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Transporte por app encareceu 56% em 2025; motoristas se dizem prejudicados

A Uber, por exemplo, só registrou o primeiro ano no azul em 2023, depois de acumular ao menos US$ 31,5 bilhões em perdas desde 2014, segundo reportagem do jornal inglês Financial Times.

Neste cenário, saem de cena as "promoções" oferecidas tanto a passageiros quanto a trabalhadores — subsídios bancados por fundos de capital de risco que, por vários anos, promoveram a acelerada expansão dessas empresas em todo o mundo, às custas da própria lucratividade das operações.

Como os algoritmos aumentam a rentabilidade de plataformas

Os aplicativos têm apostado no refinamento de seus algoritmos, precificando as tarifas não apenas em função do tempo e do percurso das corridas. Condições meteorológicas e nível de demanda pelo serviço são alguns dos fatores que influenciam na definição dos valores.

Um motorista de Florianópolis (SC) ouvido pela coluna diz que até o domicílio e a nacionalidade do cliente são levados em conta no cálculo. "A gente sente isso quando a viagem está pagando bem: a gente sabe que é passageiro de fora", garante.

O condutor fornece mais um exemplo para explicar o funcionamento dos algoritmos. Quando sai da capital catarinense em direção a outros municípios, ele afirma receber uma média de R$ 2,00 por quilômetro rodado. O percurso de volta, no entanto, rende consideravelmente menos.

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"Se estou em Balneário Camboriú [a 85 quilômetros de Florianópolis], a plataforma vai oferecer um valor abaixo [do oferecido a um motorista local] porque sabe que eu preciso daquela viagem [para voltar à capital]. Chega a R$ 1,10 o quilômetro do retorno", exemplifica.

A precificação dinâmica é um movimento global. Em junho do ano passado, a Universidade de Oxford, da Inglaterra, publicou um estudo com base em 1,5 milhão de corridas feitas por 258 motoristas da Uber no Reino Unido.

Divulgada pelo jornal The Guardian, a pesquisa concluiu que os condutores tiveram queda nos rendimentos desde a implementação dos novos algoritmos, em 2023 — a média dos descontos cobrados pelo aplicativo ficou em 29%, segundo o relatório.

Também em junho do ano passado, o site de notícias Business Insider mostrou que um estudo da Columbia Business School, dos Estados Unidos, havia examinado 25 mil corridas de um único motorista da Uber. De acordo com o autor da pesquisa, a média dos descontos aplicados pela plataforma subiu de 32% para 42% em três anos, com a precificação dinâmica.

Motoristas brasileiros querem limitar descontos cobrados por apps

Lideranças de motoristas pressionam por uma regulamentação, atualmente em discussão no Congresso Nacional, para garantir mais transparência à atuação das plataformas e estabelecer critérios mais claros de remuneração. Em alguns casos, a comissão retida dos trabalhadores pelos aplicativos supera 50% do valor pago pelo passageiro, sem qualquer tipo de aviso.

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"Antigamente, as empresas descontavam de 20% a 25%. O que a gente quer é que diminua o valor do desconto. Tudo tem aumentado, e os ganhos dos trabalhadores de aplicativo têm caído cada vez mais", protesta Luiz Corrêa, presidente Sindicato dos Prestadores de Serviço por Meio de Aplicativo do Estado do Rio de Janeiro e Região Metropolitana.

"Recebemos muita reclamação dos passageiros sobre o valor [das viagens] estar alto, principalmente em dezembro, mas o valor dos aplicativos para o motorista só diminuiu nos últimos tempos", diz Carina Trindade, presidente do Sindicato dos Trabalhadores de Aplicativos de Transporte Privado e Logística do Rio Grande do Sul.

Corrêa e Trindade têm participado das discussões em Brasília sobre a regulamentação da atividade dos motoristas de aplicativo. Dentre outras previsões, o atual relatório do Projeto de Lei Complementar (PLP) 152/2025, que tramita em uma comissão especial da Câmara dos Deputados, limita a 30% a comissão cobrada pelos aplicativos.

O que dizem os aplicativos

Representante das principais plataformas do país, a Amobitec (Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia) rechaça a atual redação do PLP 152 e sustenta que uma eventual fixação de um desconto máximo coloca em risco o modelo de negócios dos aplicativos, baseado na precificação dinâmica. De acordo com a entidade, a limitação teria como efeitos colaterais a redução dos ganhos dos motoristas e encarecimento das corridas para os passageiros.

"Os valores [das corridas] podem ter variação dinâmica alinhados com as estratégias comerciais de cada plataforma para manter a confiabilidade no serviço, a atratividade nos ganhos e a competitividade no mercado no qual atuam", diz uma nota distribuída à imprensa pela Amobitec após a divulgação dos dados oficiais do IBGE sobre a inflação de 2025.

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Ainda segundo o posicionamento, "as empresas têm equipes dedicadas que fazem um acompanhamento constante dos principais custos que impactam motoristas parceiros e realizam reajustes nos ganhos periodicamente. De acordo com pesquisa realizada pelo Cebrap, entre maio de 2021 e abril de 2022 (primeira edição da pesquisa) e, entre maio de 2023 e abril de 2024 (edição atual), houve um aumento real (acima da inflação) de 5,4% na remuneração por hora em corrida desses trabalhadores".

Entenda como o IBGE calcula a inflação do transporte por aplicativo

A nota da Amobitec questiona os dados do IBGE. "A metodologia específica do IPCA [Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo] para a coleta de preços de corridas intermediadas por aplicativos é desconhecida, considerando que há alguns parâmetros inerentes à precificação dinâmica praticada pelo setor", diz o texto.

A entidade alega ainda que "não há informações disponíveis sobre quantas e quais empresas de aplicativos são consideradas na pesquisa, assim como a participação de cada uma no cálculo".

Em entrevista à coluna, o gerente do IPCA no IBGE, Fernando Gonçalves, explica que o monitoramento da inflação do transporte por aplicativos segue a mesma lógica do acompanhamento dos preços das passagens aéreas, por meio do uso de robôs.

"A gente simula várias vezes ao dia, ao longo do mês, todos os dias, viagens em determinados horários e trajetos pré-definidos: de um determinado local para um um centro comercial ou para um local turístico", detalha Gonçalves.

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O gerente do IPCA explica que, para evitar distorções na compilação dos dados, o corpo técnico do IBGE não revela horários, percursos e nomes das empresas. "A coleta é feita de forma dinâmica, não é [feita] por pessoas, é por robô — o chamado de 'web scraping' (extração automatizada de dados da internet)", explica.

"A gente simula essas viagens e depois pega uma média dos valores. É esse valor que a gente capta como sendo o valor médio representativo das corridas naquele mês, e [depois] compara com o mês anterior", finaliza.

Reportagem

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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