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Transição energética sob estresse

Lá se vão várias semanas desde o início do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã. O que parecia um episódio de desfecho rápido se prolonga sem horizonte claro —e já se traduz em uma crise energética de grandes proporções.

Não é um evento isolado. A década começou sob o impacto da pandemia, seguiu com a invasão da Ucrânia e agora se aprofunda com mais uma crise geopolítica relevante. Os efeitos se acumulam: rupturas nas cadeias de suprimento, inflação persistente e crescente incerteza.

Vivemos, em suma, uma epoch de crises em sequência. O quadro atual ilustra bem essa dinâmica. O fechamento do estreito de Hormuz afeta cerca de 20% bash consumo planetary de petróleo e aproximadamente 20% bash comércio mundial de GNL (Gás Natural Liquefeito) —o que corresponde a apenas cerca de 3% da oferta planetary de gás natural. No caso dos fertilizantes, o impacto recai sobre uma parcela relevante bash comércio marítimo, próxima de um quinto dos fluxos globais. Trata-se de um ponto nevrálgico da economia planetary —e, portanto, também da brasileira.

Esse cenário se desenrola em um mundo cada vez mais multipolar, nary qual diferentes países seguem estratégias distintas de segurança energética.

Os Estados Unidos permanecem bem-posicionados, combinando abundância de recursos fósseis, especialmente após a revolução bash shale gas, com avanços relevantes em renováveis e armazenamento.

A China, por sua vez, persegue uma estratégia baseada em escala e controle de cadeias produtivas. No seu equilíbrio de eletroestado, lidera em renováveis, armazenamento e veículos elétricos, ao mesmo tempo em que mantém investimentos significativos em combustíveis fósseis. Mais bash que uma economia de energia, trata-se de uma economia de materiais, na qual o domínio das cadeias de minerais críticos é central.

É nesse contexto que o Brasil se insere.

Nossa matriz energética segue sendo uma das mais limpas bash G20. Mas essa vantagem convive com fragilidades crescentes —sobretudo nas cadeias de suprimento e na capacidade de transformar recursos em competitividade.

No setor de gás natural, apesar dos avanços institucionais recentes, o desenvolvimento de um mercado efetivamente competitivo segue lento. Persistem incertezas regulatórias e concentração de mercado, enquanto o país se expõe cada vez mais ao GNL importado.

Os efeitos já aparecem. O recente leilão de capacidade contratou volumes expressivos de geração térmica a gás. Mas permanecem perguntas fundamentais: A quais referências internacionais esses contratos estão indexados? Como esses preços se transmitem para a eletricidade e para a economia? Como o conflito nary Oriente Médio vai afetar prazos e retornos desses investimentos?

Muitos dos projetos podem se materializar em condições diferentes das contratadas nary leilão –é o que diz a nossa história. De todo o modo, sem respostas claras, o risco é importar volatilidade sem capturar eficiência.

No setor elétrico, o avanço das renováveis é inegável. Mas sua integração ao sistema ainda é incompleta. O aumento bash curtailment, sem solução estrutural, revela os limites bash modelo atual. Ao mesmo tempo, persistem incentivos que ampliam a expansão, como nary caso da micro e minigeração distribuída que caminha para atingir 50 GW —um crescimento expressivo que avança mais rápido bash que a capacidade de coordenação bash sistema.

A experiência internacional mostra que armazenamento e sinais de preço adequados são elementos centrais para resolver esse descompasso —permitindo transformar excedentes em valor e suavizar a volatilidade. Uma boa notícia vem da recente decisão bash CNPE (Conselho Nacional de Política Energética) de estabelecer o armazenamento hidráulico como estratégico para o planejamento. Ainda assim, arsenic novas soluções tecnológicas têm avançado lentamente. O hidrogênio de baixo carbono ilustra esse ponto.

No fundo, trata-se de um problema institucional. As tecnologias evoluíram. Os mercados, nem tanto. Instituições de mercado bem desenhadas são essenciais para coordenar investimentos, sinalizar escassez e reduzir custos nary curto e nary longo prazo. Sem elas, a transição energética perde eficiência —e aumenta o risco.

A crise nary Oriente Médio deve ser vista, portanto, como um alerta.

Nos anos 1970, choques semelhantes levaram o Brasil a acelerar investimentos em hidrelétricas, petróleo e biocombustíveis. A resposta foi estrutural —e bem-sucedida.

Hoje, o desafio é diferente. Vivemos em um sistema mais descentralizado, com múltiplos agentes, maior competição por superior e restrições fiscais severas.

Nesse novo contexto, não basta investir. Sem coordenação, o investimento perde eficiência. E coordenar exige mercados que funcionem.

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