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Trump usa comércio para camuflar objetivo de interferir nas eleições

Carnes, café, frutas e sucos, aviões e suas partes entram num conjunto amplo de produtos de interesse do consumidor americano e, por isso, "sensíveis" para a formação de pressões inflacionárias.

Trata-se de uma reprodução da situação criada por Trump no ano passado, com a imposição de tarifas de até 50% a produtos brasileiros. Mas agora já com uma lista mais robusta de exceções, que contemplam itens aos quais a sobretaxação de 2025 causou não só pressões inflacionárias, mas também desconforto a importadores e consumidores americanos.

Agora é na lei

A diferença, que não é pequena, desta vez reside no fato de que o possível tarifaço terá o respaldo de uma lei em vigor, não mais de uma decisão pessoal de Trump, que terminou derrubada em tribunais. Para que as sanções passem a valer, basta apenas o cumprimento de rituais protocolares previstos na seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que terminam em 15 de julho, depois de audiências públicas.

São óbvios os efeitos comerciais e econômicos negativos do novo tarifaço que Trump está prestes a impor ao Brasil. A experiência do ano passado, porém, mostra que esses efeitos tendem a ser em parte limitados.

Embora as exportações brasileiras para os Estados Unidos tenham encolhido 20% sobre o que foi vendido aos americanos no mesmo período de 2024, muito do que deixou de ser exportado para os EUA foi redirecionado. Aumentaram as vendas brasileiras para países latino-americanos — Chile, Argentina e México —, assim como para a China.

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No final, as exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram nem 7% no conjunto de 2025, fazendo com que a participação do Brasil nas importações americanas recuasse de 12% para 10% do total.

Gentilezas enganam

Apesar da troca de gentilezas e amenidades nas conversas de Trump com o presidente Lula, a escalada do governo Trump sobre o Brasil, neste ano eleitoral, não esconde seu caráter político e a intenção de interferir no processo eleitoral brasileiro.

Variadas provas de que a pauta comercial está sendo usada como pretexto para outros objetivos podem ser encontradas na fragilidade das alegações de práticas desleais brasileiras, que estão dando suporte às sanções,.

As acusações de censura às bigtechs contêm insinuações contra regulações que impeçam interferências econômicas e políticas, que também estão sendo adotadas na Europa e em outras partes do mundo.

A mais objetivamente incoerente, contudo, diz respeito à suposta desídia do governo Lula no combate ao desmatamento. Neste terceiro mandato, Lula reduziu o desmatamento em 50% e o processo está mantendo continuidade. A taxa de desmatamento, em 2026, tende a ser a menor em quatro décadas.

Também no caso do Pix, os argumentos americanos são insuficientes para evitar que se identifique nas acusações uma defesa indevida de empresas americanas de cartões de crédito. Se é verdade que o Banco Central ao mesmo tempo regula o setor de pagamentos e opera o Pix, não há qualquer impedimento concorrencial para a operação neste mercado.

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No caso das acusações de conflito de interesses e deslealdade concorrencial ao Pix, resta também um não declarado ponto para atacar o tecnologicamente mais avançado sistema de pagamentos instantâneos brasileiro. É o temor americano de que o Pix possa ser usado pelos Brics, a comunidade econômica liderada pela China de que o Brasil faz parte, para avançar numa área de influência comercial e internacional fora do âmbito do dólar.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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