que é um caso em toda uma geração de líderes globais a restaurar o sucesso econômico de seu país e se tornar um modelo pelo mundo, por ter a coragem de fazer um ajuste fiscal robusto e reformas estruturais", afirmou no X o economista e consultor americano, Nouriel Roubini, que previu a crise financeira de 2008 e esteve com o presidente argentino na Casa Rosada, em março de 2025.

Globalismo

No ano passado, Milei foi a estrela do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, que já foi o templo do liberalismo mundial e acabou por se transformar numa trincheira do globalismo, que se sobrepõe aos interesses das nações e de suas populações, e dos porta-vozes do apocalipse climático e da agenda woke. E, nesta quarta-feira, 21, ele deverá ser novamente um dos grandes destaques da edição de 2025 do encontro, celebrando suas realizações, falando sobre seus planos para a segunda metade do mandato e reforçando suas ideias pró-capitalismo e pró-Ocidente.

Na contramão de Lula, Milei ficou do lado certo da história ao não passar pano para o ex-ditador da Venezuela Nicolás Maduro e ao apoiar sua captura pelos EUA. Também ao contrário de Lula, apoiou os protestos contra o regime tirânico do Irã, que reprimiu a bala os manifestantes que tomaram as ruas do país, deixando milhares de mortos, e criticou de forma enfática a carnificina promovida pela Hamas em Israel em 7 de outubro de 2023. Ele é um dos principais aliados de Israel no mundo. "O ataque a Israel visa destruir o capitalismo e os valores ocidentais. É por isso que você encontra a esquerda aliada à teocracia e que eles querem exterminar Israel".

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Mais uma vez em oposição a Lula, ele designou o PCC e o Comando Vermelho como grupos terroristas. Fez o mesmo com o Hamas, a Irmandade Muçulmana e a força Quds, uma divisão dos Corpos da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã. Em vez de falar sobre os destinos do mundo, a fome e a miséria em sua visita ao Papa Leão XIV, como faz Lula, Milei o presentou com exemplar do livro "O conceito fatal: os erros do socialismo", durante uma visita que fez ao Vaticano, em junho de 2025.

Enquanto a primeira-dama Janja da Silva diz "fu*k you Elon Musk" num evento internacional em que o Brasil era o anfitrião, Milei reverencia seu sucesso, seu espírito inovador e tenta atrair os investimentos bilionários de suas empresas de alta tecnologia para a Argentina.

Bloco da direita

Graças à articulação de sua equipe, que quer formar um bloco de direita e centro-direita na América Latina que se contraponha ao Foro de São Paulo, Lula não conseguiu aprovar uma declaração conjunta dos mandatários da região contra a ação dos EUA na Venezuela, no encontro da Celac (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos), realizado no início de janeiro. O presidente brasileiro só teve o apoio dos cada vez menos numerosos governantes de esquerda na América Latina, como Gustavo Petro, da Colômbia, e Claudia Sheinbaum, do México.

Por ser um crítico implacável da esquerda e o único grande líder mundial hoje do campo liberal, no sentido brasileiro do termo e não no dos Estados Unidos, onde quer dizer "progressista", Milei procura se unir com a direita nacionalista e desenvolvimentista, para não ficar isolado no mundo, criando conflito com governantes de seu próprio campo ideológico.

É por isso, talvez, que apesar de suas eventuais diferenças com líderes como o presidente dos EUA, Donald Trump, o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, o primeiro-ministro de Israel, Benjamim Netanyahu, e mesmo com ex-presidente Jair Bolsonaro e seus filhos, ele prefere se aliar a eles do que fazer o L pelo mundo afora, apoiando governantes de esquerda. "Você não pode dar um centímetro de espaço para os esquerdistas, porque eles vão matá-lo, destruí-lo" costuma dizer o presidente argentino.

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Os números não deixam margem a dúvidas nas conquistas de Milei. Ele conseguiu, por exemplo, derrubar a inflação na Argentina de 211% em 2023 para 31,5% em 2025, a taxa mais baixa desde 2017, sem congelamento de preços nem bruxarias heterodoxas. Em termos mensais, a inflação caiu de 25,5% em dezembro de 2023 para 2,8% no mesmo mês do ano passado.

Enquanto no Brasil Lula gasta como se não houvesse amanhã, tingindo as contas públicas de vermelho, Milei cortou os gastos em cinco pontos percentuais, de 19,7% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2023 para 14,6% do PIB em 2025. Foi o maior ajuste fiscal em tempos de paz da história. Em apenas dois anos, ele reduziu o gasto primário (receitas menos despesas, sem contar juros da dívida pública) de 20% para 15% do PIB. Cortou os ministérios pela metade, de 18 para 9, enquanto aqui Lula ampliou os ministérios de 23, no fim do governo Bolsonaro, para 38 hoje, mais de quatro vezes o número mantido pelo presidente argentino.

Da mesma forma, enquanto Lula aumenta a máquina administrativa com contrações de servidores e a multiplicação dos cargos de confiança, Milei cortou quase 60 mil cargos públicos entre a administração direta, as estatais e a área militar. Resultado: em 2025, a Argentina obteve pelo segundo ano consecutivo um superávit primário, que chegou a US$ 8,1 bilhões, o equivalente a 1,4% do PIB, e um superávit nominal, que inclui os juros da dívida pública, de US$ 1 bilhão (0,2% do PIB). Ao mesmo tempo, a dívida pública consolidada, incluindo os passivos do Banco Central, diminuiu de 100% do PIB em 2023 para cerca de 45% do PIB em 2025, segundo dados oficiais.

Tudo isso sem criar e turbinar impostos em série, na linha oposta do que faz Lula no Brasil. Ao contrário. Desde 2024, houve uma redução de 2% do PIB em tributos na Argentina, incluindo em taxas de importação de mercadorias de pequenos valores das chinesas Shein, Temu e Alibaba, vilanizadas no início do governo Lula pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, chamado de Taxad, por seus críticos.

"Austericídio"

Ao contrário do que diz a esquerda lulopetista, que chama a política de austeridade fiscal de "austericídio", numa fusão de austeridade com suicídio, Milei mostrou que a responsabilidade fiscal tem um efeito positivo sustentável na economia, ainda que, no curtíssimo prazo, possa produzir solavancos.

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Mesmo com todo o ajuste promovido por Milei, as estimativas apontam para um crescimento do PIB de 4,5% em 2025, ao passo que, no Brasil de Lula, com toda a gastança, o déficit bilionário nas contas públicas e nas estatais e o aumento pesado de impostos, a alta do PIB no ano passado deve ter ficado em 2,3%, conforme as projeções do Boletim Focus, do Banco Central, que compila as projeções dos economistas do mercado financeiro.

Desde a posse de Milei, a taxa de pobreza no país caiu de 42% em dezembro de 2023 para 28% em dezembro de 2025. Segundo as estimativas oficiais, cerca de oito milhões de pessoas deixaram a pobreza na Argentina nos últimos dois anos. Em Buenos Aires, a taxa de pobreza caiu de 28,1% para 17,3%, enquanto a taxa de extrema pobreza diminuiu de 11% para 5,3%.

Com o realismo cambial implementado por Milei e maior liberdade para uso de moeda estrangeira, o dólar oficial (mayorista) passou de 365 pesos no fim do governo peronista de Alberto Fernandez para 1.460 pesos hoje, quatro vezes mais, enquanto o chamado dólar blue, negociado no mercado paralelo, passou de 990 pesos para 1.505, na cotação de venda, uma alta de 52%. Mas o ágio entre o paralelo e o oficial, que era de 171% em 2023 agora é de apenas 3%, praticamente transformando a almejada unificação cambial em realidade.

Em outubro de 2025, em meio a ações especulativas contra o peso, o governo Milei realizou um acordo com os EUA, para liberar operações de swap (troca) de pesos por dólares, de até US$ 20 bilhões, para conter a queda da moeda argentina no período pré-eleitoral. A Argentina, porém, usou "apenas" US$ 2,5 bilhões deste total para pagar uma pendência com o FMI (Fundo Monetário Internacional) e estabilizar o câmbio, mas já pagou tudo o que sacou.

Fora da economia, um dado que se destaca é a queda do número de homicídios dolosos no país, de 4,4 por 100 mil habitantes em 2023, para menos de 4 por 100 mil habitantes, uma das menores taxas das últimas décadas, conforme as estimativas governamentais. Isso colocou a Argentina como um dos países mais seguros da América Latina, atestando o sucesso da política de baixa tolerância com a criminalidade praticada pelo governo Milei.

É evidente que a Argentina ainda tem muitos problemas a resolver pela frente, inclusive a consolidação da estabilidade econômica esboçada desde 2023. Mas, pelos resultados que Milei conseguiu alcançar até agora, não é de estranhar que o PT e a esquerda não falem mais ou falem muito pouco de Milei.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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