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Saiba por que Lula precisa de radioterapia após cirurgia de câncer de pele

A radioterapia iniciada pelo presidente Lula (PT) nesta segunda-feira (25), após a retirada de uma lesão de câncer de pele no couro cabeludo, é um tratamento complementar indicado para reduzir o risco de o tumor voltar a se manifestar no local.

Segundo boletim médico divulgado pelo Hospital Sírio-Libanês em Brasília, trata-se de uma radioterapia superficial, com previsão de 15 sessões ao longo das próximas três semanas, sem necessidade de afastamento de suas atividades.

A lesão retirada no fim de abril era um carcinoma basocelular, o tipo mais comum e menos agressivo de câncer de pele, com baixa probabilidade de disseminação para outros órgãos.

Na maioria dos casos, a cirurgia é suficiente para extirpar o tumor. Há situações, porém, em que a radioterapia é recomendada para aumentar a segurança oncológica.

Embora o boletim oficial não detalhe a razão específica para a indicação do tratamento, médicos ouvidos pela Folha afirmam que a conduta não é incomum.

Uma das indicações clássicas ocorre quando o exame anatomopatológico detecta invasão perineural, situação em que células tumorais são encontradas ao redor de pequenos nervos.

"Mesmo com margens livres, esse achado aumenta o risco de retorno local e costuma justificar radioterapia complementar", afirma Rodrigo Guedes, diretor da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) e especialista em câncer de pele.

Outra circunstância é quando a margem cirúrgica fica muito estreita —ou positiva, quando ainda há sinais de tumor na borda do tecido retirado. Nesses casos, a radioterapia funciona como reforço para eliminar possíveis células cancerígenas remanescentes.

Guedes aponta ainda uma terceira possibilidade: a recidiva no mesmo local. "Quando o tumor reaparece após uma cirurgia prévia, é comum associar radioterapia para reduzir a chance de nova recorrência."

A radio-oncologista Denise Ferreira, diretora da Sociedade Brasileira de Radioterapia, afirma que a radioterapia é um dos principais tratamentos para tumores de pele, embora muitas vezes seja menos lembrada porque lesões pequenas costumam ser resolvidas cirurgicamente.

"O tratamento radioterápico é uma opção curativa importante. Muitas vezes ele não é a primeira escolha porque a cirurgia resolve de forma rápida, mas há situações em que a radioterapia é mais adequada, seja por questões anatômicas, estéticas ou pela complexidade da ressecção", diz.

Segundo ela, no caso de tumores localizados no couro cabeludo, a decisão pode ocorrer quando, durante a cirurgia, constata-se que a lesão é mais infiltrativa do que parecia inicialmente.

"Para evitar uma cirurgia muito extensa, com necessidade de retalhos e maior morbidade, pode-se optar pela radioterapia complementar, que também tem excelente taxa de controle."

Ferreira destaca que outro cenário possível é a presença de sinais patológicos de maior risco, como margens exíguas, infiltração vascular ou perineural.

O radio-oncologista Elton Leite, da equipe de tumores cutâneos do serviço de radioterapia do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo Octavio Frias de Oliveira, afirma que a radioterapia pós-operatória é rotina em casos específicos de carcinoma basocelular.

"Mesmo sendo um tumor de excelente prognóstico, dependendo da localização e de fatores encontrados no exame patológico, a radioterapia funciona como consolidação. Ela esteriliza o leito tumoral e reduz ainda mais a chance de recorrência", afirma.

Ele cita outros exemplos em que a radioterapia é indicada nesse tipo de câncer de pele, como invasão da musculatura do couro cabeludo ou eventual acometimento ósseo. "A chance de cura já é muito alta, mas com a radioterapia conseguimos empurrá-la ainda mais para perto de 100%."

Apesar da necessidade do tratamento complementar, os médicos afirmam que o prognóstico é bastante favorável. "A chance de cura costuma ser altíssima, superior a 90%", diz Guedes.

A técnica utilizada nesses casos geralmente é a radioterapia superficial, com feixes de elétrons que concentram a dose na pele e em tecidos rasos, poupando estruturas profundas.

"Hoje conseguimos fazer uma radioterapia muito superficial, sem atingir tecido cerebral ou regiões profundas, o que torna o procedimento bastante seguro", explica Leite, do Icesp.

Segundo Ferreira, o esquema radioterápico adotado no caso de Lula é um hipofracionamento —doses um pouco maiores em menos sessões. "É um formato moderno, bem estabelecido, que reduz o tempo total de tratamento e facilita a rotina do paciente sem comprometer a eficácia."

Por isso, os efeitos colaterais tendem a ser localizados e leves. Entre os mais comuns estão vermelhidão na área irradiada, irritação cutânea —conhecida como radiodermite— e queda temporária de cabelo na região tratada.

"É um tratamento bem tolerado. Os efeitos são predominantemente locais e, em geral, não impedem a rotina normal", diz Guedes.

Ferreira afirma que também pode haver necessidade de cuidados extras com a pele irradiada para evitar irritação ou infecção local. Leite acrescenta que fadiga pode ocorrer, mas costuma ser discreta. "Se aparecer, é algo leve, praticamente imperceptível, sem impacto sobre as atividades diárias."

A manutenção da agenda presidencial está em linha com esse perfil terapêutico, segundo os médicos.

Para Ferreira, o caso também ajuda a ampliar o debate sobre uma modalidade ainda pouco conhecida do público. "A radioterapia para tumores de pele tem baixa visibilidade, mas muitas vezes evita múltiplas cirurgias e preserva melhor a estética e a função. É importante que a população saiba que ela também é uma opção curativa."

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