Ainda não se conhecem as consequências da decisão do governo Trump de incluir o PCC e o Comando Vermelho nas listas de Grupos Terroristas Especialmente Designados e de Organizações Terroristas Estrangeiras. O duplo enquadramento soma sanções financeiras a medidas penais e restrição migratória.
Em consequência, o combate às facções deixa de ser problema policial do Brasil e passa a ser questão de segurança nacional dos Estados Unidos, abrindo brechas para sanções e ações unilaterais —como operações secretas ou mesmo o uso de força militar— fora do controle brasileiro.
Especialistas se dividem quanto à extensão do dano que aquela medida unilateral poderá trazer para a cooperação policial entre os dois países, já bem estabelecida há tempos, bem como para o setor financeiro e para empresas nacionais que operam nos Estados Unidos.
Sem dúvida, a natureza transnacional do crime organizado, do qual PCC e CV são expoentes, requer similar esforço concertado para enfrentá-lo. Mas tampouco há dúvida de que o Brasil não tem nada a ganhar se submeter à discrição dos EUA o necessário e urgente combate às facções criminosas que aterrorizam a população, infiltram-se na atividade econômica e corrompem o sistema político.
O episódio serve, além do mais, para revelar o assombroso despreparo da extrema direita para conduzir o país, não só no combate ao crime, mas sobretudo nas suas relações com o mundo e com um de seus mais importantes parceiros internacionais.
O espetáculo de subserviência oferecido por Flávio Bolsonaro na Casa Branca —imortalizado na foto com Trump no Salão Oval— seria apenas bisonho, não indicasse absoluta ignorância sobre a realidade das relações entre Brasil e EUA, assim como sobre a melhor tradição da diplomacia brasileira.
Desde os anos 1950, foram poucas as ocasiões em que o país se alinhou incondicionalmente aos Estados Unidos. Uma delas, de vida breve, ocorreu no governo Castelo Branco (1964-1967), quando o país apoiou a invasão da República Dominicana; outra, mais recentemente, no biênio em que o Itamaraty esteve sob o comando do delirante chanceler Ernesto Araujo, no mandato de Jair Bolsonaro.
Por décadas, as relações bilaterais foram se modelando, com altos e baixos, pela cooperação quando os interesses convergiam; pela negociação quando era possível fazê-los convergir; e pelo distanciamento quando diferenças eram inegociáveis.
Hoje, o Brasil ocupa posição intermediária na escala internacional de poder. É um comerciante global que tem na China e nos Estados Unidos seus maiores parceiros; participa de diferentes arranjos multilaterais e aspira a ter voz nos fóruns globais. Para tanto, tem trunfos importantes: patrimônio ambiental; lugar destacado como provedor de alimentos; e, agora, jazidas de minerais estratégicos e terras raras.
Não é de sua natureza, enquanto Estado com poder médio, alinhar-se incondicionalmente a qualquer potência —muito menos delegar a qualquer delas delicadas decisões, como sobre sua segurança. Mas isso a família Bolsonaro e sua claque jamais chegarão a entender.
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