2 horas atrás 2

Trump, o sociopata na esquina da História

Nestes dias, tenho lembrado de uma tirada de José Saramago com mais de 20 anos, quando lançou o livro "Ensaio sobre a Lucidez". Perguntaram-lhe sobre a carga negativa com que olhava para o ar do tempo e respondeu: "Eu não sou pessimista, o mundo é que é péssimo".

Tal como na natureza, a evolução social e política também é feita de ciclos, e não é preciso ter lucidez acima da média para perceber que o momento atual é bastante sombrio. Depois de um período de encantamento, em que parecia encontrada a fórmula perfeita que combinava a paz, a democracia, o capitalismo e uma ordem mundial baseada em regras, ficou claro que o otimismo era manifestamente exagerado. O mundo está péssimo.

Tal como no final dos anos 30 do século passado, hoje estamos atravessando uma esquina da História. As esquinas trazem incertezas pela frente, são encruzilhadas, lugares angulosos onde acidentes acontecem.

Nesta esquina, a personagem principal é Donald Trump. Foi ele quem, a partir de 2015, deixou intermitentes os semáforos, desorientou o tráfego e esburacou o chão comum.

Donald Trump não tem um plano para o mundo —ele tem um plano para o seu umbigo. Toda a sua lógica é patologicamente narcísica e transacional, se baseia apenas no que é melhor para ele, para seus interesses. Trump não quer fazer a América grande outra vez e muito menos tornar o planeta um lugar melhor —ele quer fazer-se grande, porque não passa de uma criança com traços de sociopatia.

Esta semana, voltamos a constatar isso, depois da operação conjunta com Israel no Irã, na qual foi assassinado o líder Ali Khamenei. Observação prévia: Khamenei não merece condescendência, era um ditador opressivo e o seu regime, assassino. Mas, depois de Trump ter feito toda uma campanha presidencial prometendo acabar com as guerras, acaba de lançar o mundo num conflito regional imprevisível na região geopoliticamente mais complexa do globo, o Oriente Médio.

Soma, assim, mais uma às sete intervenções militares feitas em um ano —Irã, Iraque, Nigéria, Somália, Síria, Venezuela e Iêmen. Nenhum presidente anterior atuou em tantos países distintos em tão curto espaço de tempo. E faz isso, mais uma vez, em violação das leis americanas, em que a Constituição obriga à intervenção do Congresso, e das normas de direito internacional público, depois de enfraquecer o papel da ONU e da Otan.

Mais grave ainda, faz isso sem um plano, o que ressoa tristemente à desastrosa operação no Iraque em 2003: cria um perigosíssimo vácuo e atira para os iranianos a responsabilidade de encontrar uma saída.

Tal como na Venezuela, a preocupação nunca foi com a democracia, mas apenas com o petróleo, também agora a motivação não é a ameaça nuclear: é engrandecer-se perante o seu eleitorado (tal como em 2013, aliás, acusou Obama de querer fazer), quando está fragilizado na sua popularidade por causa dos Epstein Files e às vésperas das eleições de meio de mandato.

De um ponto de vista estratégico, nada tem lógica: se há poucas semanas parecia anunciada a "Doutrina Donroe", focando a esfera de influência dos Estados Unidos no continente americano, hoje percebe-se que sua única estratégia é o caos.

Donald Trump é um perigo para o mundo. Não vejo a hora de virarmos essa esquina.

LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Leia o artigo inteiro

Do Twitter

Comentários

Aproveite ao máximo as notícias fazendo login
Entrar Registro