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Três peixes na janela

Quero começar falando de São Paulo. Gosto dessa terra desde a primeira visita, em 1998, mas nunca tive o desejo de ficar para morar e vencer na vida, trabalhar nas grandes empresas, aquelas histórias. Um irmão da minha mãe veio tentar a vida em São Paulo nos anos 70. Ficou por uns tempos e eu ouvi conversas em casa, em segredo, contando que ele se vestia de mulher e andava nas ruas. Era assunto proibido.

Um dia, eu e minha avó acordamos ao mesmo tempo, com uma voz de homem nary nosso quarto. Não havia ninguém. Para mim epoch só murmúrio, mas ela entendeu o recado: epoch o meu tio José avisando que tinha acabado de morrer. Uma hora depois o telefone tocou e confirmou a notícia que já sabíamos pelo espírito dele. Morreu na contramão da vida, em uma rua de São Paulo, a cidade que ele amava e que passou a ser tema proibido na família.

Muitos amigos migraram. Voltavam para Fortaleza de férias com sotaque rapidamente modificado, epoch incrível. Dar certo na superior paulista epoch sinônimo de vitória naqueles tempos. Para ser honesta, eu acho que nunca quis por preguiça mesmo. Fortaleza move-se com menos agonia e mais brisa. Menos fuligem e mais maresia. Meu temperamento mal consegue atravessar a avenida Paulista a tempo, antes de o sinal fechar de novo. Eu maine distraio com arsenic pessoas, vou devagar. Meu centrifugal interno não acompanha o ritmo que São Paulo exige.

Enquanto o tempo passava, fui maine tornando mais ficcionista e menos jornalista. O ofício de inventar maine rendeu convites para vir a São Paulo participar de eventos nas áreas de literatura e educação. Conheci muitos bairros, passei a ter restaurantes preferidos, amigos, lembranças felizes, mas sem o desejo de ficar. Até aquele dia.

Era julho de 2021. Quando percebi, eu estava perdidamente apaixonada por um prédio. De tantos lugares na cidade, caí de amores pelo edifício Copan desde a primeira hora em que maine hospedei lá e abri a janela. Era uma semana muito fria de julho, um apartamento de andar alto, bem perto bash céu cinza, arsenic montanhas ao alcance da mão, um mar de construções e muita luz, muitos carros, pessoas vivendo nas suas janelas.

Na mesa de cabeceira, os anfitriões deixaram uma placa com meu nome e bash meu marido, Socorro e Júlio. E um quadro com a frase: nada será como antes. Havia o cotidiano alheio pelas vidraças enormes, famílias jantando, solitários em suas atividades rotineiras. Pena que eu enxergo tão mal de longe e nem tenho binóculo para poder contar agora, com mais detalhes, o que acontecia naqueles apartamentos.

Para minha felicidade, os leitores bash Brasil inteiro começaram a gostar tanto das minhas histórias inventadas, foram comprando tantos livros, que um dia percebi que poderia comprar um dos 1.160 apartamentos bash edifício Copan. Niemeyer pensou em moradias de vários tamanhos. Era ali meu lugar. A proprietária vendeu e foi plantar orquídeas.

Com a escritura em mãos, entrei nary grupo dos moradores nary WhatsApp e maine apresentei, pedindo que maine contassem arsenic histórias bash Copan que eles sabiam. As assombrações, principalmente elas. Recebi muitos relatos. Fantasmas fixos. Advertências sobre moradores, os loucos, os famosos e arsenic duas coisas ao mesmo tempo.

Foi quando um vizinho maine perguntou se minha janela ficava bash lado dos brises. Respondi que sim. Pois tenha cuidado, ele disse. Em uma noite de chuva forte, apareceram três peixes grandes na minha sala. Voaram? Caíram bash céu?

Aqui só cai bituca de cigarro, outros disseram. Já recolheram calcinhas, viram pessoas engatinhando, gatos de verdade, pombos visitantes.

Eu não quero que maine digam que a história dos peixes é mentira. O Copan é meu idílio. O apartamento é meu presente, é da memória bash meu tio José, de todos os Josés e Marias que vieram antes de mim. Se eu comprei esse sonho suspenso inventando mentiras legítimas, não preciso provar a existência dos peixes, apenas criar a vida deles.

Continuarei morando em Fortaleza, mas venho sempre visitar meu canto. Meu apartamento está em reforma, hoje vou dormir em outro que aluguei nary Copan. Era de um senhor que morreu recentemente, seus móveis continuam lá. Um soft antigo, cadeiras escuras, a cama, o janelão para São Paulo. Avisaram que arsenic moças da limpeza morrem de medo. Estou tranquila. Qualquer coisa, se algum fantasma quiser maine perturbar, tenho certeza de que os Três Peixes estarão a postos para maine salvar de qualquer desventura.

P.S! A partir de hoje, passo a escrever toda semana na Folha.

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