Me lembro como se fosse hoje da minha mãe me levando e trazendo do parque, da escola, de médicos, da fonoaudiologia, entre as diferentes atividades que eu fazia. Sua dedicação era tamanha que a impossibilitava de trabalhar fora. O trabalho comigo e, mais tarde, com o meu irmão era o que chamamos de trabalho invisível e não remunerado. Ou melhor, invisível para os outros, porque para ela era bem visível —e cansativo. Lembro com carinho que muitas vezes fazíamos um lanche entre uma atividade e outra.
A minha história não é diferente da história de milhares de famílias no Brasil e no resto do mundo. A mulher ainda é vista como a principal cuidadora. Antigamente, era comum encontrar casais com três ou quatro filhos. Hoje em dia, isso se tornou bem mais raro e o que mais vemos são casais com apenas um filho ou sem nenhum. As famílias brasileiras estão encolhendo, os casais estão tendo filhos mais tarde e a população, como um todo, está envelhecendo. Muitas mulheres acumulam responsabilidades, cuidando não apenas de seus filhos, mas também de seus pais. Elas compõem a chamada "geração sanduíche", o que sobrecarrega ainda mais as cuidadoras.
Conforme os dados da PNS (Pesquisa Nacional de Saúde) de 2019, mulheres que dedicam tempo acima da mediana a atividades de cuidado têm 2,5 pontos percentuais a mais de probabilidade de desenvolver depressão em comparação com outras mulheres. Além disso, como as mulheres alocam mais tempo para esse trabalho invisível e não remunerado, em média, acabam ganhando menos que os homens. Isso pode levar a um menor poder de barganha dentro da família, o que significa menos controle sobre decisões de consumo e menos tempo de lazer. Os custos emocionais e financeiros dessa desigualdade são importantes.
Esse trabalho invisível ganhou espaço na mídia e na academia durante a pandemia da Covid. Antes, o debate ficava muito restrito a pesquisadoras em economia, sociologia e demografia. Desde então, muitos países estão criando normas e políticas para valorizar e garantir o direito ao cuidado e a ser cuidado. Em 2023, tema passou a ser debatido por um grupo de trabalho interministerial e que culminou com a formulação da política nacional de cuidados no Brasil (projeto de lei 5.791).
Essa política inclui a promoção de políticas públicas que visam valorizar a atividade de cuidados e de quem cuida, além de garantir o acesso ao cuidado de qualidade tanto para quem cuida quanto para quem é cuidado. Uma outra meta é implementar ações que compatibilizem a atividade de cuidado não remunerado, o trabalho pago e as necessidades familiares. Trata-se de uma política positivamente ambiciosa, pois propõe envolver toda a sociedade, incluindo o setor privado, para que haja uma compatibilização dos trabalhos de cuidados e do trabalho remunerado.
Os cuidadores, por exemplo, podem se beneficiar quando as empresas permitem o trabalho híbrido. Esse projeto foi aprovado por unanimidade pelo Senado brasileiro no último dia 5 de dezembro e aguarda sanção presidencial.
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É um passo importante para valorizar uma atividade essencial para a sociedade, historicamente desvalorizada, inclusive no que se refere à promoção do trabalho decente para as milhares de pessoas que exercem essa função de forma remunerada. Novas políticas como essa podem ir além das ações diretas, funcionando como catalisadoras de mudanças nas normas sociais e culturais. Quando o Estado, como um dos entes da sociedade, sinaliza a sua visão, pode acelerar a transformação. Afinal, o cuidado é de todos.
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