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Quanto vale o culto Bolsonaro?

Foi em janeiro de 2016 que a frase de Trump ecoou pelo mundo: "Podia chegar à Quinta Avenida, dar um tiro em alguém e não perdia votos". Entrava para a história a mais brutal declaração de culto de personalidade alguma vez vista em democracia, ao misturar culto de personalidade, teste de lealdade dos eleitores e desprezo absoluto pela responsabilização política.

Poucos meses depois, um longo texto no "Politico", assinado por Zachary Karabell, titulava: "Não tem nenhum senso de decência, senhor Trump?". Alegava-se que ele tinha ultrapassado a linha invisível da decência, aquela que traçava a fronteira a partir da qual os muitos eleitores que o apoiavam deixariam de ter estômago para suportar as suas leviandades. Estava, como é sabido, redondamente enganado acerca da tolerância na nação para com a figura laranja.

Na década, Trump tem conseguido sempre descer um nível ainda mais baixo do que a última bestialidade dita ou feita. Com ele, o poço da indecência parece não ter fundo. No sábado, por exemplo, a conta oficial da Casa Branca divulgou um vídeo de IA em que Trump agride e joga no lixo o humorista Stephen Colbert. E muitos dos seus adoradores continuam a admitir-lhe tudo e mais alguma coisa, mesmo as declarações mais polêmicas ou as falhas mais graves –que muitas vezes parecem suscitar o efeito contrário e gerar ainda mais entusiasmo–, enquanto exigem pureza absoluta de seus oponentes.

Onde Karabell e tantos outros analistas falharam foi em alcançar a real dimensão da adesão emocional a alguns líderes políticos. Quando um movimento político se transforma numa seita, os eleitores deixam de avaliar com o cérebro e passam a pensar com as vísceras. Deixam de ser votantes e viram devotos.

Os cientistas políticos explicam que o fenômeno tem vários componentes: a imagem heroica do líder, a pertença tribal e identitária, a carga emotiva, a dupla moral e a diabolização do adversário. Isso me faz lembrar o meu filho e a adoração louca ao seu time de futebol, quando em pequeno declarava: "eu não sou do Benfica, eu nasci do Benfica e isso nunca vai mudar!". Benfica é o Corinthians de Portugal.

Muitos outros líderes políticos ao longo dos tempos conseguiram alcançar o estatuto de líderes de seita: os mais tenebrosos, claro, Mao, Stálin e Hitler.

Entre os fenômenos contemporâneos, Jair Bolsonaro é apontado como um dos exemplos mais notórios do mundo. A lógica personalista do bolsonarismo é tão forte que parece estar transformado num movimento quase monárquico, em que a liderança é hereditária e se concretiza por linhagem dinástica.

Só assim se explica a nomeação do nepobaby Flávio Bolsonaro como pré-candidato às eleições presidenciais. E só os contornos de culto é que justificam que esta pré-candidatura ainda não tenha desmoronado depois de tudo o que veio a público nos últimos dias acerca da sua relação próxima e interesseira com Vorcaro. Joga-se no vale-tudo porque é Bolsonaro, contando com a adesão irracional dos eleitores. Se a situação se tornar de tal forma insustentável para Flávio, só falta saber se, nesta corte, também vale a lei sálica que estipula que apenas os homens podem herdar o trono, ou se a próxima na linha de sucessão será Michelle…

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