Ex-ministro da Infraestrutura, eleito governador de São Paulo sob o apelido de "Tarcisão do Asfalto", Tarcísio de Freitas (Republicanos) chega às vésperas do período eleitoral com um histórico de entraves no setor rodoviário, área prevista para ser uma de suas principais vitrines.
O apelido foi uma tentativa de sua equipe de campanha, em 2022, de associar ao então candidato a imagem de um ágil executor de obras rodoviárias. Contudo, embora ele tenha conseguido destravar o principal projeto do setor —a retomada do trecho norte do Rodoanel—, as licitações mais relevantes criadas por sua equipe emperraram ao longo dos três anos do mandato, gerando desgaste entre ele e seus aliados no interior.
No ano passado, o DER (Departamento de Estradas de Rodagem), responsável pela gestão das obras rodoviárias, teve de suspender licitações que, somadas, superariam R$ 5 bilhões em investimentos. O órgão terminou o ano investindo menos da metade (30,6%) da previsão orçamentária —pouco mais de R$ 1,1 bilhão dos R$ 3,6 bilhões previstos. O orçamento para este ano é menor, de R$ 2,2 bilhões.
A suspensão das licitações resultou em obras que deixaram de ser feitas e incomodaram prefeitos e deputados estaduais, que queriam ver esses projetos prontos para levá-los às suas propagandas eleitorais. Ciente de que vinha tendo dificuldades na articulação política, no fim de janeiro Tarcísio trocou a chefia na área, na expectativa de reduzir os ruídos com aliados.
Os auxiliares mais próximos do governador, no entanto, dizem duvidar que o clima adverso com os aliados contamine seu desempenho eleitoral —já que, além do Rodoanel, ele deve entregar linhas de metrô e encaminhar promessas como o trem entre a capital e Campinas e o túnel entre Santos e Guarujá, no litoral.
À reportagem o governo defendeu as ações feitas. Disse que destravou obras paradas e reformulou projetos inacabados de prefeituras e governos anteriores, reforçando "o compromisso com a eficiência administrativa e a segurança jurídica".
Os recursos do DER são destinados principalmente a obras de conservação —como recapeamento, sinalização e outros reparos— e de ampliação, como duplicações de vias de pista simples ou a pavimentação de estradas de terra, em rodovias não privatizadas. Hoje, cerca de 9.800 km de estradas estão sob responsabilidade do órgão, enquanto pouco mais de 6.800 km cabem às concessionárias.
Parte das obras ocorre em rodovias concedidas à iniciativa privada, sob responsabilidade das concessionárias. Integrantes do governo avaliam que, nesses casos, eventuais ganhos eleitorais podem ser ofuscados por críticas aos pedágios no sistema free flow, tema que levou o governador a recuar em ao menos dez instalações no ano passado.
As suspensões das licitações ocorreram em um ambiente de hostilidade crescente entre o DER e o setor da construção civil no estado. Ao longo de 2024 e 2025, empresários ouvidos pela Folha se queixaram de intransigência da direção do órgão ao lançar editais com exigências consideradas não factíveis.
Nesse contexto, as licitações de maior valor motivaram o ingresso de diversos questionamentos no TCE (Tribunal de Contas do Estado), que determinou uma série de suspensões de licitações no período. O governo afirma que "suspensões de editais para atendimento a recomendações são previstas em lei e foram prontamente atendidas" pelo órgão.
Um dos casos simbólicos ocorreu ainda em 2023. Naquele ano, a secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, Natália Resende, prometeu a abertura de uma estrada de 5 km na comunidade Quilombo dos Bombas, em Iporanga (a 356 km de SP), acessada apenas a pé.
O edital foi lançado em novembro de 2024 e suspenso no mês seguinte, após questionamentos ao TCE. O governo só conseguiu iniciar a obra em junho passado, com conclusão prevista para o fim deste semestre.
Em 2024, a principal contratação planejada pelo DER era um edital para conservação de rodovias com 30 lotes, estimado em R$ 4,3 bilhões. O certame foi paralisado em outubro de 2025, após questionamentos do TCE, e relançado em janeiro por R$ 4,7 bilhões.
Outra licitação suspensa em 2025, para conservação das pistas e da sinalização, previa gastos de R$ 915 milhões, que não se concretizaram.
Embora as reclamações dos empresários ao TCE mirem detalhes técnicos, como a forma de o governo medir o andamento das obras ou compor planilhas de preços, o escrutínio dos editais revela outras falhas. Em um dos casos, o DER contratou, em janeiro do ano passado, uma empresa para melhorias em um trecho da rodovia Raposo Tavares. Mas o trecho em questão estava em uma área de privatização, com outra empresa responsável pelos serviços. O contrato de manutenção, de R$ 1,8 milhão, teve ser ser extinto.
A Folha questionou o governo sobre o episódio, mas o tema não foi abordado na nota enviada pela gestão Tarcísio sobre as rodovias. Por meio de nota, o governo afirma que "a área de engenharia do DER concluiu projetos executivos com estimativa de investimento de R$ 3,7 bilhões em obras, abrangendo 363 quilômetros de extensão", como forma de reverter o quadro no futuro.
Na nota, o governo afirma que "a atual gestão considera que uma infraestrutura eficiente e estruturante deve ser tratada como política de Estado".
A gestão Tarcísio afirma ainda que "passa a operar a partir de um novo sistema de investimento em infraestrutura e logística, no qual a ampliação e modernização da infraestrutura rodoviária são realizadas de forma integrada, com planejamento robusto, critérios técnicos, celeridade e transparência".
No texto, o governo diz também que "reformulou, licitou e executou, desde 2023, um total de 51 projetos" e que "76 obras licitadas em gestões anteriores foram revisadas pelo DER-SP, resultando em uma economia aos cofres públicos de aproximadamente R$ 218 milhões". Segundo o governo, o programa SP para Toda Obra reúne "cerca de 1.500 projetos, com investimento total de mais de R$ 30 bilhões", em 21 mil km de vias.

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