
Crédito, Manoella Mello/Divulgação
- Author, Pedro Martins
- Role, Da BBC News Brasil em Londres
Há 11 minutos
Tempo de leitura: 9 min
Mesmo na era das redes sociais, só há uma maneira de ver Tony Ramos: ligando a televisão. Neste mês, ele volta ao ar com a novela Quem Ama Cuida, que será exibida na faixa das nove na Globo a partir do dia 18 de maio.
O ator, de 77 anos, nunca gravou um story nem fez uma selfie. Prefere se manter afastado da internet, que vê como um espaço que surgiu "para dar voz a tantos que queriam falar e não tinham como", mas acabou sequestrado por "aproveitadores e criadores de notícias falsas".
Nem por isso, diz, está alheio ao que acontece no Brasil e no mundo. Prefere o método tradicional: todos os dias, acorda e lê os principais jornais impressos do país, que exibe orgulhosamente durante entrevista por videoconferência, antes de seguir para os Estúdios Globo — o antigo Projac — para encarar mais uma diária de filmagens em pleno feriado de Tiradentes.
O ator diz estar preocupado com os rumos das redes sociais, sobretudo com o avanço da inteligência artificial, que já o vitimou — Tony descobriu, por meio do colega Marcos Caruso, que estavam usando sua imagem sem autorização para promover um remédio para próstata. "Mas nunca fiz isso. Não anuncio remédio, bebida alcoólica, jogo", frisa.
"É bem-vinda a inteligência artificial para o bem, mas ela vai ser usada para o mal. Campanha política então nem tenho dúvida. Os donos dessas ferramentas deveriam pensar: esse político realmente falou isso? Mas será que vão ter essa preocupação?", questiona.
Este é Antônio de Carvalho Barbosa, aquele que os espectadores não veem. Tony, a figura pública que acumula 62 anos de carreira — quase 50 deles na TV Globo — não costuma levar debates como esse para o cotidiano. Prefere guardá-los para conversas com amigos e para as raras entrevistas que concede, que considera espaços mais adequados para discussões.
"Nunca fugi do tema política. Só não expresso partidos, candidatos ou em quem vou votar. Não quero ser indutor de voto para ninguém. Quem tem que votar, que vote com sua consciência e em busca de algo positivo para você, para os seus filhos", ele diz. "Sou um homem que ama a liberdade e a democracia."
Agora, Tony se prepara para mais uma estreia. Quem Ama Cuida, escrita por Walcyr Carrasco e Claudia Souto, acompanha uma fisioterapeuta — papel de Letícia Colin — que vê sua vida virar do avesso após uma enchente devastadora em São Paulo. Tony interpreta seu avô, Otoniel, um homem "em uma idade avançada que tenta continuar a sonhar", nas palavras do ator.
Em entrevista à BBC News Brasil, o ator apresenta o folhetim, discute temas como política, redes sociais e inteligência artificial e tranquiliza os fãs, dois anos após ter sido internado às pressas em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) com sangramento intracraniano. "Foi um susto grave, mas estou excelente", diz. "Enquanto Deus me permitir, pretendo continuar trabalhando."

Crédito, Manoella Mello/Divulgação
BBC News Brasil – A novela começa com uma enchente, que é uma tragédia cada vez mais comum. Como o senhor vê essa aproximação com a vida real?
Tony Ramos – As novelas buscam temas que se aproximam da gente brasileira, e os tempos são difíceis. Muita gente ainda é cética, até irônica, com a mudança climática, sendo que ela está à nossa porta. Não sou fatalista, mas Porto Alegre e o caso recente de Ubá, em Minas Gerais, estão aí.
Já fiz de tudo na Globo: já me embrenhei em um sertão quase intocado para Grande Sertões: Veredas, com apoio do Exército; fui filmar na Índia, com a turma de Bollywood; fui para Toscana, onde aprendi a pilotar tratores; filmei na Grécia; mas nunca vi nada parecido com a enchente que montamos para esta novela. Envolveu 300 e tantos profissionais, com gigantescos chuveiros, turbinas, e muita água.
BBC News Brasil – Seu personagem, Otoniel, tem uma banca de flores em frente ao cemitério, certo?
Tony – Ele vai buscar emprego. Depois que perde a casa, perde tudo na enchente, um amigo o indica para fazer o horário noturno na floricultura em frente ao cemitério. É esse homem brasileiro, em uma idade avançada, que tenta continuar a sonhar. A esperança é vendida de uma forma muito clara pelos autores.

Crédito, Manoella Mello/Divulgação
BBC News Brasil – Para ver Tony Ramos só tem uma maneira: ligar a TV. Por que o senhor ficou de fora das redes sociais?
Tony – Alguns colegas dizem que eu deveria ter minhas redes, e eu brinco: 'É obrigado? Se não vou perder minha carteirinha de artista?'. Não sou um velho chato, tenho bom humor, adoro trocar ideias com os mais jovens, aprendo com eles. Também não sou saudosista, não fico falando do meu tempo, porque meu tempo é hoje. Mas este tempo também tem uma exposição narcisista muito mixa, que resvala até no inculto.
As redes vieram para dar voz a tantos que queriam falar e não tinham como, mas lamentavelmente vieram os aproveitadores, os criadores de notícias falsas, porque se não há polêmica não há like. Muita coisa ruim aconteceu. Na área política, então, nem se fala. Por isso, não quero saber de rede social. Não quero saber sobre a vida dos outros. É um território que era para o bem e desesperadamente virou algo mixo. Prefiro não participar.
Um dia, Marcos Caruso me telefonou com uma amiga perguntando o nome de um remédio que eu tinha anunciado. Mas nunca anunciei remédio. Ela queria comprar um remédio para o esposo, que estava com problema de próstata, e viu que Tony Ramos estava anunciando. Mas nunca fiz isso.
Não anuncio remédio, bebida alcoólica, jogo. Era um vídeo canhestro meu, dando entrevista para Ana Maria Braga, que dublaram com inteligência artificial. Fico triste, porque os provedores deveriam ter uma postura honesta, ética. E, se aparecer minha cara naquilo, me consultar. Perguntar se autorizei. Se não autorizei, bloquear.
BBC News Brasil – O senhor disse que não anuncia jogos digitais, as bets. Tem uma regra do que faz ou não faz?
Tony – Não é como se eu ficasse pensando. É simples. Você bebe álcool? Bebo, adoro vinho, uísque, que não são bebidas para entorpecer, são para degustar. Bebo, mas não anuncio álcool, porque sei do meu controle com álcool, mas não sobre o dos outros. Mesma coisa com remédio: quem receita é médico.
Falo com muito cuidado, porque parece que estou criticando quem faz. Já, já sai 'Tony Ramos é contra quem faz propaganda de remédio'. Não sou contra ninguém.
Eu não faço. É primeira pessoa. Agora, se alguém está fazendo, deixa ganhar o cachê dele. Não está roubando ninguém. Se foi aprovado pela Anvisa e está no mercado de forma legal, tudo bem. E jogo muito menos. Não me convidem.
BBC News Brasil – O senhor manteve uma postura neutra e não participou da divisão que a classe artística enfrentou nos últimos anos devido à política. Não se ouviu dizer que Tony Ramos brigou com alguém, né?
Tony – Nunca fugi do tema política. Só não expresso partidos, candidatos ou em quem vou votar. Não quero ser indutor de voto para ninguém.
Quem tem que votar, que vote com sua consciência e em busca de algo positivo para você, para os seus filhos. Não gosto de promessas vãs, frias, nunca compridas. Sempre me pautei pela ética. Lutei pelas Diretas Já e nunca me arrependi.
Subi aos palanques, porque eram pluripartidários, clamando pelo voto direto, pedindo 'pelo amor de Deus, deixem-me votar'. Mas acabou. Tem um candidato que prefiro? Isso é meu. Sou um homem que ama a liberdade e a democracia. Como disse Winston Churchill, a democracia é complicada, difícil, trabalhosa, mas ainda não inventaram nada melhor do que ela.
Este é meu lema: democracia, vida, respeito, entender os novos tempos. Você pode não comungar totalmente com os novos tempos, mas tem que aceitar as manifestações de liberdade de muitos que, durante muito tempo, estiveram oprimidos. Isso é vida. E exigir, nos bons termos da exigência, que te respeitem do jeito que você é. Porque hoje em dia é comum: falou alguma coisa diferente, você é comunista! Comunista, eu? Menos, né? Sou humanista.

Crédito, Manoella Mello/Divulgação
BBC News Brasil – O senhor também citou a inteligência artificial. Como vê essa tecnologia?
Tony – Ela é bem-vinda. Já atua na ciência, por exemplo. Mas inteligência artificial nenhuma substitui o olho no olho; ou eu, numa gravação, ir a Paris e segurar na Torre Eiffel.
Uma maquete, digital ou não, nunca será igual. Tem cromatura, cor, respiração. É diferente. Quando gravei na Índia, era impressionante, a pele mudava, a respiração era outra. Nada substitui isso.
É bem-vinda a inteligência artificial para o bem, mas ela vai ser usada para o mal. Campanha política então nem tenho dúvida. Os donos dessas ferramentas deveriam pensar: esse político realmente falou isso? Mas será que vão ter essa preocupação? São tempos esquisitos.
BBC News Brasil – Em mais de seis décadas de carreira, o senhor nunca ficou um ano sem trabalhar. É medo, é necessidade?
Tony – Não é medo e não é necessidade financeira. Eu estaria mentindo grosseiramente. Claro, ninguém aqui é o Bill Gates, que pode ir para a Jamaica e esquecer a vida. Mas é uma vontade do trabalho.
Eu me encanto pelos projetos, como me encantei por esta novela. Tenho disciplina intelectual, gosto de ler grandes filósofos, e gosto de levar entretenimento ao público brasileiro, provocar discussões através disso.
Enquanto Deus me permitir, pretendo continuar trabalhando. É lógico que, entre uma novela e outra, vou querer uma pausa, vou fazer teatro, porque me realimenta.
BBC News Brasil – No ano retrasado, o senhor foi internado na UTI. Foi só um susto? Está bem?
Tony – Foi um susto grave, mas estou excelente. Estava trabalhando, de repente tive dor de cabeça, desmaiei e acordei na UTI. Mas sempre lidei com isso com objetividade — falar sobre finitude, prevenir-se para a vida —, porque isso é saudável. Não podemos deixar a vida rolar.
Durante a última reprise de Rainha da Sucata, uma pessoa no aeroporto me falou: 'Estou te vendo no Vale a Pena Ver de Novo. Novinho!'. 'Sim, agora estou velhinho', eu respondi. Todos envelhecemos — e que bom. Significa que estamos vivos.

German (DE)
English (US)
Spanish (ES)
French (FR)
Hindi (IN)
Italian (IT)
Portuguese (BR)
Russian (RU)
1 hora atrás
2





:strip_icc()/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2023/l/g/UvNZinRh2puy1SCdeg8w/cb1b14f2-970b-4f5c-a175-75a6c34ef729.jpg)

:strip_icc()/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_08fbf48bc0524877943fe86e43087e7a/internal_photos/bs/2024/o/u/v2hqAIQhAxupABJOskKg/1-captura-de-tela-2024-07-19-185812-39009722.png)








Comentários
Aproveite ao máximo as notícias fazendo login
Entrar Registro