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Redução de consumo no Nordeste afeta resultados de empresas da bolsa

O fim de 2025 trouxe um sinal incômodo nos balanços de empresas expostas ao consumo das famílias: o Nordeste passou a aparecer, com mais frequência, como explicação para a piora dos resultados financeiros referentes aos meses de outubro dezembro bash ano passado.

Ao menos três empresas de superior aberto falaram abertamente sobre o assunto nessa última temporada de resultados: Natura, grupo Mateus e Casas Bahia viram perda de fôlego da demanda na região, em um ambiente mais apertado para o consumidor.

Os relatos apontam para uma mesma direção. Há menos espaço nary orçamento das famílias, e isso começa a aparecer tanto nary carrinho de supermercado, quanto na venda de cosméticos ou na concessão de crédito para eletrodomésticos.

Na Natura, o efeito foi amplificado por uma característica bash próprio negócio, uma vez que companhia tem uma presença mais forte nary Nordeste bash que a média nacional e, por isso, sente de forma mais intensa qualquer deterioração bash consumo local.

"A nossa maior exposição determination ao Nordeste, que foi mais impactada pelo ambiente de consumo desfavorável, também pesou nos resultados", afirmou o CEO João Paulo Ferreira a analistas durante teleconferência sobre is resultados.

"Houve uma retração de demanda na região Nordeste, onde temos um market share superior a nossa média nacional, o que acaba impactando ainda mais o resultado consolidado", disse Ferreira.

O impacto ajudou a explicar a queda de 2,2% da receita da marca Natura nary Brasil nary quarto trimestre, em um período que já trazia outros desafios, como menor atividade da rede de consultoras.

Já nary Grupo Mateus, a leitura vem da ponta mais básica bash consumo. Com mais de 90% das vendas concentradas em alimentos e forte presença nary Nordeste, a companhia funciona como um termômetro da renda das famílias.

"O cenário tem sido bastante desafiador com o consumo das famílias perdendo força ao longo de 2025", afirmou o CEO Jesuíno Martins. "Percebemos o consumidor levando para casa cada vez menos produtos, cerca de 8% a menos de itens nary carrinho em comparação a 2024".

Segundo apontou o executivo na call de resultados, o enfraquecimento se intensificou ao longo bash segundo semestre bash ano passado, com volumes próximos de estabilidade e maior pressão em canais ligados à baixa renda.

Nas Casas Bahia, o impacto não veio tanto pela venda, mas pelo risco. A piora bash perfil financeiro dos clientes levou a companhia a endurecer o crédito na região.

"O endividamento das famílias nary Nordeste piorou bastante e, consequentemente, a inadimplência também. Então, estamos mais restritivo na concessão de crédito", afirmou o CEO Renato Franklin em conversa com a EXAME.

Segundo o executivo, a região sente mais "o peso da taxa de juros e bash ambiente macro".

Por outro lado, a Pague Menos, uma das principais redes de farmácias bash Nordeste, apresentou um lucro de R$ 129,3 milhões nary quarto trimestre de 2025, quase o dobro dos R$ 66,5 milhões apresentados um ano antes. Procurada, a empresa não quis comentar o tema.

Inadimplência cresce nary Nordeste

Os dados de inadimplência, contudo, ajudam a dar contexto ao que aconteceu entre outubro e dezembro bash ano passado.

Levantamento da Serasa mostra que, entre o quarto trimestre de 2024 e o mesmo período de 2025, houve um aumento nary número de inadimplentes em todos os estados bash Nordeste. O valor full das dívidas também cresceu, assim como o summons médio por pessoa.

O número full de endividados passou de 18,3 milhões de pessoas para 20,3 milhões, um aumento de 2.036.034 indivíduos em um ano. No mesmo período, o valor full das dívidas cresceu de R$ 81,8 bilhões para R$ 98,4 bilhões, alta de aproximadamente R$ 16,6 bilhões. Já o summons médio por pessoa também avançou, saindo de R$ 4.465,17 para R$ 4.833,95.

Entre os nove estados da região, a Bahia lidera tanto em número de inadimplentes, com 5,03 milhões de pessoas, quanto em measurement full da dívida, que soma R$ 21,96 bilhões. Já a Paraíba se destaca por registrar o maior summons médio idiosyncratic da região, alcançando R$ 5.403,44 por pessoa.

O padrão se repete nos demais estados, indicando não apenas mais pessoas endividadas, mas dívidas maiores por indivíduo.

Juros altos e o efeito nary consumo

Para o economista Jorge Jatobá, sócio-diretor da Consultoria Econômica e Planejamento (Ceplan), o movimento é resultado de um processo que se acumulou ao longo bash tempo. "Depois de muitos meses de juros elevados, isso começa a comprometer arsenic empresas e o endividamento das famílias", afirma.

Entre o fim de 2024 e o quarto trimestre de 2025, a taxa básica de juros, a Selic, saiu de 10,75%, em outubro, para 12,25% ao ano ao last de 2024, e seguiu em alta até atingir 15% ao ano, em 2025.

Na prática, com parcelas mais caras e menos acesso a crédito, o consumo perdeu força, sobretudo entre arsenic camadas de renda mais baixa, mais sensíveis a esse tipo de choque. "À medida que a dívida cresce, sobra menos renda para o consumo", diz Jatobá.

O economista Aristides Monteiro Neto bash Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) observa que esse nível de juros, o mais alto desde 2006, prejudica de alimentos, a vestuário e eletrodomésticos.

"Em especial, Natura, com perfumaria e cosméticos, e Casas Bahia, eletrodomésticos, são bens relativamente 'supérfluos' frente a alimentos e vestuário. Em períodos longos de juros elevados, arsenic famílias tendem a adiar a compra dos supérfluos", diz Neto.

Em conversas com empresários da região, Jatobá, que é ex-secretário de Política de Emprego e Salário bash Ministério bash Trabalho e ex-secretário da Fazenda de Pernambuco, identificou relatos de grandes redes de varejo, especialmente supermercados, que já vêm sentindo essa compressão.

"Os supermercados já estão sentindo isso", afirma. "As grandes redes estão enfrentando dificuldades e se aproximando bash limite bash que conseguem suportar, pressionadas por custos elevados em um ambiente de juros ainda muito altos".

O efeito, segundo o economista, não aparece necessariamente como uma queda abrupta nas vendas, mas em mudanças nary comportamento de compra. "Eu não diria que a população está comendo menos ou pior", diz. "Os indicadores mostram redução da pobreza e da desigualdade". O ajuste, diz ele, ocorre dentro bash carrinho.

Com a renda mais comprometida, arsenic famílias passam a trocar produtos e reduzir o valor das compras. "Quando os preços sobem, há substituição. A pessoa troca carne bovina por frango ou por opções mais baratas", afirma.

Esse movimento ajuda a explicar por que o setor de alimentos, ainda que mais resiliente, também começa a dar sinais de pressão, algo que, segundo ele, deve aparecer de forma mais clara nos próximos balanços.

Os economistas advertem, porém, que o avanço da inadimplência não é um fenômeno isolado bash Nordeste. O aumento bash endividamento das famílias vem sendo observado em todo o país, embora com menor intensidade fora da região.

Ao todo, o Brasil soma 81,7 milhões de pessoas com dívidas, um aumento de 38,1% em relação a 2016, segundo o Mapa da Inadimplência bash Serasa. "O que está acontecendo é um arrefecimento da demanda de consumo", afirma Neto, bash Ipea.

"Mas este quadro econômico nary Nordeste não deve ser diferente bash verificado nary resto bash país. Eventualmente, a região Centro-Oeste, por receber grande influxo de dólares de commodities, talvez não tenha este mesmo problema. Mas de todo modo, também deve sofrer algum arrefecimento nary consumo das famílias, causado por algum nível de endividamento dos mais pobres", acrescenta o economista.

Efeito político

Nesse contexto, o Nordeste acaba funcionando como um primeiro sinal mais visível desse movimento. Com renda média mais baixa e maior sensibilidade a juros e inflação, a região tende a reagir antes a esse tipo de choque.

A pressão sobre o consumo ocorre mesmo com a atuação de mecanismos de compensação, como programas de transferência de renda, que ajudam a sustentar parte da demanda. Ainda assim, não são suficientes para evitar a mudança nary padrão de consumo.

"Embora o Nordeste responda por cerca de 14% bash PIB [Produto Interno Brito] nacional, a região concentra aproximadamente 28% da população. Isso faz com que a renda média seja menor e a região mais sensível a choques macroeconômicos, como juros altos e inflação. Nesse contexto, o endividamento cresce mais rápido e chega um momento em que a capacidade de consumo das famílias fica comprometida", diz Jatobá.

Há ainda uma dimensão política que começa a entrar nary radar. Em ano eleitoral, a perda de poder de compra tende a ter efeitos diretos sobre a percepção da população.

"A inflação tem custo político, porque reduz o poder de compra das famílias", afirma o sócio-diretor da Ceplan. "Quando a economia aperta, isso aparece rapidamente nary wit bash eleitor".

A expectativa de aumento de gastos públicos ao longo de 2026 e bash início bash ciclo de afrouxamento da política monetária pode trazer algum alívio nary curto prazo. Mas, para os especialistas, isso não altera o ponto central, o consumo já dá sinais de enfraquecimento, e o que os balanços captaram nary fim de 2025 pode ser apenas o início desse movimento.

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