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Réplica: Combater o antissemitismo não é censura

O artigo "Tabata importa censura israelense", de Glenn Greenwald, não é apenas uma crítica política. É um exemplo emblemático de distorção retórica, de simplificação ideológica e, sobretudo, de uma inversão perigosa de prioridades morais. Ao atacar uma proposta que visa estruturar políticas públicas de combate ao antissemitismo, Greenwald opta por enquadrá-la como um suposto instrumento de censura, ignorando deliberadamente seu conteúdo real.

O ponto central que precisa ser restabelecido é simples: o projeto não criminaliza opiniões, não restringe debate e não cria mecanismos de punição por críticas a Israel.

Trata-se de uma iniciativa voltada à construção de políticas públicas —educação, monitoramento, prevenção e conscientização— diante de um fenômeno real e crescente: o aumento global do antissemitismo.

Transformar isso em "censura" não é apenas um erro interpretativo; é uma escolha retórica e demonstra que Greenwald, historicamente se posicionando como defensor de direitos civis e de minorias, demonstra seletividade ao tratar do antissemitismo.

O articulista constrói seu argumento a partir de uma premissa falsa de que a adoção de definições como a da IHRA (Aliança Internacional para a Memória do Holocausto) automaticamente leva à repressão de críticas legítimas ao Estado de Israel.

Ele ignora o dado essencial de que a própria definição da IHRA faz distinção explícita entre crítica política legítima e discurso antissemita. Ao apagar essa nuance, o artigo substitui análise por alarmismo.

Críticas a Israel podem ser feitas, como a qualquer outro Estado legítimo dentro do sistema internacional e reconhecido pela ONU. O que é inaceitável é a condenação –formal ou não– de todos os judeus, como povo. Ou transformar a palavra "sionista" em ofensa e defender a destruição do Estado judeu.

A narrativa contra a IHRA, frequentemente repetida em certos círculos ideológicos, cria um efeito perverso: transforma o combate ao preconceito em suspeita política. Em outras palavras, em vez de discutir como proteger uma minoria historicamente perseguida, desloca-se o debate para uma teoria de conspiração sobre controle de discurso.

Outro ponto crítico é a tentativa de enquadrar o debate brasileiro dentro de dinâmicas externas, especialmente dos Estados Unidos. Ao importar exemplos controversos e descontextualizados, o artigo ignora completamente a realidade brasileira, onde o projeto em questão está inserido em um arcabouço democrático sólido, com garantias constitucionais claras de liberdade de expressão.

Além disso, ao misturar críticas a Israel, sionismo, políticas de guerra e antissemitismo em um mesmo bloco indistinto, o texto reforça exatamente a confusão que deveria combater. Essa sobreposição deliberada impede um debate sério e contribui para a banalização do próprio antissemitismo —um fenômeno que, historicamente, se adapta justamente por meio dessas ambiguidades.

No fundo, o artigo de Greenwald não é sobre liberdade de expressão. É sobre a resistência a reconhecer que o antissemitismo contemporâneo muitas vezes se manifesta de formas sofisticadas, inclusive travestido de discurso político legítimo. Negar isso não protege o debate.

O Brasil não está diante de uma escolha entre liberdade e censura. Está diante de uma escolha entre enfrentar um problema real com responsabilidade ou ignorá-lo sob o pretexto de defender abstrações. O projeto da deputada Tabata Amaral se insere na primeira categoria.

Como está explícito, é um "projeto". Gostem ou não, como Greenwald, apresenta uma definição apoiada por todas as instituições representativas da comunidade judaica no Brasil e na maior parte do mundo, já foi adotada por 40 países, organismos internacionais e vários estados e cidades brasileiras. É a definição de antissemitismo com mais consenso no Brasil e no mundo, e o PL 1.424/2026 recebeu a assinatura de 45 deputados e deputadas de 19 partidos, da esquerda à direita.

Exigir que a proposta seja barrada, sem ao menos apresentar outras sugestões e encarar o debate democraticamente —isso, sim, é censura. Além da evidente tentativa de silenciar parte da sociedade, também fragiliza a capacidade do Estado de proteger seus cidadãos contra uma das formas mais antigas e persistentes de ódio.

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