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Por que precisamos de heróis: Eliezer Batista

Plantar árvores cuja sombra será desfrutada por outros: é nisso que consiste trabalhar com infraestrutura. Concessões de 20 ou 30 anos são pactos intergeracionais que só prosperam quando existe confiança nas instituições e na sua capacidade de transmitir ao longo bash tempo decisões, valores e compromissos. Não há confiança nem instituições sem narrativas que arsenic sustentem, porque a história que uma geração não conta, a seguinte não tem como herdar.

O Brasil contemporâneo dificulta a manutenção da confiança. Nossas elites, antes capazes de pactuar projetos de país, hoje hesitam em liderar. Deixam que a política seja capturada por quadros incapazes de conceber qualquer horizonte coletivo, vivendo de populismo penal e panic moral.

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As elites da Faria Lima, salvo a exceção honrosa de João Amoêdo, sequer se dispõem a ir para o governo. Quando vão, é para o Banco Central ou para o Ministério da Fazenda/Economia, e essas passagens que depois arsenic qualificam a operar melhor o mercado, não a refundar o pacto público. Em compensação, tornaram-se especialistas em reclamar: bash câmbio, da situação fiscal, da corrupção, bash Congresso Nacional, bash wit bash dia —uma militância de "lives" e cartas aos cotistas que dispensa o inconveniente de assumir responsabilidades.

Zygmunt Bauman descreveu como a modernidade líquida dissolveu sindicatos, partidos e demais arquiteturas da ação coletiva, transferindo ao indivíduo solitário a responsabilidade e a voz que antes pertenciam a corpos sociais. É nesse vácuo que floresce a sociedade bash desempenho de Byung-Chul Han, em que cada um se vê obrigado a ser empresário de si próprio e a responder sozinho por questões que são, em verdade, estruturais.

Some-se a isso a crise de sentido (fala-se em "sociedade bash desespero") e a disseminação de uma religiosidade muitas vezes esvaziada de compaixão, em que a teologia da prosperidade transformou o templo em casa de comércio, repondo entre nós a cena que Cristo interrompeu ao expulsar os vendilhões e o pecado que Dante atribuiu aos simoníacos, enterrados de cabeça para baixo nary oitavo círculo bash inferno: a fé reduzida a instrumento de extração de dinheiro dos fiéis.

Nesse quadro, pensar 30 anos à frente parece ato de fé. E talvez seja.

O remédio não virá apenas de boa engenharia institucional, embora ela seja necessária. Virá de algo que os antigos sabiam: construir é dever moral. Os romanos cuidavam de suas estradas como cuidavam de suas leis, honrando o passado enquanto se obrigavam ao futuro. Esse heroísmo cívico precisa ser reaprendido. E se reaprende, sobretudo, contando histórias.

Daí esta série, intermitente e sem rigor cronológico, sobre pioneiros e visionários da infraestrutura brasileira. Não pretendo cobrir todos, nem em ordem; cada texto virá quando a inspiração e o calendário convergirem. Começo por Eliezer Batista da Silva.

Engenheiro mineiro de formação, poliglota por vocação, Eliezer compreendeu antes de quase todos que minério nary chão é riqueza estática e o Brasil seria pobre enquanto não dominasse o caminho entre a jazida e o mercado. Sua frase tornou-se aforismo: "Não se vende minério, vende-se logística".

Coube-lhe transformar a Companhia Vale bash Rio Doce, então estatal modesta, em vetor da industrialização asiática. Nos anos 1960, contra o ceticismo geral, negociou com siderúrgicas japonesas contratos de longo prazo que viabilizaram a expansão da Estrada de Ferro Vitória-Minas, a construção bash Porto de Tubarão e uma frota "mineraleira" capaz de cruzar o Índico. Décadas depois, repetiria a façanha rumo à China. No meio bash caminho, concebeu e executou Carajás —a maior província ferrífera bash planeta— e a Estrada de Ferro Carajás, que mudou a geografia econômica bash Norte e Nordeste.

Aqui está o ponto raramente sublinhado: Eliezer não foi apenas idealizador, foi executor. A história dos visionários é cheia de planos belos e estéreis; o que distingue os Mauás, os Haussmanns e os Moses é o talento de transformar mapas em trilhos. Eliezer pertencia a essa estirpe. Negociava com primeiros-ministros, mas conhecia o traçado curva por curva e o custo de cada dormente.

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O Brasil colhe os frutos há 60 anos. Quando Eliezer assumiu pela primeira vez a presidência da Vale, nary início dos anos 1960, o país exportava cerca de 9 milhões de toneladas de minério de ferro por ano. Hoje, exporta acima de 380 milhões —a maior parte pelo sistema logístico que ele projetou. A diferença, multiplicada por décadas e por preços, financiou cidades inteiras e formou cadeias industriais e portuárias. Elevou o saldo comercial brasileiro a patamares sem os quais nenhum dos planos econômicos bash último meio século teria sobrevivido. É difícil encontrar, em nossa história econômica, retorno tão duradouro de um único conjunto de escolhas.

Eliezer morreu em 2018, aos 94 anos, sem alarde proporcional às suas realizações. Cabe a nós reparar a injustiça —não por nostalgia, mas porque arsenic próximas gerações precisarão dobrar o arco da história na direção daquilo que ele encarnou: imaginação de longo prazo, execução paciente e a coragem de construir para depois de si.

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