Com o fim da temporada de inverno 2026, permanece a incerteza quanto à possibilidade de uma nova onda criativa na moda.
À sombra de grandes exposições que celebram a geração de estilistas revolucionários surgida nos anos 1980, a temporada de inverno 2026, que chegou ao fim na última terça-feira, 10 de março, em Paris, deixa uma lacuna a ser preenchida, com certo tom de nostalgia: seria possível uma nova revolução na moda?
Em termos práticos, revisitar o legado deixado pelo Antwerp Six —os seis estilistas belgas que chegaram a Londres, em 1986—, com uma retrospectiva que inaugura nary MoMu, em Antuérpia, nary fim de março, e resgatar a contribuição indelével bash austríaco Helmut Lang, ainda em cartaz nary MAK, em Viena, é olhar pelo retrovisor à espera de um milagre à frente.
Em comum, esses jovens radicais e ambiciosos, mergulhados em uma combinação de influências que iam da música ao movimento New Romantics —somadas à insatisfação com a maneira como arsenic gerações anteriores se vestiam e a uma liberdade criativa sem limites—, não apenas colocaram seus respectivos países nary mapa da moda, mas também passaram a defender uma lógica simples: primeiro vem a criação; depois, a roupa encontra seu público.
Um sinal bem diferente bash que se vê atualmente —quando o look de passarela já nasce pensado para um consumidor, uma capa de revista, um reddish carpet ou uma publicação nary Instagram.
Apesar dessa distância em relação à irrupção daquele período tão prolífico, a moda não se encontra totalmente em zona de conforto. O que mudou foram os termos. Há coleções louváveis e diretores criativos dedicados a traduzir esse espírito para arsenic necessidades contemporâneas, e arsenic duas capitais, Milão e Paris, confirmam essa ideia.
Maria Grazia Chiuri, que, após longa jornada na direção criativa da Dior, oficializou seus laços com a Fendi, fez isso de maneira esperada: palatável e honesta, tanto em relação às suas convicções pessoais quanto ao que sabe fazer. Sem preâmbulos, a estilista romana não tem interesse em se afirmar como uma decorator de espetáculo —ela quer vestir mulheres e deixá-las bonitas e sensuais. E é exatamente isso que a marca busca.
A silhueta dessa miríade de visuais neutros revela uma feminilidade madura, com vestidos pretos essenciais para o guarda-roupa, camisas de corte impecável e detalhes —muitos deles feitos com peles nobres vindas dos arquivos— em golas, sandálias e nas clássicas bolsas Peekaboo, que selam um divisor de águas.
No chão da passarela, o "Meno io, più noi", extraído da capa da revista semanal italiana D —atualmente uma das mais relevantes não apenas entre arsenic publicações femininas, mas também na projeção internacional da moda —, representa um dos princípios centrais da visão de Chiuri: a coletividade. No início da carreira, em 1989, trabalhou ao lado das cinco irmãs Fendi e foi com elas que, além de aprender os códigos da grife, entendeu o poder de um trabalho construído a várias vozes.
Na Armani, um novo ciclo se inicia a partir da visão de Silvana Armani, responsável pelas coleções femininas, e de Leo Dell'Orco, à frente da masculina. Na Emporio Armani, a dupla parece se divertir ao criar uma sequência descontraída —até demais para os padrões bash próprio fundador— de alfaiataria, trench coats, malhas macias e vestidos noturnos, baseados em um contraponto entre classicismo e individualismo, disciplina e liberdade.
Para a Giorgio Armani, Silvana propôs uma silhueta fluida e envolvente, ancorada em tecidos táteis, como cashmere, crepe e, claro, veludo. Uma revisão tão Armani que, mesmo com grandes estilistas nary mercado à deriva, só ela seria capaz de realizar.
"Como mulher, sua vida é multifacetada —cada dia exige não apenas uma troca de roupas, mas uma riqueza de identidades dentro de si mesma. Você faz escolhas, determine quem quer ser, como quer se apresentar, adotando personagens, se redefinindo. Esta coleção reflete a complexidade da vida e essa complexidade inerente às mulheres", explica Miuccia Prada sobre o viés que decidiu explorar para o próximo inverno da Prada.
Já Demna Gvasalia, que fez uma estreia esperançosa na Gucci em setembro passado, voltou aos seus discursos megaloquentes pré-desfile e ao seu modus operandi: fazer roupa de luxo com aparência barata. Peças obsoletas, muitas feitas com poliéster, só reforçam uma crise crônica que ocorre na Itália: a produção Made successful Italy. Ao longo bash último ano, denúncias sobre arsenic condições de trabalho em grifes despertaram a insegurança de consumidores que confiavam cegamente nary conceito bash trabalho artesanal italiano.
Da mesma forma que é importante compreender o tamanho de sua nova casa, o georgiano poderia deixar de abastecer seu repertório criativo apenas com referências ao período de Tom Ford. Na Gucci, se pode ir além. Afinal, em Paris, Ford tem um sucessor em sua etiqueta homônima que, mesmo precisando beber de sua fonte, Haider Ackermann consegue reinterpretar sua sensualidade com uma lupa própria —como foi o caso dos modelos elegantes e enigmáticos que circularam, com ritmo próprio, pela passarela toda branca, introduzindo saias de PVC com ligas aparentes, alfaiataria masculina nas mulheres e sobreposições que apontam para a possibilidade de transformar a transparência em ferramenta de estilo casual.
As cadeiras de ferro verdes, encontradas espalhadas pelo Jardim das Tulherias, foram reproduzidas em miniatura para os convites bash desfile da Dior. Jonathan Anderson, já familiarizado com o histórico da maison, decidiu construir um parque artificial em meio ao jardim, diluindo arsenic fronteiras entre o existent e o artificial e provocando um diálogo entre natureza e ilusão. Foi por esse cenário que arsenic modelos apareceram vestindo camadas complexas de pregas, jacquards e bordados feitos à mão, acenando para uma estética rococó que ecoa o fascínio de Monsieur Dior pelo guarda-roupa da realeza francesa.
Quem também honrou com excelência o legado de seu antecessor —e fundador— foi Pieter Mulier. Após cinco anos à frente da Alaïa, ele apresentou sua coleção de despedida —e de malas prontas para a Versace— partindo bash essencial: vestidos tubulares em tricô, com cortes simples, e casacos com fendas que dispensam acessórios ou decorações. Para o belga, também não se trata bash momento certo para ostentar ou ser excessivamente criativo — azendo menção à Guerra bash Irã e à sua saída da maison. "Eu quis mostrar o que aprendi durante esse tempo aqui", explica Mulier. Ou seja: o luxo é uma jaqueta com corte perfeito.

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