Esta imagem foi tirada em Hamadan, no oeste do Irã, em abril de 2013. O mural representa o primeiro e o segundo líderes supremos do Irã. O aiatolá Khomeini (à direita) foi o primeiro líder supremo após a Revolução Islâmica. O aiatolá Ali Khamenei (à esquerda) foi seu sucessor desde 1989.

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Legenda da foto, Mural em Hamadan, no oeste do Irã, com retratos do aiatolá Ruhollah Khomeini (à direita), o primeiro líder supremo após a Revolução Islâmica, e do aiatolá Ali Khamenei (à esquerda), que foi seu sucessor e morreu no último sábado (28/2)
    • Author, Edison Veiga
    • Role, De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
  • Há 25 minutos

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Antes de mais nada, um esclarecimento necessário: aiatolá, por si só, não implica em cargo político. Dentro da vertente xiita do islã — ramo da religião seguido por cerca de 16% dos muçulmanos —, a denominação é um título honorífico reservado aos religiosos vistos como os mais sábios, os mais qualificados.

"É atribuído aos estudiosos que alcançam um dos mais altos níveis de autoridade em conhecimento islâmico", explica a antropóloga Francirosy Campos Barbosa, professora na Universidade de São Paulo e autora de, entre outros livros, Islã: Entre Arabescos, Luas e Tâmaras.

"São os estudiosos que alcançam o nível máximo de estudo", define o orientador religioso e tradutor Nasser Khazraji, diretor do Centro Islâmico no Brasil - Arresala.

"Para os xiitas, eles são o extrato mais sábio, nutrem de uma sabedoria em torno do Alcorão, das leis de Deus a partir do ponto de vista islâmico", pontua o cientista político Paulo Nicolli Ramirez, professor na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. "Na concepção xiita, são eles quem detêm as diretrizes do governo e como deve ser elaborada a Constituição."

A palavra vem da expressão árabe āyat Allāh, que significa "sinal de Deus". Segundo Barbosa, recebem essa designação os "especialistas altamente qualificados na sharia".

Sharia é o sistema de lei islâmica, que se baseia tanto no Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos, como nos hádices, que são os relatos de vida do profeta fundador da religião, Maomé (c, 570-632), e na suna, o conjunto de ensinamentos e práticas deixados por ele.

Os aiatolás são, portanto, reconhecidos pelo "domínio profundo do Alcorão, dos ditos e ensinamentos do profeta e da jurisprudência ja'farita, a escola jurídica predominante no xiismo", pontua a professora.

Centenas de aiatolás

Barbosa contextualiza que, embora o prestígio, a relevância e a atuação desses grandes estudiosos remonte aos primeiros tempos do islã, o uso do título aiatolá se consolidou a partir do século 19. "A denominação se firmou especialmente no Irã e no Iraque, regiões que se tornaram importantes centros históricos, religiosos e acadêmicos do xiismo", diz.

Segundo Khazraji, os aiatolás começaram a "liderar a nação islâmica" a partir do século 8º, depois da morte do décimo-segundo sucessor do profeta Maomé. "Foi quando surgiram esses grandes estudiosos dentro do islã xiita", esclarece ele. "De lá para cá, a nação foi sendo agraciada com milhares de estudiosos."

O especialista calcula que hoje existam centenas de aiatolás. A maior parte deles está concentrada no Iraque e no Irã, mas também há em outros países do Oriente Médio, como o Líbano. Contudo, o aiatolá é o chefe de Estado apenas no Irã — em outros países com populações xiitas significativas, eles exercem forte influência religiosa e sociais mas não detêm o comando do poder político.

"São líderes religiosos dos muçulmanos. Lideram a nação em várias questões: religiosas, sociais, políticas", explica Khazraji. Ele conta que o aiatolá é o responsável pelo fiel, orientando-o no que precisar.

O papa Francisco se encontrou com o aiatolá Ali al-Sistani, do Iraque, em 2021

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Legenda da foto, O papa Francisco se encontrou com o aiatolá Ali al-Sistani, do Iraque, em 2021

E há pequenas diferenças entre eles. Cada muçulmano escolhe um para seguir. Alguns se dedicam mais a aspectos sociais, outros mais a temas religiosos. "Em um contexto geral, todos são muito bem informados sobre o que um muçulmano necessita para a sua vida", diz.

"Eles são a fonte do saber e do manual do muçulmano. Assim, cada muçulmano escolhe quem ele segue, para obedecer aos pareceres religiosos do seu dia a dia com base nas opiniões dele", conta Khazraji. Para alguns, por exemplo, há impedimento em ingerir frutos do mar. Outros não veem problema nisso.

"Existem diferentes opiniões, pequenas diferenças entre seus pareceres a partir do que interpretam [dos textos sagrados], mas de maneira geral todos têm a mesma base, a mesma estrutura, concordam na grande maioria das coisas", comenta Khazraji.

Rotina de muitos estudos

Não há uma nomeação formal ou uma cerimônia própria em que alguém recebe o título de aiatolá. A designação, conta Francirosy Campos Barbosa, "resulta de um longo processo de formação intelectual e reconhecimento religioso".

Segundo ela, para alguém se tornar um aiatolá são necessários "muitos anos, décadas de estudos em seminários islâmicos, chamados de hawza, como os de Qom, no Irã, e Najaf, no Iraque".

"Qualquer pessoa pode seguir a jornada dos estudos religiosos", afirma Khazraji. "São várias disciplinas que devem ser adquiridas."

"Quando ele chega a um nível muito alto de conhecimento, ele pode extrair as regras religiosas por si só", explica Khazraji.

São estudos dos textos sagrados do Alcorão, da jurisprudência islâmica e de teologia. E também de ética e filosofia, a partir do ponto de vista islâmico. Khazraji acrescenta que o postulante a aiatolá precisa também estudar história, língua árabe, "dezenas de ciências, das sociais às espirituais".

"Consequentemente, se tornam amplos conhecedores da jurisprudência teocrática religiosa do islã", completa Ramirez.

O cientista político explica que, como eles são "os grandes estudiosos" dos textos sagrados, a sociedade xiita automaticamente lhes confere "uma posição de destaque".

"Além disso, o candidato precisa demonstrar capacidade de interpretação independente, produzindo textos e análises próprias sobre a lei e a doutrina islâmica", acrescenta a professora Barbosa. "O reconhecimento como aiatolá ocorre quando outros estudiosos e a própria comunidade religiosa passam a aceitar sua autoridade intelectual."

Por conta disso, no meio islâmico, é comum a publicação de livros e obras de referência escritas por aiatolás, materiais estes que englobam os mais diversos temas sob a ótica da religião.

Khazraji explica que, como a jornada de estudos para se tornar um aiatolá é muito longa, o ambiente familiar é importante. Em geral, são pessoas que já começaram a se dedicar a essa formação desde os 7 ou 8 anos de idade.

"Não é uma formação acadêmica em que a pessoa vai lá, faz as matérias, tira a nota e recebe o diploma. É um estudo diferenciado. São de 10 a 15 horas de estudos por dia, entre ciências dos homens e ciências daqueles que transmitiram a mensagem do profeta, e uma grande quantidade de disciplinas que os estudiosos precisam dominar", contextualiza.

Por fim, é necessária a aprovação de um superior. "Quando ele alcança um nível em que as pessoas passam a vê-lo como sábio em suas decisões, em suas palavras, ele começa a procurar seus mestres e perguntar qual o nível se encontra. A aprovação de um mestre é importante para que ele possa se formar aiatolá", pontua Khazraji.

Manifestante segura uma imagem do falecido líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, durante um protesto em Los Angeles, nos EUA

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Legenda da foto, Manifestante segura uma imagem do falecido líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, durante um protesto em Los Angeles, nos EUA

Barbosa destaca que há subdivisões internas que destacam a proeminência de alguns aiatolás. "Alguns alcançam ainda maior prestígio e recebem o título de grande aiatolá", conta. "Dentro desse grupo, certos estudiosos se tornam marja' al-taqlid, ou seja, referências religiosas seguidas pelos fiéis em questões de fé, prática religiosa e vida cotidiana."

Há ainda uma especificidade das vestes. "Aiatolá que usa turbante preto é sinal de descendência do profeta Muhammad", pontua ela. A grafia Muhammad é a preferida pelos seguidores para se referir a Maomé, termo mais amplamente utilizado no Brasil após aportuguesamento.

Segundo a professora Barbosa, isso não significa necessariamente autoridade. É um sinal de conhecimento. "Só chega a aiatolá quem estudou muito a religião islâmica na vertente xiita", diz.

Legado da Revolução Iraniana

Não necessariamente, portanto, eles detêm o poder. "A Revolução Iraniana fez esta junção entre religião e política mais claramente", contextualiza Barbosa.

Ocorrido em 1979, esse movimento político transformou o Irã de monarquia autocrática — alinhada ao Ocidente — em uma república islâmica teocrática. Foi a gênese do formato em que o poder passou a ser ocupado por um aiatolá. O primeiro foi Ruholah Musavi Khomeini (1902-1989), sucedido por Ali Hosseini Khamenei (1939-2026) — executado no último sábado.

Khamenei nasceu em uma família de clérigos xiitas e começou seus estudos religiosos ainda na infância. Ele estudou no famoso Seminário de Qom. Era reconhecido como marja'.

No Irã pós-1979, além do chefe de Estado ser um aiatolá, há um grupo de seus pares no entorno, atuando como conselheiros, como explica o cientista político Ramirez.

"São líderes políticos e religiosos, porque nessa concepção de mundo a teologia islâmica se confunde com a organização política", explica ele.