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Quem quer ser um conservador constitucional?

Mais uma janela de aquecimento democrático está se abrindo no país. O momento eleitoral atiça os afetos políticos. Consome energia emocional e mental daqueles que escolhem participar do debate e lidar com o desconforto do conflito. Pede conversas não arrogantes, o exercício de expor as razões de seu voto, de escutar as razões do voto diverso, de estar aberto a convencer e ser convencido.

É também um momento de tratar a linguagem com cuidado. De entender o que se fala e que palavra se usa. O historiador Timothy Snyder, estudioso de tiranias e seus truques de dominação, alerta para os usos preguiçosos, irrefletidos e enganosos da linguagem. Defende a urgência de preservar certas distinções. E lembra da eficaz tecnologia linguística de manifestações contemporâneas do fascismo: "Um fascista não se preocupa com a conexão entre palavras e significados. Ele não serve à linguagem; a linguagem serve a ele. Quando um fascista chama um liberal de ‘fascista’, o termo passa a funcionar de uma maneira diferente, como servo de uma pessoa específica, em vez de portador de significado".

O objetivo não é comunicar ideias ou fatos, apenas instigar a emoção tribal, a pulsão de pertencer a um grupo. Não está preocupado com pensar e argumentar, apenas a sentir e agredir.

Vale tentar um protocolo sobre vocabulário, reativar alertas contra slogans retóricos que ganham vida própria, inundam o debate público e esvaziam palavras de significado.

O filósofo Jason Stanley insiste no mote "Pare de chamar fascistas de populistas". O jurista Charles Fried já dizia "Pare de chamar reacionários de conservadores". Por aqui deveríamos demarcar um terceiro: "Pare de chamar autoritários de conservadores".

Há diferentes linhagens de conservadores. Nenhuma dessas linhagens apoia a desobediência à lei, instiga a invasão de terra indígena, propõe política de segurança por meio da liberação do armamento individual e letalidade policial. Nenhuma delas apela a um passado de liberdade com escravidão, igualdade com latifúndio, fraternidade com coronelismo e capitão do mato. Nenhuma delas confunde virtude, inteligência e educação com a instituição militar. Nenhuma delas apela a Cristo para isentar sua igreja de impostos por helicópteros. Nenhuma delas confunde religião com política.

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Se você se diz conservador, pergunte antes que valores quer conservar.

Há o conservador de hierarquias sociais que nosso passado colonial nos entregou e gerações sucessivas se esforçaram por manter. Homens brancos, grandes proprietários, acompanhadas de mulheres servis, guardiães da família patriarcal. Magistocratas, guardiães do estamento da Justiça. Caciques partidários, guardiães do clientelismo político, hidratado por emendas parlamentares. Conservam a pobreza, a ordem oligárquica, a dominação pela força.

De outro lado há o conservador constitucional. Tenta conservar valores de progresso e a promessa de emancipação. Família, tradição e propriedade com liberdade, igualdade e função social. A família constitucional é diversa e igualitária, dá prioridade à criança e ao cuidado com idosos. A propriedade constitucional encontra limites no bem comum.

Aquele conservador busca a ruptura. O conservador constitucional tenta contribuir para uma promessa de Brasil do futuro.

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