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Qual o papel da psicoterapia em tempos de guerras

Kennedy Jr., conhecido por sua reticência em relação a vacinas e por sua obsessão com alimentos ultraprocessados, cortou 10 mil funcionários de sua pasta e participava de uma sessão pública era para justificar a redução de investimentos em saúde.

Cohen saiu dali para a prisão. Tem sido assim no governo Trump.

Tem sido cada vez pior com as ações do ICE (Serviço de Imigração e Controle de Aduanas). Tem sido assim nas universidades. Tem sido assim na imprensa.

Será que tem sido assim também na psicoterapia e na clínica do trauma que se mobiliza nesta matéria?

Recebi de uma amiga jornalista, que dá aula em Yale, uma lista de palavras proibidas por quem escreve para jornais. Entre elas estão "sexualidade", "gênero" e "política".

O controle americano sobre a imprensa mostrou-se impressionante desde a Guerra do Golfo e a invasão do Iraque, justificada por armas químicas que jamais existiram. Não se sabe se se repetirá no bombardeio das instalações nucleares do Irã.

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O ponto aqui é a rarefação de fontes confiáveis para o público médio.

Antigamente se usava a expressão "grande imprensa" para se referir aos grandes grupos que controlavam a circulação da informação, especialmente quando se tratava de interesses comuns entre estado, mercado e a própria imprensa.

Mas a grande imprensa perdeu muito poder e até hoje busca reencontrar seu modelo de negócios com a chegada da internet e a capilarização da imprensa alternativa e do noticiário em tempo real comentado pelas mais obtusas e opacas forças da internet rasa e profunda.

As notícias falsas são apenas o caso mais extremo e óbvio do problema, mas o que dizer das notícias semiespeculativas, incompletas, sem fontes redobradas, nem verificação no local?

Como lidar com um ambiente informacional onde relatos e testemunhos diametralmente opostos são, sim, verdadeiros, mas de perspectivas distintas?

Há uma vaga esperança de que vamos assistir a um confronto entre redes sociais e inteligência artificial, como instrumento de mediação, qualificação e organização das diferentes formas-saber (em analogia aqui ao antigo conceito de forma-mercadoria).

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Lendo Fanon, parece que as lutas por libertação dependem sistematicamente da conexão entre um núcleo interno de resistência, apoiado por forças internacionais.

Quando não temos esta ligação local-internacional, a luta anticolonização se torna frequentemente empuxo ao nativismo antidemocrático ou expressão da "democracia imposta por meios não democráticos", com a guerra ou a invasão.

Quando tentamos ocupar um país, desalojar seu povo, destruir seu estado ou ruir seu governo, como temos assistido no Iraque, Ucrânia, Venezuela, Irã e Cuba, os resultados nos levam de volta ao pior.

Mas também quando as potências externas não tentam ocupar um país, destruir seu estado totalitário, libertar um povo ou derrubar seu governo tirânico, assistimos ao retorno ao pior, cujo exemplo maior é Gaza.

Quando assisti ao jogo do Chelsea contra o Espérance, da Tunísia, pela Copa do Mundo de Clubes, na Filadélfia, torcendo para os tunisianos, em derrota fragorosa, vi se abrir uma imensa faixa de apoio aos palestinos. Em cinco minutos, a faixa foi recolhida pela polícia.

Para manifestarem-se com "segurança", eles formavam cordões de isolamento no meio dos quais se podia ver alguém acenando a bandeira da Palestina livre.

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Conversando com gente da torcida tunisiana, confirmou-se minha observação já adiantada nesta coluna. É a repressão externa ou interna que está bloqueando a causa da libertação mútua, da Palestina e de Israel?

Uma vez estive na pequena cidade de Sidi Bouzid, no interior da Tunísia, mais especificamente em frente ao prédio do governo local. Diante dele, há uma estátua, em forma de carrinho de verduras, onde o vendedor ambulante Mohamed Bouazizi ateou fogo a si mesmo em 17 de dezembro de 2010, dando início ao que ficou conhecido como Primavera Árabe.

Ou seja, a morte de uma pessoa catalisou um movimento geral de transformação de povos, nações e governos. Mas a prisão de Cohen não despertou os americanos do pesadelo.

A pergunta que fiz aos torcedores tunisianos repetia a questão que fiz aos movimentos de resistência israelense contra Netanyahu, quando estive em Israel, mas que fiz também, pessoalmente, ao ministro palestino das Águas (no escritório do Fatah em Ramallah).

Por que, diante de tantas imagens, tantos fatos, tantas evidências históricas, não temos um movimento organizado para transformar este estado de coisas?

A resposta oficial é: porque o outro lado não quer.

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A resposta silenciosa era: porque os dois lados não querem.

Minha leitura: porque as "resistências" internas não se articulam com as "resistências" externas.

Destaco a palavra resistência aqui porque ela é um conceito simultaneamente psicanalítico e político, mas também porque ela tem sentidos contrários em cada contexto.

Na clínica, ela aponta para resistência contra a mudança; na política, ela indica desejo de mudança.

Para eles, Netanyahu e Trump precisam da guerra para se manterem no poder.

O premiê israelense leva seu exército ao massacre de inocentes, dentro e fora de Israel, para aproveitar-se deste efeito de unificação interna contra o inimigo estrangeiro e manter a lógica discursiva do perigo iminente.

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Ocorre que esta estratégia exige pedalar indefinidamente a bicicleta da morte, porque o menor sinal de derrota, cansaço ou vitória levanta imediatamente as vozes "internas" descontentes que estão prestes a tirá-lo do poder, de lá para a prisão, para a deportação, senão para a cadeira elétrica, segundo a lei e o pacto de guerra que é o que se precisa crucialmente superar.

O silenciamento da imprensa não é feito por meio de agentes do ICE nas redações e pelo aprisionamento ativo dos inimigos do estado, mas pela censura branca, que impede a conexão entre resistência interna (por exemplo, os inúmeros grupos de resistência interna em Israel, judeus que lutam pela emancipação e reconhecimento de plena soberania e cidadania para a Palestina) e a resistência externa (por exemplo, os inúmeros grupos de pressão internacionais, boicotes, incluindo a relativamente inócua ONU).

O silenciamento é imposto estruturalmente pela impossibilidade de não ser escutado apenas como força e apoio a um dos lados.

O tratamento da questão suga para dentro de si primeiro seu ponto de vista (ciente ou inconsciente, voluntário ou involuntário), depois o que vai ser dito ou argumentado.

Não há posição neutra, nem simetria de lugares, ótimo. Mas isso pode significar tão somente silenciamento e suspensão de todo tratamento possível senão a guerra.

E a quem interessa a guerra? Aos verdureiros ou aos vendedores de armas?

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Quando conversei com refugiados palestinos na Universidade de Manchester, saí com a mesma sensação de que a circulação da palavra e a guerra por sua libertação estavam no centro deste conflito.

A conversa era sobre o uso da psicoterapia como tecnologia de guerra.

Vários deles temiam qualquer coisa que se parecesse com relatar traumas pelos quais passaram porque relatavam experiências anteriores de negação e psicologização de seu sofrimento em favor de narrativas preestabelecidas.

Como se fazer psicoterapia e enfrentar seus estados agudos de sofrimento fosse despolitizar a questão.

Como se a conexão entre conflitos "internos" e guerra "externa" estivesse rompida.

Como se a luta "interna" pela libertação nenhuma relação tivesse com a luta "externa" pela emancipação.

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Com boas razões e experiência sólida na carne, eles simplesmente não acreditavam que poderia haver um espaço seguro onde se poderia falar livremente, principalmente se nesse espaço eles estivessem sozinhos. Por isso, toparam conversar comigo, mas apenas e tão somente em grupo.

Se pensamos que Israel precisa se libertar de sua própria auto-ocupação, que já leva pelo menos 20 anos, pela política de Benjamin Netanyahu, e se o objetivo é a libertação da Palestina, como estado independente e população com amplo acesso à cidadania, seria preciso apoiar a resistência israelense, assim como a palestina, onde quer que ela esteja.

Diante da vida inútil e fortuitamente destruída, o mundo se apieda e se indigna. Mas até que ponto esta indignação se transforma na direção política que queremos? Até quando transformaremos tragédias reais em dramas televisivos para consumo local?

Assim é na vida, assim é o que tentamos desfazer na psicoterapia: indignar, culpar, desimplicar-se e passar para o próximo capítulo da minissérie... sem se transformar ou agir, interna ou externamente. Refletindo um pouco da opinião pública mundial que oscila entre a indignação inerte e a indiferença insensível.

Esse é o tipo de aliado externo que desertifica a resistência interna, homogeneíza e unifica país, estado, governo e povo.

Mas não percebe que, ao dar consistência para um inimigo comum, ele unifica a identidade interna e aumenta a força contrária à mudança.

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É como o psicoterapeuta incauto que, em nome do bem para seu paciente, intervém como uma potência externa salvadora, ignorando o tempo e o processo da própria pessoa.

Freud chamava isso de psicanálise selvagem. Meter-se na vida do paciente, dirigindo-o em vez de dirigir clinicamente o tratamento. Educando-o para o bem, desprezando o conflito interno e a geografia da transferência. Ajustando e conformando-o às regras universais do bom funcionamento psíquico ou democrático.

Exemplos de como um processo ético ao mobilizar meios não éticos corrompe seus fins.

Muitos se perguntam: onde estão estas vozes hoje?

Quero crer que a resposta se encontra na imprensa silenciada, no empreitamento da guerra alheia para fins "internos", na impossibilidade da associação livre e da escuta flutuante.

Segundo o pacto de terror que censura críticos dissidentes internos e apaga dissidentes externos indesejáveis, todos eles são igualmente ou potencialmente inimigos do Bem, do Estado e da Liberdade.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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