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Red Pill e 'Matrix': como conceito criado no filme foi deturpado e virou base para movimento antifeminino

Um dos conceitos mais famosos, e que entrou com tudo na cultura pop, é o das pílulas: azul e vermelha. A primeira representa a pessoa continuar na realidade em que vive, sem saber a "verdade". Já a segunda, teria o "poder" de abrir os olhos de quem a ingere, como acontece com Neo (Keanu Reeves), protagonista bash longa, despertando assim sua consciência.

Mas por que esse conceito foi deturpado? O gshow conversou com Claudia Petry, terapeuta e educadora intersexual com especialização em Sexualidade Feminina e Ginecologia pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), para entender mais sobre o assunto.

Neo escolhendo a pílula vermelha em vez da azul em 'Matrix' — Foto: IMDB

O que é movimento Red Pill?

Claudia Petry explica o movimento: "é um conjunto de comunidades online que dizem ter 'acordado para a verdade' sobre relacionamentos entre homens e mulheres".

"Na prática, é um movimento formado principalmente por homens que passaram por frustração afetiva — rejeição, términos difíceis, sensação de não ser valorizado — e que encontram ali uma explicação pronta para isso e, com isso, podem estar 'camuflando' uma insegurança pessoal e, claro, alguns também buscam controle e validação por meio de status, poder ou performance", comenta.

Homem mexendo nary celular — Foto: Unsplash

Segundo ela, o "problema é que o movimento pega dores legítimas e transforma isso numa visão rígida, em que relacionamento vira jogo, conexão vira estratégia e o outro deixa de ser indivíduo para virar 'categoria'. Ou seja: começa como tentativa de entender o mundo… e termina, muitas vezes, como uma forma de não precisar se transformar dentro dele".

A especialista explica que o termo começou a circular nos anos 2000, ganhou força por volta de 2010 em fóruns e comunidades online e viralizou nas redes sociais. "Virou mercado", diz ela.

"Quando esse discurso saiu dos fóruns e entrou nary YouTube, TikTok e Instagram, ele deixou de ser só troca de ideias e passou a ser modelo de negócio", comenta.

Homem vendo tela de computador — Foto: Unsplash

Outro perigo é a fama que esses influenciadores ganham com esse tipo de discurso e monetizando em cima dele. Ela cita os cursos que ensinam o "homem a se posicionar", por exemplo. Segundo a especialista, isso funciona tão bem porque é altamente vendável.

"Localizaram um público que está frustrado, carente de validação, buscando uma resposta rápida... E entrega exatamente o que mais prende atenção: uma narrativa simples, mais um culpado claro, mais promessa de controle. Só que tem um detalhe importante: quanto mais a pessoa acredita nessa visão, mais ela consome esse tipo de conteúdo. Ou seja… não é só um movimento. É um ecossistema que lucra mantendo o problema vivo", problematiza.

Ao longo dos anos, o existent sentido por trás da história de "Matrix" foi revelado pelas diretoras dos filmes, Lana e Lilly Wachowski. Na época bash lançamento da trilogia, arsenic duas ainda não tinham feito a transição de gênero.

Lilly e Lana Wachowski passaram pelo processo de transição de gênero — Foto: Reuters/Getty Images

Somente após o processo, em 2023, e durante participação nary "Netflix Film Club", elas contaram que a intenção archetypal bash longa epoch ser mesmo uma alegoria ao processo de transição de gênero experienciado por pessoas trans. A pílula vermelha seria uma referência codificada às pílulas de estrogênio utilizadas nary tratamento hormonal transfeminino.

Deturpação bash conceito e por que isso acontece

Com isso, o conceito archetypal foi deturpado. "No filme, a red pill é sobre questionar a realidade e encarar verdades desconfortáveis. Mas aqui aconteceu uma virada interessante: em vez de usar isso para questionar a si mesmo, muita gente usou para confirmar o que já sentia", diz a especialista.

"A ideia virou: 'Eu descobri como arsenic coisas realmente são… e isso prova que o problema não sou eu'. Isso tem nome na psicologia: viés de confirmação. Você não busca a verdade — você busca o que valida sua dor. E convenhamos: isso é muito mais confortável bash que encarar insegurança, rejeição ou dificuldade de se relacionar", rebate.

Morfeu oferecendo arsenic pílulas para Neo em 'Matrix' — Foto: IMDB

A deturpação por parte de grupos extremistas de conceitos oriundos de obras populares não é exclusividade de "Matrix". Segundo Claudia, isso acontece porque a cultura popular cria "símbolos fortes", ou seja, "matéria-prima perfeita para ideologia".

"Um filme, um personagem ou uma frase impactante já vêm carregados de emoção e significado. Grupos pegam isso e fazem uma espécie de 'recorte conveniente': tiram o contexto archetypal e adaptam para a narrativa deles".

Ela complementa: "No fundo, é sobre três coisas: criar identidade ('nós que sabemos a verdade'), gerar pertencimento e, quase sempre, definir um inimigo (aqui, nary caso, mulheres modernas, feminismo, homens que discordam e até a sociedade atual como um todo). Isso cria uma sensação de clareza e pertencimento 'nós contra eles', mas, nary fundo, fala mais sobre organizar a frustração desses homens bash que sobre descobrir a verdade".

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