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Sem diploma, alunos faturam até R$ 23 mil criando IA para grandes empresas

Eles estudam na UFG (Universidade Federal de Goiás), lar da primeira graduação em IA do Brasil. Alguns deles participam de projetos grandiosos. É o caso de Daniel Fazzioni, que atuou na construção do Gaia, um modelo de IA desenvolvido pelo Google em parceria com Abria (Associação Brasileira de IA) e as startups Amadeus e Nama.

Eu cheguei com o desejo de um dia na vida ganhar pelo menos R$ 10 mil depois da graduação. Houve meses em que, somando bolsas e projetos, o valor passou de R$ 23 mil. Jamais imaginei galgar desse modo
Daniel Fazzioni, 27, graduando em IA na UFG

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Os alunos recebem o dinheiro em forma de bolsas para contribuir na criação de soluções tecnológicas para empresas que acionam o CEIA (Centro de Excelência em IA), da UFG. Antes de atingir milhares de reais:

  • Os jovens começam ganhando entre R$ 500 e R$ 1.200, conforme os níveis de habilidade e a exigência para o projeto. Só participam os que já se destacam em sala de aula...

Trabalhamos a meritocracia do desempenho do discente, o que dá a ele a percepção de que a evolução e o aumento da remuneração dependem do seu próprio desenvolvimento"
Anderson Soares, professor, coordenador do bacharelado de IA da UFG e diretor do CEIA

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  • ... Para abraçar projetos mais qualificados --e que pagam melhor--, o estudante precisa acumular duas coisas: experiência e conhecimento. A exigência cria situações curiosas, já que...
  • ... Não é raro alunos estudarem o conteúdo de uma disciplina antes de serem expostos a ela e usarem as aulas para debater dúvidas e soluções para problemas, conta André Martins Dantas, que concluiu o curso em 2025. Não é à toa...
  • ... É proposital, conta o professor Soares. "O curso foi planejado intencionalmente com poucas disciplinas teóricas, para ter espaço para aprender com exercícios." Entre entendidos, esse modelo é conhecido como "Aprendizado baseado em problema" (PBL, sigla em inglês). Só que...
  • ... Essa abordagem pedagógica está longe de ser consensual, pois há críticas de que ela esvazia o conteúdo e promove a monetização do aprendizado. Soares discorda dessa visão:

Já pensou um curso de medicina sem hospital? Os cursos de tecnologia tornaram-se excessivamente teóricos por deficiências de investimento e um pouco de preguiça de ir além do quadro negro. A tecnologia é uma ciência meio: o computador por si só não serve para nada se não for para uma atividade-fim. Quisemos rever esse modus operandi teórico e trazer o exercício prático para o centro da formação
Anderson Soares, do CEIA-UFG

  • ... O modelo não é novidade na academia, mas é mais comum para mestrandos e doutorandos. Aliás...
  • ... A graduação de IA foi criada em 2019 após um sinal importante do mercado: a UFG recebia tantas propostas de parcerias com empresas que seu programa de mestrado em IA, no ar há 15 anos, já não dava conta de formar tanta mão de obra qualificada para absorver a demanda. Outro detalhe importante é que...
  • ... O CEIA-UFG é fruto de investimento de dinheiro público, vindo de Goiás, via Fapeg (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás), e da administração federal, via Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial). Alguns dos projetos têm seu risco financeiro atenuado, devido ao aporte feito pela organização social criada pelos ministérios da Ciência e Tecnologia e da Educação. O resultado está nos números, já que...
  • ... Em 2025, o CEIA-UFG movimentou R$ 71 milhões só nos 44 projetos via Embrapii. Ao todo, o centro girou R$ 101 milhões no ano.
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Quando o assunto é IA, a UFG virou um expoente em ensino de ponta (a nota de corte do bacharelado de IA supera a de Medicina e é a mais alta da instituição) conectado às demandas da indústria e de órgãos públicos (dentre as quase cem unidades Embrapii, o CEIA é a que mais atrai negócios). Associado a iniciativas na Paraíba, Paraná e Pernambuco, o movimento ajuda a deslocar o desenvolvimento de alta tecnologia para além do eixo Rio-SP.

Para o professor Anderson Soares, empregar alunos em projetos de empresas apresenta outras vantagens:

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  • Universidade: eficiência pedagógica, fortalecimento da extensão do ensino e relacionamento próximo com a sociedade;
  • Empresas: acesso a inovação na fronteira do conhecimento, contato com capital humano qualificado, colaboração direta na formação de futuros profissionais;
  • Estudantes: inserção precoce no mercado de trabalho, entendimento prático de diversas áreas de aplicação, possibilidade de aprender com o erro em ambiente acadêmico e independência financeira ainda durante a graduação.

Há de tudo entre os projetos, como a criação de:

  • Agentes de IA para o setor elétrico a pedido da CEMIG,
  • Sistema de tratamento de imagem para a TV Globo;
  • Análise automatizada de dano veicular para a Cilia Tecnologia.

Esse trabalho vem atraindo a atenção de outras universidades, interessadas em adotar modelo semelhante. Só em 2025, oito delas visitaram o campus da UFG em Goiânia para aprender como se faz.

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Quando Priscila Maia, 22, contou que iria trabalhar, o pai ficou preocupado. Ele interrompeu os estudos para colocar dinheiro em casa e temia que a filha fosse pelo mesmo caminho. Não adiantou ela explicar que criar sistemas para uma empresa fazia parte das aulas na universidade. Ele só relaxou após conversar com o professor Anderson Soares para saber como tudo iria funcionar. O resultado veio rápido.

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Logo no primeiro projeto, Priscila já ganhava um valor superior aos rendimentos do pai e da mãe juntos. Hoje, a aluna no terceiro ano está para receber R$ 12 mil, somando as bolsas dos quatro projetos em que atua.

Ainda que a remuneração seja alta, os estudantes que conversaram com a coluna dizem que o objetivo continua sendo aprender.

Apesar de a gente ter um salário que é muito alto, tem muitas coisas que importam além disso. Quando eu saí do projeto anterior e entrei no de agora, meu salário desceu um pouquinho. Eu vi que era mais interessante aprimorar uma parte em que eu não era tão boa
Priscila Maia

Já Daniel Fazzoni acaba de se formar e não pensa em deixar a academia. Quer emendar em um mestrado, mesmo com as ofertas de emprego batendo à porta.

Já recebi propostas de empresas de R$ 25 mil mensais mais ações, mas, no final das contas, o que me faz levantar cada dia é essa busca por conhecimento
Daniel Fazzoni

DEU TILT

Toda semana, Diogo Cortiz e Helton Simões Gomes conversam sobre as tecnologias que movimentam os humanos por trás das máquinas. O programa é publicado às terças-feiras no YouTube do UOL e nas plataformas de áudio. Assista ao episódio da semana completo.

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