
Crédito, Shannon Stapleton / Reuters
- Author, Santiago Vanegas
- Role, BBC News Mundo
Há 3 minutos
Tempo de leitura: 7 min
Nas últimas semanas, o Estado americano de Minnesota se transformou no epicentro da ofensiva de Donald Trump contra a imigração.
As batidas começaram no início de dezembro e se intensificaram a partir de 6 de janeiro, quando o governo americano destacou mais de 2 mil agentes federais para a cidade de Minneapolis, na "maior operação até hoje", segundo o Departamento de Segurança Nacional dos Estados Unidos (DHS, na sigla em inglês).
O objetivo da Operação Metro Surge, segundo o governo, é deportar criminosos que se encontram irregularmente no país, que o presidente americano, Donald Trump, chama de "os piores dos piores".
A presença na cidade do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) e da Patrulha da Fronteira gerou uma grande onda de reprovação, especialmente depois que agentes federais mataram dois cidadãos americanos: Renée Nicole Good, no dia 7, e Alex Pretti, em 24 de janeiro.
O governo Trump defende que, em ambos os casos, os agentes atuaram em legítima defesa. E a secretária de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Kristi Noem, afirmou que se tratava de "terroristas".
Minnesota tem uma população relativamente pequena de imigrantes sem documentos.
Um relatório do Instituto de Políticas de Migração (MPI, na sigla em inglês), publicado em 2025, indica que o Estado abriga cerca de 0,7% dos cerca de 13,7 milhões de imigrantes sem documentos que permanecem no país.
É um percentual desproporcionalmente pequeno em relação à sua população.
O que explica que Trump tenha escolhido Minnesota para concentrar seus esforços contra a imigração?
Fontes consultadas pela BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) indicam pelo menos dois elementos que devem ser considerados: um escândalo de fraude no sistema de assistência social e a tensão política entre o governo republicano de Donald Trump e o Estado democrata de Minnesota.
O escândalo de corrupção e a comunidade somali
Diversos altos funcionários do governo vincularam diretamente a atual ofensiva contra a imigração em Minnesota a um grande escândalo de fraude envolvendo a comunidade somali que vive no Estado, que é a maior do país.
O escândalo remonta há mais de cinco anos e dezenas de pessoas já foram condenadas.
Mas o tema ressurgiu no final do ano passado, quando Trump atacou a comunidade somali de Minnesota. O presidente a qualificou de "lixo" e atribuiu a ela a culpa da perda de bilhões de dólares em dinheiro público.
Posteriormente, a indignação pelo escândalo se intensificou, devido a um vídeo viral publicado no final de dezembro. Nele, um youtuber mostrou que creches administradas por somalis no Estado, na verdade, não estavam em atividade, mesmo recebendo financiamento estatal.
No vídeo, o youtuber Nick Shirley, de 23 anos e simpatizante de Donald Trump, visita creches administradas por pessoas de origem somali. Em algumas, ninguém abre a porta para ele e, em outras, não há nenhuma criança, segundo seu relato.
Apenas três dias depois da publicação do vídeo, Noem afirmou que o ICE havia saído a campo, preparando uma grande investigação "porta a porta" sobre a "fraude galopante" nas creches.
Dias depois, em 6 de janeiro, foi anunciada "a maior operação do DHS até hoje", com o objetivo de "ERRADICAR a fraude" em Minnesota.
A função dos agentes do ICE e da Patrulha da Fronteira não é deter pessoas que tenham cometido delitos como fraude. Sua ação se restringe a fazer cumprir as leis de imigração — ou seja, deter imigrantes sem documentos.

Crédito, Nathan Howard / Reuters
Em meio à sua ofensiva contra a imigração, Donald Trump manteve seu tom de confronto em relação aos somalis de Minnesota.
"Eles roubaram mais de US$ 19 bilhões [cerca de R$ 99 bilhões]. Vocês acreditam nisso? No fim, eles são mais inteligentes do que pensávamos", declarou o presidente na reunião do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça.
Trump destacou que os países ocidentais não deveriam receber "culturas estrangeiras" que, segundo ele, teriam fracassado na construção da sua própria sociedade.
O professor de ciências políticas Michael Minta, da Universidade de Minnesota, destaca que o governo Joe Biden (2021-2025) processou na Justiça diversos dos responsáveis pela fraude. E que eles não eram apenas somalis, mas também americanos brancos.
"E o Estado de Minnesota também tomou suas próprias medidas para combater a fraude", segundo Minta. "Por isso, não está muito claro por que o governo Trump fala de fraude agora."
Existem cerca de 80 mil pessoas de ascendência somali em Minnesota. E cerca de 60 delas foram condenadas pelo escândalo de fraude no sistema de assistência social.
Ante a retórica de Trump sobre a comunidade somali, o governador de Minnesota, o democrata Tim Walz, afirmou que "o único que está causando danos a este Estado é o próprio Donald Trump".
"Para nossa comunidade somali: nós os amamos e estamos com vocês", declarou o prefeito de Minneapolis, o democrata Jacob Frey.
A advogada de imigração Ana Pottratz, também professora da Universidade de Minnesota, explica que a maioria dos somalis do Estado são cidadãos americanos, por terem nascido nos Estados Unidos ou se naturalizado, após sua chegada ao país como refugiados, nos anos 1990.
Por isso, Pottratz afirma que as recentes ações do ICE, concentradas na comunidade somali devido ao escândalo de fraude, "não produziram muitos resultados". E, agora, "eles estão mais concentrados na comunidade latina".
Segundo o MPI, apenas 16% dos imigrantes sem documentos em Minnesota são de origem africana, enquanto 67% têm origem latino-americana.
Questão política
As medidas do governo Trump em Minnesota e a reação do governador Walz são um claro reflexo da sua rivalidade política.
Para Pottratz, isso pode explicar, ao menos em parte, por que Trump escolheu Minnesota para realizar este destacamento sem precedentes.
"Parece que parte dos motivos que levaram Trump a escolher o Estado de Minnesota para realizar estas ações da imigração [ICE] é porque ele tem um problema com o nosso governador", segundo a professora.
Waltz é um proeminente adversário de Donald Trump, desde que foi seu oponente na campanha presidencial de 2024, como candidato à vice-presidência na chapa de Kamala Harris. Ele se referiu à situação como um "teatro político".
A Operação Metro Surge ocorre também em um ano de eleições de meio de mandato e para o governo do Estado em Minnesota.
A expectativa era que Walz postulasse um novo mandato, mas o escândalo de fraude no sistema de assistência social fez com que ele renunciasse à sua candidatura.

Crédito, Leah Millis / Reuters
Em uma amostra do viés político das circunstâncias, políticos federais e estaduais se acusaram mutuamente de criarem obstáculos ao trabalho e de serem responsáveis pela violência dos protestos.
À luz dos últimos acontecimentos, congressistas democratas ameaçaram provocar um novo fechamento do governo, defendendo que não estão dispostos a votar uma lei para financiar o ICE.
Minnesota costuma ser considerado um Estado-santuário, ou seja, que tradicionalmente acolhe os imigrantes sem documentos e coopera apenas de forma limitada com as autoridades federais para sua detenção e deportação.
O vice-presidente americano, J.D. Vance, destacou que esta falta de cooperação é o motivo por que "tudo saiu tanto de controle". E o confronto do governo federal não se deu apenas com as autoridades estaduais, mas também com a própria comunidade.
"Minnesota tem um histórico de ativismo e progressismo", destaca Minta. "É um lugar onde existe forte resistência às políticas de Trump."
De fato, as pessoas se organizaram no Estado para proteger os imigrantes contra deportações e possíveis abusos das autoridades migratórias.

Crédito, Seth Herald / Reuters
Ana Pottratz destaca que algumas pessoas foram treinadas voluntariamente para serem "observadores" das ações do ICE.
"Isso significa que, quando surge um agente do ICE no seu bairro, eles avisam os imigrantes com apitos para que fiquem em casa e começam a gravar", ela conta.
Os recentes incidentes ocorridos em Minneapolis recordaram os protestos gerados pela morte do cidadão afro-americano George Floyd (1973-2020), asfixiado por um policial.
O tema provocou fortes confrontos entre Trump e Walz e, segundo Michael Minta, também pode explicar por que Minnesota passou a ser o epicentro da recente ofensiva contra os imigrantes.
Durante a campanha presidencial de 2024, Trump recordou a uma multidão em Minnesota que, "quando as turbas violentas de anarquistas, saqueadores e marxistas vieram incendiar Minneapolis, não consegui fazer com que seu governador saísse à ação".
"De alguma forma, eles quiseram vir e mostrar ao mundo que iriam estabelecer a lei e a ordem por aqui, onde começaram os protestos relativos a George Floyd", conclui o professor.

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